Recife aplaude a volta de Fernanda Montenegro

Seis anos depois da consagração de Central do Brasil, a atriz Fernanda Montenegro voltou ao Teatro Guararapes, desta vez com o longa-metragem O Outro Lado da Rua, de Marcos Berstein. Não foi a mesma coisa. Naquela ocasião, Fernanda foi aplaudida durante dez minutos, em pé, por uma platéia comovida. Se desta vez não faltou a stand ovation, ela foi mais comedida, mais intimista, digamos, como pede aliás o clima do filme de Berstein, em sua estréia no longa-metragem. De qualquer forma, o Guararapes, sede do 8.º Cine PE - Festival do Audiovisual (antigo Festival de Cinema do Recife) estava com seus 2.680 lugares ocupados na noite de quinta-feira. E havia mais gente sentada pelo chão.Essa platéia acompanhou com o maior respeito e interesse O Outro Lado da Rua, filme que bebe nas fontes generosas do Alfred Hitchcock, de Janela Indiscreta, e Não Amarás, de Krzsystof Kieslowski, o genial diretor polonês. Fernanda Montenegro é Regina, uma informante de polícia, moradora em Copacabana. Como ela tem o hábito de vigiar a vizinhança pela janela, flagra um suposto assassinato. Um juiz aposentado, vivido por Raul Cortez, é visto aplicando uma mais do que suspeita injeção em uma mulher deitada em uma cama. Pouco depois essa mulher aparece morta. O filme no entanto não se detém, ou se detém pouco, na trama policial. Prefere prestar mais atenção ao relacionamento entre os dois personagens de terceira idade, que terminam por se conhecer e se apaixonar. "O tema é tabu", disse em entrevista Fernanda, "tanto que o próprio diretor ficou cheio de dedos quando veio pedir para eu e o Raul fazermos uma cena de sexo".O amor na velhice já foi abordado no cinema brasileiro pelo longa-metragem Chuvas de Verão. "Me contaram que quando os protagonistas do filme de Cacá Diegues vão para a cama, aconteceu uma vaia da platéia" , disse Fernanda. "Então ficamos prevenidos para ver qual seria a reação do público aqui em Pernambuco. E a reação foi a melhor possível, pois a cena foi assistida em silêncio, com todo a atenção que merecia. Prova da maturidade dessa platéia, que veio para ver cinema e não apenas para encher o tempo de uma noite", completou a atriz.O Outro Lado da Rua é de fato um bonito filme intimista, que aposta numa dramaturgia mais clássica e centrada no trabalho do ator. Aliás, Fernanda Montenegro agradeceu essa escolha do diretor. "O cinema de hoje", disse a atriz, "apresenta um batimento rápido demais, um stress muito grande, que não dá tempo para o trabalho do ator se desenvolver".Dessa maneira, a opção de Berstein é mesmo uma exceção, que em sua atenção para com os atores lembra o do britânico Mike Leigh, sobretudo em Verdades e Mentiras. Mas também é verdade que, ao optar por esse tipo de filme, que poderia ser enquadrado sob o rótulo de "cinema brasileiro de qualidade", Berstein passa por cima de uma dramaturgia que poderia ser mais densa, talvez mais próxima das contradições tanto dos personagens quanto do seu ambiente. Mesmo nas cenas mais documentais, como as do inferninho em Copacabana, a opção é por uma visão de certo modo atenuada das coisas, menos conflitiva. Tudo isso se traduz tanto no enredo quando na própria opção de linguagem, com tempos longos e planos fixos, atores enquadrados em close e uma câmera bastante estável, como em busca de equilíbrio.Se no longa houve essa opção por um certo conservadorismo estético, o curta-metragem reafirmou-se como espaço da experimentação. Isso, pelo menos em três filmes apresentados na noite: Transubstancial, do paraibano Torquato Joel, Infinitamente Maio, do paranaense Marcos Jorge, e Imensidade, do paulista Amílcar Claro. Infinitamente Maio aposta na diversidade dos pontos de vista em um triângulo amoroso. Transubstancial e Imensidade recuperam, visualmente, os trabalhos de dois poetas: Augusto dos Anjos e Castro Alves. São filmes de profunda imersão na dimensão poética e nas possibilidades (e problemas) implicados na sua transposição para o campo das imagens cinematográficas. Imensidade, em particular, atualiza a poesia social de Castro Alves para uma São Paulo em transe do século 21. É uma aula de cinema e mostra como o rigor formal pode (deve, na verdade) ser aliado da emoção estética. O Outro Lado da Rua foi o primeiro concorrente da competição de longas-metragens. Hoje à noite será apresentado o segundo, Contra Todos, do também estreante em longas Roberto Moreira, de São Paulo.

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