Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Reabre o Cine Bijou, uma das joias da cinefilia paulistana

A princípio apenas aos sábados, o antigo cinema de arte volta à cena cultural com mostra de filmes sobre o jornalismo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

28 Outubro 2017 | 06h00

Neste sábado, 28, às 15h, com a apresentação do clássico Cidadão Kane, de Orson Welles, volta de novo ao cartaz um ícone da cinefilia paulistana, o Cine Bijou, na Praça Roosevelt.

A iniciativa de reabertura do antigo cinema é do argentino Roberto Fernandez. Por enquanto, as sessões serão realizadas apenas aos sábados, sempre às 15h, pois no local continua a funcionar o Teatro Studio Heleny Guariba.

Nesta nova fase, o Bijou investe em filmes que falam do jornalismo e já tem definida sua programação até o final do ano. Depois de Kane, serão exibidos, a cada sábado, Terra em Transe, de Glauber Rocha (4/11), Rede de Intrigas, de Sidney Lumet (11/11), Capote, de Bennett Miller (18/11), A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder (25/11), O Quarto Poder, de Costa-Gavras (2/12), Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni (9/12), e O Preço de uma Verdade, de Billy Ray (16/12). O público poderá comprar a carteirinha de sócio por R$ 50, que dá direito a todas as sessões da mostra. Os ingressos avulsos custam R$ 10.

A mostra de abertura revela fidelidade a um antigo projeto do Bijou – a reapresentação de filmes de alta qualidade, que já haviam passado pelo circuito comercial, mas continuavam vivos na memória dos cinéfilos.

Esta sala independente teve seu auge durante os anos 1960, quando seus filmes de arte atraíam os professores, alunos e intelectuais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, que ficava bem ao lado, na rua Maria Antônia.

* Tudo sobre a 41.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Com a ditadura militar instalada após do golpe de 1964, o Bijou passou a funcionar também como polo de resistência. Para os que hoje, de forma inocente ou de aberta má-fé, pedem a volta do regime militar, convém lembrar que, durante esse período, todas as manifestações de inteligência e crítica eram vistas com desconfiança e sujeitas a repressão. Dessa forma, o Bijou cumpria seu papel de arejamento, programando filmes críticos e independentes. Sua condição de pequena sala lhe dava certa imunidade.

Como acontecia nesta fase já distante da cinefilia paulistana, os filmes não acabavam com o fim da projeção. Prolongavam-se pelos bares das redondezas e eram motivos de discussões noite adentro.

Por sua posição estratégica, no coração da cidade, o Bijou ficava perto do Bar Redondo e também dos botecos da rua Maria Antonia, que se transformara no nosso Quartier Latin durante as lutas de 1968. A guerra com o Mackenzie expulsara a Faculdade de Filosofia para a distante Cidade Universitária, mas a aura do ambiente estudantil permanecera pelo bairro e as ideias libertárias não haviam sido subjugadas como se pensava.

Durante os anos de chumbo ia-se ao Bijou, como a outros espaços isolados de cultura, os Teatros de Arena e Oficina, como a oásis nos quais se respirava uma democracia que, de fato, não mais existia na sociedade.

Num momento em que as liberdades parecem de novo ameaçadas, a volta do Bijou talvez seja um bom sinal. Ou, pelo menos, um alívio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.