Rap embala novo filme de Tata Amaral

Faz pouco tempo que a cineasta Tata Amaral mudou sua rotina. Estabeleceu horários rígidos para o trabalho e intervalos para comer e descansar. Enquanto está no computador, nada de atender telefones nem responder e-mails desnecessários. O relógio manda. Tata está concentrada na elaboração do roteiro de Antônia, título provisório de seu novo filme de ficção e terceira parte de sua trilogia sobre as três fases da mulher.A primeira e a segunda parte são conhecidas. Em Um Céu de Estrelas, a cabeleireira Dalva, interpretada pela atriz Leona Cavalli, representa a mulher na fase adulta. Em Através da Janela, a aposentada Selma, papel de Laura Cardoso, simboliza a mulher na velhice. Antônia trará como protagonista uma adolescente. Mãe solteira de um menino de colo, a personagem divide o barraco com a amiga Tati e tem o sonho de se tornar cantora e dançarina de rap."Será um musical", avisa Tata. A idéia é antiga. Surgiu durante a pré-produção de Através da Janela. A diretora identificou na seqüência de seus primeiros filmes uma correspondência com os arquétipos da mulher. Só faltava a fase inicial, a da mulher adolescente. Um roteiro foi escrito e a personagem ganhou seu nome de guerra, Lila Rapper.Mas outros projetos apareceram e o roteiro acabou sendo engavetado. O argumento em que Tata está trabalhando tomou forma durante a realização do documentário Vinte/Dez, realizado em parceria com Francisco César Filho, sobre a relação dos jovens da periferia com a cultura hip hop e o rap. Na fase de pesquisa, feita com base no livro Hip Hop - A Periferia Grita, de Janaina Rocha, Mirella Domenich e Patrícia Casseano, surgiram muitas histórias de meninas pobres e jovens mães solteiras.Não se espere, no entanto, um retrato do universo hip hop. Este é apenas um pano de fundo para se falar da condição dos jovens de periferia que utilizam o rap como instrumento de contestação e transformação. "Para mim, isso tem a ver com a evangelização das favelas", explica a diretora. "Não adianta reclamar, tem de fazer alguma coisa, levar consciência à comunidade."Seguindo o exemplo de Fernando Meirelles em Cidade de Deus, Tata pretende trabalhar com não-atores selecionados entre moradores das comunidades em que fará seu filme. Uma das idéias é fazer workshops de interpretação com os jovens e escolher entre eles os mais talhados para integrar o elenco. "Essa também é uma idéia antiga", revela a diretora.Tata está no segundo tratamento do roteiro de Antônia. Quer fazer um filme solto, sem amarras de produção. E o mais importante: registrando tudo em locações. Entre seus planos, está filmar no suporte digital e em preto-e-branco. "Fazer Vinte/Dez foi importante", pondera ela. "Agora sei que consigo trabalhar com uma equipe pequena e que usar as cores do digital, dependendo do caso, não é a melhor solução."Em uma primeira avaliação, Tata e o produtor Alain Fresnot chegaram a um orçamento de cerca de R$ 2 milhões. O projeto ainda não tem patrocinadores fechados, mas várias empresas acenaram com intenções positivas. "Temos também os editais e concursos que estão marcados para o segundo semestre", lembra. "E nós vamos estar neles."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.