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'Ralé' se apresenta como celebração da diferença

Filme põe em questão os gêneros e a relação com as drogas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2016 | 05h00

Helena Ignez toma o título da peça de Máximo Gorki e dela faz uma leitura livre e inventiva. Talvez só lhe conserve o título, e ainda assim lido em chave de ironia. Pois o termo “ralé” não se aplica ao tipo de povo que compõe a história. Talvez sejam assim denominados, por injúria e preconceito, pela porção majoritária e reacionária da população. Mas, na visão da diretora, essa “ralé”, de fato, é o sal da terra, a elite da transgressão. É quem, pela liberdade mental e de costumes, estabelece a possibilidade de avanço de uma sociedade tomada por periódicos surtos regressivos.

Ralé escala alguns ícones do que se poderia chamar de contracultura brasileira. A começar pelo cantor Ney Matogrosso, que já havia trabalhado com Helena em Luz nas Trevas, no papel do Bandido da Luz Vermelha. Há também a presença de Zé Celso Martinez Corrêa, sempre criativo, radical e provocador. Ney é o Barão, aristocrata viciado em drogas que substitui pela ayahuasca, tomada de forma ritualística. Zé Celso é um amigo, pianista à maneira de Liberace. Entram também na história Simone Spoladore, atriz de um “filme dentro do filme” a ser dirigido por crianças. E Djin Sganzerla, filha de Helena com Rogério Sganzerla, e o dramaturgo Mario Bortolotto. Na trama, nada linear e bastante fragmentada, o Barão vai se casar com um bailarino (Roberto Alencar), com a cerimônia oficiada por um transexual (André Guerreiro Lopes).

O filme se apresenta como celebração da diferença. Põe em questão os gêneros, o comportamento, a relação com as drogas, com o corpo, com a política. Assume uma embalagem musical tropicalista e questionadora.

Pelo que se disse, deduz-se toda a herança cultural embarcada sob forma de transgressão. Do cinema “marginal”, do qual a própria diretora foi atriz e musa – daí a recorrência de cenas de um filme representativo da época, Copacabana Mon Amour, no qual ela é protagonista. Depois, a bomba lisérgica sobre a cultura brasileira que foi a eclosão do tropicalismo, com sua subversão de valores e hierarquias – nivelamento das culturas “alta” e “baixa”, valorização do pop, certa ambivalência política estabelecida através da crítica à esquerda tradicional, vista como “careta”.

Esse caldo cria uma situação propícia a um filme estruturado em sua liberdade narrativa. Helena sente-se solta para inventar à vontade. A linha em que se forma é a do cinema não narrativo, fragmentado.

Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Julio Bressane. Não se preocupa em “construir” personagens, mesmo porque um personagem, nesse contexto estético, é sempre um ser em conflito, provisório, fragmentário, em oposição consigo mesmo e/ou com o mundo.

Tomemos o mundo – e aí está um possível ponto problemático do projeto.

O tom celebrativo e autocongratulatório é, por um lado, o da afirmação da diferença diante de um mundo que lhe é hostil. (E, pelo rumo que o país está tomando, cada vez mais hostil). Por outro, essa atitude de afirmação tende ao isolamento e à formação de gueto, ao contrário de suas inspirações iniciais, que desciam à cena pública e se colocavam na linha de confronto com a sociedade. Ora, confronto também é diálogo. Áspero, mas diálogo. O perigo da autocelebração é o isolamento, quando não a afirmação de superioridade.

De modo que é nesse ponto que o filme, tão inventivo e libertário, parece às vezes rodar em falso. Provavelmente, porque as figuras postas em jogo se sintam alheias aos “normais” da sociedade, e estes se julguem confortáveis e justificados em suas vidinhas pequeno-burguesas. Esse isolacionismo pode tirar tônus político ao projeto.

 

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