Rainha do lixo inspira documentário Estamira

Pode-se traçar uma ponte entre Estamira, o documentário de Marcos Prado que estréia hoje, e Moacir Arte Bruta, de Walter Carvalho. Ambos estiveram no Festival do Rio, no ano passado, ambos tratam de personagens que, a grosso modo, podem ser definidos como malucos. Uma fala pelos cotovelos, expondo pela via oral, um imaginário rico e complexo que abarca desde questões do cotidiano até outras mais metafísicas, como a própria existência de Deus; o outro, ermitão, possui um imaginário extravagante que exprime por meio de pinturas e desenhos. Se você ficou impressionado com Moacir, prepare-se agora para dona Estamira, como a chama, respeitosamente, o diretor.Quando seu documentário estreou no Festival do Rio, Prado já se antecipara à crítica, que achou o filme um tanto longo, dizendo que havia uns 20 minutos que o diretor faria bem em cortar. ?Os problemas localizavam-se principalmente na segunda metade, com três finais e uma utilização da música que não me satisfazia.? Prado incomodou-se quando viu, na tela, o filme que já estava podando. Quando Estamira chegou à Mostra de São Paulo, o diretor já havia procedido aos cortes. De 135 minutos, mais ou menos, o filme passara a ter 115 min, a versão que agora estréia na cidade.Prado sabe que corre risco de sofrer a mesma acusação atribuída ao fotógrafo Sebastião Salgado, a de cosmetizar a miséria. As imagens de Estamira são lindas, mesmo que o mundo ali retratado, o lixão do Jardim Gramacho, no Rio, não o seja. Prado tem consciência ecológica e política. Não estetiza a miséria e sim, humaniza figuras como Estamira, cuja imagem não rouba. Ele fez o filme com o consentimento dela, tentando lançar luzes sobre a personalidade dessa mulher incomum, num meio que, este sim, talvez tenha ficado comum, dentro da banalização da miséria brasileira que hoje em dia não escandaliza mais ninguém (mas deveria). Prado fotografava o lixão do Jardim Gramacho quando a prefeitura do Rio lançou um plano de reurbanização, com o objetivo de criar um aterro sanitário, impedindo que a poluição por ele produzida atingisse a Baía de Guanabara. Prado achou que precisava dar um rosto, ou rostos, ao lixão e seus problemas. Há seis anos, começou a fotografar mulheres.Uma das primeiras foi Estamira. Prado impressionou-se com as nuances psíquicas e o rico histórico da vida dessa mulher. Passou a acompanhá-la, mas não sabia que filme poderia retirar dali. A partir de um momento, a história da prisão e internação de Estamira, quando ela é diagnosticada como psicótica assolada por crises místicas, o filme começou a tomar forma. ?O que ela diz é fascinante e, muitas vezes, carrega uma lógica do discurso que transforma suas falas em verdades impactantes, sobre os médicos que a dopavam, por exemplo. A questão era - como dar credibilidade às falas de dona Estamira?? Era mais ou menos o problema de Walter Carvalho com Moacir, que o diretor, lá, resolveu usando um artista do circuito oficial (Siron Franco) para avalizar o artista marginal. Prado resolveu o problema construindo sua história em dois movimentos - o dialeto de Estamira e os depoimentos dos filhos, responsáveis por sua internação hospitalar.Num momento de grande riqueza do documentário brasileiro, o filme de Marcos Prado, surge com a edição de um livro de fotos sobre o Jardim Gramacho. O diretor não tira só beleza de um mundo degradado. Tira uma história de vida. O social, o psicológico, o existencial, tudo se funde na história de Estamira. E as conversas muitas vezes delirantes revelam-se um riquíssimo material para investigação. Como retrato humano, como análise social, como proposta estética, Estamira é um filme ousado e perturbador. Tem algo das imagens do inconsciente que Leon Hirszman criou, num clássico, a partir dos pacientes da doutora Nise da Silveira, mas o meio - a família, o hospital, o lixão - é aqui muito mais forte.A trilha sonora no CD EstamiraBaixo de lata, rochimbau, metrola, sintetizadores moog. Os sons que se ouvem em Estamira - Música Original do Filme, composições de Décio Rocha, não são sons ordinários, tampouco triviais ou vulgares. Há dois motivos: o primeiro é que o pernambucano Décio usa alguns instrumentos que cria com materiais reciclados, retirados do lixo. O segundo é a delicadeza das composições, um achado da nova MPB.São 16 faixas instrumentais, duas delas produzidas por Zeca Baleiro (Janela de Apartamento e Rio Niterói), em cuja banda Décio tocou como baixista (tocou ainda nas de Rita Ribeiro, Chico César e em projetos do produtor Suba). Alguma Coisa Mudou, que abre o disco, é uma vertiginosa viagem orientalizada, mântrica. Rio Niterói contrapõe uma batucada de lata contra um solo cirúrgico de contrabaixo. O teclado em De hoje em diante, o violão em Transbordo, a percussão em Um Dia sem Você. Encaixes perfeitos, beleza resgatada da rejeição. Criado em Peixinhos, Recife (?Da Lama ao Caos?, do mangue ao lixão), Rocha militou na lendária Banda de Pau e Corda. Na quarta, no Mistura Fina, no Rio, ele e banda lançam a trilha sonora do filme. (Jotabê Medeiros)Estamira (Br/2005, 115 min.) - Docum. Dir. Marcos Prado. Cotação: Ótimo

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.