Douglas Segars/The New York Times
Douglas Segars/The New York Times

Radha Blank prova com seu novo filme que descobrir a si mesmo não tem limite de idade

A escritora-diretora-estrela passou anos tentando impressionar o mundo do teatro. Agora, seu hit de Sundance, 'The Forty-Year-Old Version', é a prova de que os sonhos não têm data de validade

Alexis Soloski, The New York Times

10 de outubro de 2020 | 11h00

NOVA YORK - Em uma recente manhã de setembro, Radha Blank sentou-se em um banco cheio de bolhas de tinta logo após o Riverbank State Park, absorvendo o sol do final do verão. Caminhões passavam fazendo um barulhão na rodovia abaixo. As vespas voavam ao redor de uma lata de lixo. A máscara cirúrgica de Radha se enroscou em seus brincos de argola, mas nada poderia arruinar seu estado de espírito.



Ela murmurou para um cachorrinho com uma jaqueta listrada de zebra. O cachorro fez uma pausa e soltou um jato de urina. “Ele simplesmente nos abençoou”, disse ela.

Radha tinha visitado esse quarteirão do Hamilton Heights pela última vez há cerca de um ano, no primeiro dia de filmagem de The Forty-Year-Old Version, que estreou na Netflix na sexta-feira. Radha escreveu o filme. Ela também o dirigiu. Ela o estrela também, interpretando uma personagem chamada Radha, uma esforçada dramaturga de Nova York cujo último sucesso aconteceu há uma década.

Mas o filme discute a respeito de como descobrir a si mesmo não tem limite de idade. Depois que dá tudo errado em uma conversa com um produtor - ele pede a ela para escrever o livro para um musical de Harriet Tubman; ela o sufoca - Radha passa a noite chorando enquanto come costelinhas direto de uma embalagem para viagem e pela manhã ela está sonhando com uma nova carreira.

“Pense em mim fazendo hip-hop”, ela diz a seu agente, Archie (Peter Y. Kim), na cena no Riverbank.

"Fazendo o quê?", ele pergunta.

Voltar a este local um ano depois foi terapêutico, disse ela, “porque eu estava muito nervosa na época. Ninguém estava seguro quanto a isso. Todo mundo estava tipo, ‘Isso vai funcionar?’ ”.

The Forty-Year-Old Version, filmado em 35 mm em preto e branco, venceu a competição de direção no Festival de Cinema de Sundance de 2020 e imediatamente conseguiu um acordo com a Netflix. Funcionou. Para Radha, em seu vestido estampado, tênis brilhantes e chapéu de feltro achatado, passar aperto parecia uma coisa do passado.

O resumo de The Forty-Year-Old Version lembra muitas outras comédias. Uma bagunça de cidade grande se desenroscando? Já estive lá. Vi isso. (O título, um pesadelo de otimização de mecanismo de pesquisa, brinca com O Virgem de Quarenta Anos, de Judd Apatow.) Mas os heróis de filmes como esses geralmente não parecem Radha - mulheres, negras, nada ingênuas ou de tamanho pequeno. “O que o torna talvez inovador é que alguém que se parece comigo está no centro e atrás da câmera”, disse Radha.


 


O filme, primeiro de Radha, não é pura autobiografia. Ela ainda não estrangulou um produtor. Mas o apartamento do filme é o dela. Seu irmão verdadeiro interpreta seu irmão no filme. A dor de continuar acreditando em si mesma como artista quando o mundo da arte pensa o contrário e as velas nos bolos de aniversário que não param de aumentar? Isso é tudo dela.

“Acho que estou me colocando para fora do casulo”, disse ela.

Radha, que diz que sua idade está "na casa dos 40", tem mostrado a si mesma há um tempo. Ela cresceu no bairro de Williamsburg, no Brooklyn, apresentando-se para a família e os amigos, e, então, descobriu o teatro na City College, mais do que tudo por acidente. Durante seus anos de pós-graduação, ela atuou, fez stand-up e escreveu peças sem receber muito na forma de validação externa. Em 2008, ela foi aceita no Grupo de Escritores Emergentes do Public Theatre, um programa de prestígio para dramaturgos em início de carreira. Estrelas do teatro como Branden Jacobs-Jenkins e Dominique Morisseau ingressariam nas turmas subsequentes.

Quando o programa terminou, Radha tinha 12 peças escritas. Nenhuma grande companhia as produziria. Ela passou reunião após reunião malsucedida, chorando muito nos lobbies do teatro depois.

“Não acho que o teatro a tenha abraçado”, disse Keith Josef Adkins, diretor artístico do New Black Fest e um dos primeiros defensores do trabalho de Radha.

Radha acha que sabe por quê. “Eu não escreveria a versão da vida negra que valorizam. Eu não fiz pornografia da pobreza. Eu não fiz a África devastada pela guerra. Eu não fiz peças de época em que as pessoas sapatearam e cantaram”, disse ela.

Seu único trabalho produzido, Seed, encenado no National Black Theatre em 2011, recebeu uma crítica mediana do The New York Times. Radha ainda lembra do texto e pode citá-lo. “Ele chamava minha peça de ‘baixo orçamento’”, disse ela.

Niegel Smith, que dirigiu Seed e agora dirige o Flea Theatre, descreveu suas peças como “honestas e cruas”, mas também cheias de comédia e alegria. “Não era apenas sobre o trauma de ser negro”, disse ele. "Não era apenas quanto a dor de ser negro." Seed esgotou seu caminho. Não foi produzida novamente.

Um ou dois anos depois, após ser demitida do emprego de roteirista, ela colocou suas frustrações no papel, escrevendo uma série de 10 episódios, levemente ficcionalizada para a web, a respeito de se reinventar como rapper, RadhaMUS Prime. Então, duas semanas antes do início das filmagens, a mãe de Radha morreu. Radha descartou a série.

“Ela era minha melhor amiga”, disse Radha. “Ela foi minha primeira pessoa na audiência e minha maior defensora. Eu realmente não conseguia imaginar criar arte sem ela na plateia.”



Radha Blank não abandonou o projeto inteiramente. Ela cantou canções de hip-hop de RadhaMUS pela cidade. E depois de se mudar para Los Angeles para se juntar à equipe de roteiristas do seriado The Get Down, de Baz Luhrmann, ela reinventou sua série, primeiro como piloto, depois como roteiro.

Michelle Satter, diretora do programa de filmes do Sundance Institute, solicitou um rascunho e convidou Radha para se juntar ao prestigioso laboratório de roteiro do instituto. (Radha também fazia passagens pelos laboratórios de direção e produção criativa.) Michelle lembra de ter ouvido a primeira leitura ao vivo do roteiro de Radha. “Foi absolutamente arrebatador”, disse ela. “Sabíamos que estávamos na companhia de uma cineasta que vai fazer uma grande carreira. Aos 40 anos. ”

Os produtores não tinham certeza. Alguns tentaram dissuadi-la de fazer o filme em preto e branco, que Radha via como uma homenagem aos filmes que ela cresceu amando. (Ela menciona Cassavetes e, timidamente, um diretor a quem ela se referia apenas como “Schmoody Schmallen”.) Outros a incentivaram a escalar atores famosos. Radha se recusou. Ela não cedeu durante seus anos no teatro. Ela não cederia agora.

Ela não precisava. No Festival de Sundance de 2019, ela se encontrou com a escritora, atriz e produtora Lena Waithe (The Chi), uma amiga de longa data. Enquanto elas se sentavam juntas depois de uma exibição, Lena disse a ela: "Garota, onde está o seu filme? É isso que eu quero ver.”  Com o consentimento de Radha, Lena rapidamente encontrou financiamento e o filme entrou em produção no verão passado. Radha filmou tudo em 21 dias.

Kim, que interpreta o melhor amigo e agente de Radha, lembra-se de observá-la no set. “Ela nunca ficava parada”, disse ele em entrevista por telefone. “Ela estava correndo como um demônio da Tasmânia. Mas sempre que ela estava pronta para filme, ela estava realmente pronta. ”

De certo modo, Radha está pronta há anos. Seu talento, sua franqueza, sua comédia - nada disso é novo. Mas olhar para trás pelo visor é perceber que foram necessários todos aqueles anos de experiência - a atuação, a escrita, o rap, o ensino, as decepções profissionais, a perda de sua mãe - para fazer The Forty-Year-Old Version dessa forma distinta e vulnerável. “Eu literalmente coloquei tudo lá”, disse ela.

O que significa que ela fez sacrifícios. “Quer se trate de relacionamentos ou de ser mãe, essa coisa meio que me dominou pela maior parte da minha vida. E eu tenho tratado isso como um parceiro de vida, tornando-o minha prioridade ", disse ela.

Ela tem outras opções agora. Ela escreveu The Forty-Year-Old Version para amenizar sua solidão, seus sentimentos de rejeição e perda. Funcionou. Outro filme está em andamento, uma história de família que parece menos pessoal. Os teatros agora parecem interessados em suas peças. E ela quer encontrar tempo, disse ela, "para se sentar em uma varanda, bebericar chá, observar as pessoas e ficar em silêncio".

Porque uma mulher que fez um filme sobre descobrir a si mesma está pronta para mais. “Quero descobrir o que mais supostamente deveria estar fazendo. O que mais eu poderia estar fazendo”, disse ela. “Quero descobrir quem mais sou no mundo.”

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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