Annapurna Pictures
Annapurna Pictures

Questões difíceis são trazidas em 'Mulheres do Século 20'

"Sempre procuro abandonar o retrato estereotipado das mulheres”, diz a atriz Annette Bening, acrescentando que não está interessada em "idealizar as mulheres" pois é muito entediante.

O Estado de S.Paulo

19 Abril 2017 | 11h56

O novo filme 20th Century Women (Mulheres do século 20) começa em 1979 em Santa Barbara, Califórnia, onde Dorothea, uma mãe liberal interpretada por Annette Bening, acaba de ver seu Ford Galaxie em chamas. Ela odeia ver seu amado carro queimar, mas como nasceu em 1924 passou por situações piores. E assim, agradece aos bombeiros e os convida para sua casa, para vergonha do seu filho adolescente, que se queixa “você sabe que, quando os bombeiros chegam, as pessoas não os convidam para jantar”.

Dorothea, despreocupada com que os outros pensam, responde “Ah, sim? Por que não?”

Algumas cenas depois, quando um funcionário da escola diz que seu filho não pode ficar em casa, ela pergunta: “E por que não? Por que ele não pode faltar? E se tivesse uma necessidade legítima de não ir?”

Pode ser impossível traçar uma linha única com todas as suas interpretações e juntar todo o legado de uma grande atriz. Mas o que une as muitas mulheres que Annette interpretou na tela é a confiança com que faz essa simples e irreverente pergunta: “Por que não?”.

Annette fez grande sucesso em 1990 com seu trabalho, que lhe valeu uma indicação ao Oscar, em The Grifters (Os Imorais), em que interpreta uma charlatã que pensava: por que não usar o que a mãe lhe deu? Em Bugsy, a sua dama vulgar se perguntava: por que não trair um gângster? Em The American Presidente (Meu querido presidente), a lobista explosiva que interpretou indagava: Por não me apaixonar e entrar em choque com o homem mais poderoso do mundo? Em American Beauty (Beleza americana), Being Julia (Adorável Julia) e Mrs. Harris, as mulheres de Bening no final concluem: “Por que não lutar para ser livre mesmo se isso significa admitir um caso, destruir uma jovem rival no palco ou matar seu amado?

“Sempre procuro abandonar o retrato estereotipado das mulheres”, diz Annette, acrescentando que não está interessada em “idealizar as mulheres” pois é muito entediante.

Como Julianne Moore, que trabalha com ela em The Kids are All Right (Minhas mães e meu pai), Annette sempre está em busca de papéis idiossincráticos e complicados, não os convencionais, com interpretações imprevisíveis. De The Grifters a 20th Century Women, as mulheres que interpreta normalmente não são limitadas pelos papéis que a sociedade espera que desempenhem, do mesmo modo que a atriz, hoje com 58 anos, superou os papéis convencionais na tela, seja a ingênua sexy, da romântica, a estrela reputada e elegante ou, nos últimos anos, a mãe. O mesmo pode ser dito sobre o seu papel de esposa celebridade.

“As pessoas pensam o que pensam”, diz ela. Aliás usando uma roupa contrastante, vestia um suéter de cashmere creme e uma jaqueta de couro marrom. “Sei o que é verdade para mim”, afirma.

Repassar os 25 anos de entrevistas de Annette é ouvir suas consistentes e astutas perguntas sobre sua vida com seu marido Warren Beatty (que recentemente a dirigiu em Rules Don’ t Apply) e afirmar insistentemente que, na vida e na arte, está mais interessada em mulheres complexas, devastadas pelas contradições ou, como as descreveu, “seres humanos”.

A personagem Dorothea está baseada num ser humano real, Jan Mills, mãe do diretor e escritor Mike Mills (grande parte do seu filme Beginners (Toda forma de amor) foi inspirada em seu pai, Paul, e foi lançado depois que ela morreu). Jan Mills queria ser piloto do Exército mas perdeu a chance quando a 2a. Guerra Mundial terminou. Ela então tornou-se a primeira desenhista mulher no seu escritório de arquitetura e criou três filhos em Santa Bárbara. Mike diz que sua mãe era um misto de “Amelia Erhart e Humphrey Bogart - mas mais Bogart”, disse ele em entrevista por telefone.

No filme, Dorothea é uma mãe divorciada que aluga quartos na sua casa caindo aos pedaços. Esforçando-se para compreender o filho e sentindo que necessita de mais orientação, ela pede a duas jovens, uma delas uma adolescente na qual ele está interessado (Elle Fanning) e sua inquilina, que pinta os cabelos de cor rosa e gosta de punks (Greta Gerwig) para ensiná-lo como ser um bom homem. Porque, bem, por que não?

A questão do quanto chegamos a conhecer uma pessoa, mesmo as que mais amamos, é o lado melancólico do novo filme de Annette, e que a levou a uma introspecção.

“Sou muito próxima dos meus filhos e meus pais, mas ainda existe esse desconhecimento básico e talvez tem a ver com o fato de estarmos todos sós”, disse ela.

Ao ver seus filhos crescerem - estão hoje com 16, 19, 22 e 24 anos - ela ficou impressionada como a cultura mudou e o quanto declinou. “Gosto de estar mais velha, não sinto as mesmas pressões”. Mas no caso de suas duas filhas, ela está ciente da pressão que elas sofrem para cumprir com todos os antigos papéis esperados das mulheres, e dos novos também.

“Você tem de ser atraente, ter um belo rosto, seios, corpo. Tem de ser desejável do ponto de vista do homem. E naturalmente você tem de ir à faculdade, ter um ótimo emprego. E depois, acima de tudo, naturalmente vai se casar, ter filhos e administrar tudo isso, e será realmente feliz e realizada por que se tiver apenas filhos não é o bastante, e se apenas trabalha também não”.

Ela suspira. “E como isso reflete a que ponto chegamos no que se refere ao feminismo, ao movimento das mulheres, a liberdade da mulher? Como coexiste com os avanços na possibilidade da mulher decidir seu caminho? O objetivo é ser livre, fazer o que você deseja fazer e não ser limitada por barreiras culturais injustas!”.

Nos últimos anos o filho de Annette, Stephen Ira, transgênero, tem dado palestras para organizações de direitos dos transgêneros como a Glaad. “Ele é mais articulado do que eu. Todos os meus filhos me ensinam muito”, diz ela.

Mas Annette se preocupa com o fato de o presidente Donald Trump afirmar que revogará proteções para filhos transgêneros outorgadas no governo Obama. “Falando como mãe, sinto arrepios quando ouço isto”.

Ela diz que tem sentido “uma nova urgência” no mundo das artes e se sente gratificada com cineastas realizando filmes como Manchester by the Sea e Moonlight. “Acho bom que muitos filmes este ano tratam de assuntos como homofobia, pobreza, xenofobia, sexismo”, diz ela, acrescentando que Moonlight coloca o espectador “dentro do coração de uma pessoa. Acho ótimo o que os filmes conseguem fazer, especialmente hoje”.

Apesar da ideia de 20th Century Women no sentido de que ninguém se conhece, Annette diz que ainda tem o mesmo objetivo em cada papel. “Tento descobrir o que está dentro de alguém de um modo verdadeiro”.

Por que tentar se relacionar quando mesmo seu próprio filme afirma que uma compreensão verdadeira é impossível? Como Dorothea diria, e por que não?

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.