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Questões como racismo e direito civil dos negros reaparecem no Oscar

Debate do racismo traz produções que revivem James Baldwin e questionam a Constituição americana

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2017 | 05h00

Depois de a famosa hashtag #OscarSoWhite ter exposto a absurda ausência de negros no Oscar 2016, teremos enfim um “Oscar black” em 2017? Talvez seja exagero dizer isso. Em todo caso, desta vez os artistas negros não foram ignorados pela Academia de Hollywood e teremos, pelo menos, um Oscar bem mais diverso e engajado que o do ano anterior. Interessante contraponto, pois acontece no mesmo ano em que se inaugura a era Donald Trump, presidente de viés conservador, que assumiu o cargo com atitudes discriminatórias em relação a países e etnias e, não por acaso, já se colocou em litígio com a classe artística norte-americana.

 

Um desses concorrentes entra nesta quinta, 16, em cartaz no Brasil. O documentário Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck, disputa a estatueta em sua categoria e terá, como competidores, dois outros filmes de peso dedicados à questão racial norte-americana - A 13.ª Emenda e O.J.: Made in America.

 

A presença black não se resume aos documentários. Entre os indicados na categoria principal, a de melhor filme, há três produções interpretadas por atores negros e que discutem a questão racial - Estrelas Além do Tempo, Moonlight - Sob a Luz do Luar e Um Limite Entre Nós.

Artistas negros disputam estatuetas em diferentes categorias. Barry Jenkings (de Moonlight) é candidato a melhor diretor. Ruth Negga concorre a melhor atriz por Loving. Denzel Washington está no páreo para melhor ator por Um Limite Entre Nós, filme dirigido por ele mesmo; no entanto, Denzel não aparece na lista dos finalistas a diretor. Vários atores e atrizes disputam estatuetas em papéis coadjuvantes: Mahershala Ali e Naomi Harris em Moonlight, Viola Davis em Um Limite Entre Nós e Octavia Spencer em Estrelas Além do Tempo. Esses filmes também concorrem a prêmios em outras categorias como a de melhor roteiro adaptado, com Um Limite Entre Nós, Estrelas Além do Tempo e Moonlight.

 

É bem possível que essa presença forte se deva à reação contra uma premiação tida como excludente no ano passado. Mas também é verdade que nenhum desses filmes parece ter entrado por uma questão simples de “cota”. Estão lá porque, em sua maioria, são de fato muito bons. A começar por Eu Não Sou Seu Negro, resgate da figura de James Baldwin, personalidade fundamental da intelligentsia norte-americana, que andava em injusto esquecimento. 

Eu Não Sou Seu Negro baseia-se no texto inacabado de James Baldwin (1924-1987), Remember This House, confiado ao cineasta Raoul Peck. Baldwin foi um intelectual completo. Romancista, ensaísta, dramaturgo e ativista pelos direitos civis, por não suportar o racismo deixou seu país e instalou-se em Paris, em 1948. Colocou-se sob proteção de outro escritor negro e americano, o comunista Richard Wright, que já estava lá e frequentava gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Boris Vian. Em Paris, publicou alguns dos seus mais importantes textos. Mais tarde voltou, ao perceber que sua presença nos EUA era importante na luta pelos direitos civis.

Nesse manuscrito entregue ao editor e que depois ficou com Peck, Baldwin recorda-se dos amigos ativistas - Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. Os três assassinados antes de completarem 40 anos de idade.

 

O filme aproveita-se tanto do texto (narrado pelo ator Samuel L. Jackson) como de entrevistas gravadas por Baldwin ao longo da vida. Como costuma acontecer com os documentários norte-americanos, este também dá show pela abundância de material, típica dos países que prezam sua memória.

 

Do documentário emerge não apenas a figura vigorosa de Baldwin, mas toda uma era de lutas por afirmação de direitos, recuperada com imagens de cinejornais e filmes. Há um debate intenso em meio a essa batalha civil. Ela se daria melhor pela via pacífica, como queria o Doutor King? Ou pela violência, como defendiam Malcolm X e os Panteras Negras?

 

A figura de Baldwin é, entre todas, impressionante. Vemos a figura do polemista destemido, que jamais abaixava a cabeça em uma discussão, mesmo em circunstâncias adversas. Sua luta particular era contra a imagem do “negro bom”, confiável, o “negro de alma branca”, na expressão racista brasileira. Sua batalha era contra o romance A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, levado às telas e que no Brasil virou até novela de televisão com Sérgio Cardoso. 

Baldwin era intelectual agudo. Sabia desmontar armadilhas ideológicas, mesmo quando estas tomam a aparência de concessão humanista aos desfavorecidos. O filme encontra todo o significado nesse título: Eu Não Sou Seu Negro, sendo que esse possessivo expressa a afirmação da igualdade, que vai além da tolerância. É brilhante.

 

Já A 13.ª Emenda (disponível na Netflix), de Ava DuVernay, é outro documentário poderoso, que examina, como ponto de partida, um aspecto dúbio da Constituição americana. A emenda, que aboliu a escravidão, diz em seu texto: “Não haverá, nos Estados Unidos, ou em qualquer lugar sujeito à sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”.

 

Essa ressalva, defendem os ativistas, permitiu que a escravidão prosseguisse, ainda que por outros meios, através da condenação. Criou-se um aparato jurídico com tendência à criminalização dos negros. Hoje, os EUA têm a segunda população carcerária do mundo (“perdendo” apenas para a China) e total desproporção entre os porcentuais dos negros na população geral e entre os encarcerados.

 

O filme examina tanto essas disposições práticas do racismo - criar um exército de reserva de mão de obra barata - quanto ideológicas. Por exemplo, um clássico como O Nascimento de Uma Nação (1915), de D.W. Griffith, funda as bases da construção ideológica do negro como ser violento, sensual e propenso ao crime. DuVernay dá voz a esse debate ideológico sustentado por décadas e mostra extraordinária capacidade de sintetizar material tão rico.

O.J. Simpson, uma tragédia da América

O.J.: Made in America, de Ezra Edelman, não é apenas um documentário grande (quase 8 horas de duração, dividido em cinco partes), mas um grande filme. Poucas vezes o cinema mergulhou tão fundo numa personalidade controversa como a do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson.

 

O filme dá-se o tempo de construir a imagem do jovem ambicioso e brilhante, que se torna celebridade em seu país por meio do seu talento. Vivendo em era turbulenta, O.J. mantém-se alheio a polêmicas raciais e torna-se confiável ao mundo branco. Fatura muito com publicidade, vira um ídolo nacional, casa-se com uma jovem loira, tem filhos.

No entanto, a figura sempre simpática e carismática volta e meia era acusada de violência doméstica e torna-se principal suspeito da morte da esposa, Nicole Brown Simpson, e do amigo dela, Ronald Goldman, em 1994. Contra as expectativas e graças a uma defesa brilhante, O.J. é absolvido. Mas a Justiça continua de olho nele. Acusado de crimes menores, recebe sentença draconiana no Estado de Nevada. Continua preso.

A profusão de material utilizado por Edelman é impressionante. Claro, ele já tinha muita coisa à disposição por se tratar de uma figura pública como O.J. Acrescenta filmagens domésticas, que penetram na intimidade do astro, entrevistas com amigos de infância, com policiais, advogados e juízes, com parentes do ex-jogador e também com familiares das pessoas supostamente assassinadas por ele. O filme começa com uma conversa tensa com o próprio O.J., o ídolo caído, descrevendo seu cotidiano na prisão de Nevada. A montagem desse material é espetacular. O ritmo não cai nunca e não se consegue desgrudar os olhos dessa tragédia americana.

O filme está disponível para assinantes da ESPN. É o favorito para vencer o Oscar de melhor documentário.

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