Quem são os favoritos ao Oscar

O nome dos melhores filmes, atores, roteiristas e outros integrantes da indústria cinematográfica de Hollywood que se destacaram em 2000 serão conhecidos no dia 13 de fevereiro. É o anúncio dos indicados para a 73ª edição do Oscar, o prêmio máximo do cinema. Entre os favoritos, dois nomes já saltam à frente, prometendo monopolizar a cerimônia de entrega das estatuetas, que ocorre no último domingo de março. São eles: o cineasta americano Steven Soderbergh e o chinês Ang Lee. Definitivamente, 2000 foi o ano desses dois. Soderbergh, que em 1989 dirigiu Sexo, Mentiras e Videotape, um dos marcos do cinema independente americano, viria a cair na obscuridade com filmes não palatáveis como Kafka e O Inventor de Ilusões. Seu comeback se deu em 98, quando rodou Irresistível Paixão, com George Clooney e Jennifer Lopez. Desde então, rodou filmes como um louco. Em 99, surgiu com o espetacular O Estranho (The Limey), ainda inédito no circuito brasileiro, e, no ano passado, foram dois lançamentos: Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento, drama social em estilo Norma Rae estrelado por Julia Roberts, e agora o recém-lançado Traffic, uma análise do narcotráfico nos EUA sob três diferentes pontos de vistas. Ambos os filmes de Soderbergh estão bem cotados para o Oscar, em especial Traffic. O cineasta poderá ter dupla indicação nas categorias de melhor filme e diretor. O fato é raro. Em 1939, Michael Curtiz, o diretor de Casablanca, foi indicado duplamente em ambas as categorias, mas não exatamente pelos mesmos títulos como pode ocorrer com Soderbergh. "Vou dizer para minha mãe que você acha que tenho essa chance. No momento, não procuro pensar muito nisso para não perder o foco", diz Soderbergh em entrevista ao Grupo Estado por telefone de seu escritório em Los Angeles, onde ele prepara (ufa!) mais um filme: o remake de Onze Homens e um Segredo (Ocean´s Eleven). Caso a dupla indicação de Soderbergh ocorra, ele deverá concorrer, voto a voto, com Ang Lee e seu O Tigre e o Dragão, um épico sobre as artes marciais rodado em mandarim. O filme de Lee conquistou a crítica especializada, tem acabamento requintadíssimo e cenas de ação de tirar o fôlego. Mais do que isso: talvez se transforme no filme estrangeiro (ou seja, com legendas) de maior bilheteria da história de Hollywood, ultrapassando o resultado de A Vida É Bela. O Tigre e o Dragão também pode tornar-se a sexta produção estrangeira a concorrer ao Oscar de melhor filme, a exemplo de A Grande Ilusão (de Jean Renoir, 38); Z (Costa-Gavras, 69); Os Emigrantes (Jan Troell, 72); Gritos e Sussuros (Ingmar Bergman, 73); O Carteiro e o Poeta (Michael Radford, 95); e A Vida É Bela (Roberto Benigni, 99). Com Soderbergh podendo fazer barba e cabelo e Lee um carnaval em mandarim, tudo parece mais ou menos arrumado para a próxima cerimônia do Oscar, certo? Errado. De repente, filmes como Erin Brockovich e Gladiador, de Ridley Scott, lançados no primeiro semestre de 2000 e sem nenhuma pretensão maior de arrebatar prêmios da Academia são considerados favoritos a múltiplas indicações. Filmes independentes como You Can Count on Me, do estreante diretor de teatro Ken Lonergan, e a produção inglesa Billy Elliot, do também novato Stephen Daldry, que já estão em cartaz há alguns meses, mas num circuito limitado, também estão cotadíssimos. Críticos de cinema reclamam que 2000 foi um ano pobre de idéias e imagens entre as produções de Hollywood. "É o pior entre os meus 27 anos escrevendo sobre filmes", reclamou Jack Matthews, crítico do jornal Daily News, de Nova York. Mais profissionais da área engrossaram esse coro e, de repente, a mídia americana ungiu 2000 como o ano da hecatombe qualitativa no cinema americano. O diretor Curtis Hanson, ele próprio um dos favoritos a conseguir múltiplas indicações por Garotos Incríveis, já lançado no Brasil, reclama que a imprensa não é criativa e jornalistas fazem o efeito dominó, ao propagar tendências dos outros. "O fato é que 2000 não teve um Titanic", disse Hanson. "Mas é um ano muito saudável, com uma grande diversidade de filmes." Todo ano, a plataforma da campanha do Oscar se repete. Os filmes em que os estúdios colocam mais fé começam a ser lançados no começo do outono, ou seja, em outubro. Outros títulos, que têm ainda mais esperanças, estréiam no ápice da temporada, a semana de Natal. Quando, em outubro, filmes como A Corrente do Bem (Pay It Forward), estrelado por Kevin Spacey, Helen Hunt e o garoto Haley Joel Osment (trio de darlings do Oscar); The Legend of Bagger Vance, a última produção dirigida por Robert Redford; e Corpo Fechado (Unbreakable), o aguardado primeiro filme do cineasta M. Night Shyamalan depois de O Sexto Sentido, não conseguiram agradar à crítica, houve um pandemônio. Não existia, até aquele ponto, um longa com grande chances de brilhar no Oscar, a não ser Quase Famosos, de Cameron Crowe, lançado um mês antes. Foi quando se começou a falar de Gladiador que, convenhamos, não é nenhum Spartacus, e Erin Brockovich. "Nós sempre vimos Erin Brockovich como uma produção para o Oscar; é um pouco frustrante ler que nosso filme está no páreo somente porque não tem muita coisa boa por ai", disse Terry Curtin, do estúdio Universal (a Columbia Pictures distribui o filme com Julia Roberts internacionalmente), a um jornal americano. Um filme, porém, havia despontado no primeiro semestre como uma possível pérola para o Oscar: a produção inglesa Croupier, do cineasta Mike Hodges (cujo remake de seu Carter, o Vingador, de 71, acabou de estrear nos cinemas brasileiros com Sylvester Stallone no papel que foi imortalizado por Michael Caine). Croupier, sobre um escritor que começa a trabalhar numa mesa de roleta de um cassino e se mete num imbróglio, é uma produção datada de 98. Demorou para chegar aos cinemas americanos por falta de um distribuidor. Em setembro, um ato de canalhice tirou o filme da competição do Oscar. Um assessor de Imprensa de um grande estúdio deu a dica a um renomado crítico da Internet de que Croupier havia sido exibido na TV de Hong Kong no ano passado, o que fere as regras da Academia, que proíbe qualquer exibição em outras mídias antes do filme estrear em solo americano. Sem Croupier na competição e somente com Gladiador e Erin Brockovich inspirando fôlego, a corrida para o Oscar mostrou estar em completa desordem quando, em meados de dezembro, começou a se falar da lista dos três principais prêmios da crítica. O National Board of Review, associação que inclui críticos, historiadores e teóricos de cinema e que funciona como o primeiro prêmio da temporada, elegeu Contos do Marquês de Sade o melhor filme do ano. Semanas mais tarde, o primeiro trabalho do cineasta Philip Kaufman em sete anos foi esnobado nas indicações para o Globo de Ouro e, por causa de seu tema, os últimos meses de vida do escritor de A Filosofia de Alcova e Contos Libertinos, pode ser visto com má vontade pela ala conservadora da Academia. Em seguida, os críticos de Nova York premiaram Traffic, numa disputa inusitada. "Havia um grande sentimento negativo em relação a O Tigre e o Dragão, considerado por muita gente apenas como um filme de ação bem-feito", explica um crítico que preferiu não se identificar. "Para se ter uma idéia, o filme que vinha logo atrás de Traffic na votação a portas fechadas era o obscuro The House of Mirth", diz o jornalista sobre o novo trabalho do diretor inglês Terrence Davis que é baseado no livro homônimo da escritora Edith Wharton, traduzido no Brasil como A Casa da Felicidade. Em contrapartida, os críticos de Los Angeles elegeram o filme de Ang Lee como o melhor do ano, embaralhando ainda mais a corrida ao Oscar. Além de Traffic, o único filme da temporada natalina que deve fazer sucesso no prêmio da Academia, é o drama Náufrago, de Robert Zemeckis e estrelado por Tom Hanks. Boas críticas, excelente resultado na bilheteria (o longa já ultrapassou a casa dos US$ 100 milhões de faturamento em apenas 15 dias) e Tom Hanks em interpretação dedicada podem fazer o filme ocupar uma das cinco vagas, apesar de um final decepcionante. No dia 21, ocorre a entrega do Globo de Ouro, prêmio dado pelos correspondentes estrangeiros em Hollywood e que influencia os votantes do Oscar. Mas, a partir deste ano, outro grande evento "surge" antes da prêmio da Academia. Na verdade, o Bafta, o Oscar da Inglaterra, não está surgindo e sim sendo adiantado. Antes, ele era entregue em abril, em Londres, mas sua importância era um pouco esvaziada pelo brilho da festa americana. Agora, o Bafta será entregue no dia 25 de fevereiro, três dias antes de os membros da Academia de Hollywood escolherem o melhor de cada categoria. O filme que deve esquentar a festa do Bafta deste ano é a produção local Billy Elliot. Thornton - E onde está o estúdio Miramax, o independente faminto por prêmios e que já virou sinônimo de campanhas bem-sucedidas para o Oscar, quando mais se precisa dele? A Miramax colocava muita fé que Espírito Selvagem (All the Pretty Horses), o novo filme de Billy Bob Thornton e estrelado por Matt Damon e Penélope Cruz, resultaria num épico romântico. Mas um incontrolável Thornton criou várias dificuldades ao estúdio Columbia Pictures, que dividiu os custos com a Miramax. Um dos produtores do filme, o cineasta Mike Nichols, acabou pedindo que seu nome fosse retirado dos créditos, uma vez que Thornton se recusou a cortar o filme para uma metragem considerada decente. Em entrevista ao jornal New York Times, Harvey Weinstein, o chefão da Miramax, lembrou que o Oscar não dá importância aos filmes selecionados pelos principais prêmios dos críticos e que, no ano passado, Regras da Vida, uma produção da casa que não foi lembrada nem no Globo de Ouro, recebeu sete indicações para o Oscar e acabou ganhando duas estatuetas: de melhor roteiro adaptado (para o escritor John Irving) e ator coadjuvante (Michael Caine). Pois bem, 12 meses depois do sucesso inesperado de Regras da Vida, seu diretor, o sueco Lasse Hallström, está de volta com outra produção que a Miramax vem tratando muito bem nos bastidores: a fábula Chocolat, estrelada por Juliette Binoche, Alfred Molina, Johnny Depp e Judy Dench. No dia 13 de fevereiro, a receita desse chocolate da Miramax pode resultar amarga demais para muita gente.

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