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‘Quem Matou Sara?’ ganha o mundo com estrutura policial norte-americana

Diretor chileno José Ignacio Valenzuela fala sobre fenômeno da Netflix que já foi visto por 55 milhões de assinantes

Mariane Morisawa, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

26 de maio de 2021 | 05h00

Se você é um dos 55 milhões de assinantes do mundo inteiro que, segundo a Netflix, assistiu a Quem Matou Sara?, pode ficar tranquilo. A segunda temporada, que estreou na quarta, 19, em mais de 190 países, vai trazer respostas. Inclusive, a principal: quem matou Sara (Ximena Lamarid). “Mas vamos ter outras perguntas, podem ficar tranquilos”, contou ao Estadão o criador da série, José Ignacio Valenzuela, por videoconferência.

Em Quem Matou Sara?, Álex Guzmán (Manolo Cardona) deixa a prisão depois de cumprir pena de 18 anos pelo assassinato da irmã Sara. Mas ele é inocente e foi condenado por culpa da poderosa família Lazcano, encabeçada por César (Ginés García Millán). Álex (Leo Deluglio nos flashbacks) era um adolescente passando um fim de semana na casa do amigo Rodolfo (Andrés Baida), namorado de Sara, acompanhado do irmão de Rodolfo, Chema (Polo Morín), e de Nicandro (Martin Saracho). Todos passeavam de barco quando o paraglider de Sara se rompeu. Mas, claro, não foi um acidente. Alguém provocou sua morte. Adulto, Álex vai atrás dos Lazcano, incluindo os antigos amigos Rodolfo e Chema (agora vividos por Alejandro Nones e Eugenio Siller), para descobrir a verdade e se vingar pela morte da irmã e por sua prisão.

Quem Matou Sara? é um policial, mas não se envergonha de embaralhar as coisas com mil reviravoltas. “A estrutura, ou os ossos, é gringa, com o formato americano clássico em quatro atos que vimos nos últimos 50 anos. Por isso é tão fácil de decodificar no mundo todo”, disse Valenzuela. “Mas a pele da série é latino-americana, particularmente noveleira. Eu usei o melodrama sem pudores.” Valenzuela, que é chileno, trabalhou no México muitos anos e escreveu diversas telenovelas. Mesmo morando nos Estados Unidos, continua escrevendo para o mercado latino-americano. “Temos uma cena de série gringa, com uma morte, pistas, necrotério, e aí passamos para uma cena de amor entre Álex se apaixonando pela filha do inimigo, o que parece uma novela. Para mim, foi muito divertido de escrever – e pelo jeito foi muito divertido de ver!”

O mais maluco é que as reviravoltas são ainda mais frequentes do que nas telenovelas, porque são poucos episódios – dez na primeira, oito na segunda. Nos novos capítulos, há ainda mais variação, na opinião do ator colombiano Manolo Cardona, que já fez inclusive novela brasileira (Aquele Beijo). “Temos mais ação, mistério, romance, intriga. E muitas respostas”, afirmou. Mesmo sendo uma peça de puro entretenimento, Quem Matou Sara? procura abordar assuntos que incomodam seu autor. “Eu não escrevo sobre o que gosto, porque o que gosto já está resolvido na minha cabeça”, disse Valenzuela. “Então escrevi sobre algo que me incomoda – e que provavelmente incomoda também no Brasil, na Polônia, na França e em Abu Dhabi: o abuso de poder. Essa impunidade que certas pessoas gozam por serem membros do governo, ou por serem alguém importante, ou terem um primo senador. Eles podem fazer as piores coisas que nada vai acontecer.” Assim é César Lazcano, aquele homem que tem dinheiro e sobrenome conhecido e por isso pode enviar um rapaz inocente para a prisão ou ter um bordel com mulheres sequestradas em seu cassino. “Ele pode fazer e desfazer, que as leis não vão tocá-lo”, disse Valenzuela.

A série também aborda outras questões, como o feminicídio, a homossexualidade, a gestação de substituição, a saúde mental. Valenzuela contou que aprendeu a falar de assuntos reais e importantes com as telenovelas brasileiras. “Eu vivi no Chile até 1995, e as novelas estrangeiras que víamos eram as brasileiras”, disse ele, declarando-se fã de Sonia Braga e Glória Pires. “Cresci com Dancin’ Days, O Bem-Amado, Tieta, Pantanal. A diferença entre a telenovela mexicana e a brasileira é que, na telenovela mexicana, a realidade feia não existia. Todos se levantavam às 8 da manhã com os cabelos perfeitos e os cílios postiços colocados. Eles vendiam a esperança. E o Brasil vendia a naturalidade. Havia atrizes suadas, sem maquiagem, porque estavam em Mato Grosso.” Para o autor, a ficção não é um espaço de pura fuga, mas um lugar onde se pode ter opinião, onde se pode mostrar o lado feio, sujo, sombrio. “A história do abuso de poder, da homofobia, da misoginia é muito importante para mim, porque são realidades do mundo e são questões que me incomodam.”

Poder levar essa tradição para o mundo é um motivo de orgulho e responsabilidade. “Eu espero que Quem Matou Sara? abra portas para a América Latina, porque temos grandes histórias para contar, além de uma enorme tradição”, disse o autor. No que depender de José Ignacio Valenzuela, Quem Matou Sara? vai continuar divertindo com suas reviravoltas mesmo depois da segunda temporada. “Não sei se vamos ter uma terceira ou outras”, disse ele. “Mas eu tenho um monte de material.” E isso mesmo revelando quem matou Sara nesta temporada. Na cabeça de um escritor de telenovela, o que não falta são coincidências absurdas, situações fantásticas e reviravoltas de deixar o espectador boquiaberto. 

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