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Quem é quem em “Mank”: Guia sobre os atores na vida real

O filme da Netflix sobre a produção de “Cidadão Kane” apresenta personagens baseados em roteiristas, executivos de estúdio de Hollywood e outros. Aqui está o que eles eram na verdade

Nicolas Rapold, The New York Times

07 de dezembro de 2020 | 11h00

Há somente um nome no título, mas Mank de David Fincher apresenta uma galeria inteira de personalidades influentes dos anos dourados de Hollywood. Ambientado nos anos 1930 e 40, o drama de bastidores acompanha Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman) ao longo de toda a tempestade e ímpeto da criação de Cidadão Kane.

A tarefa representou uma grande ruptura para Mankiewicz, e o diretor roteirista Orson Welles (aqui interpretado por Tom Burke) foi imediatamente catapultado para a primeira linha de realizadores com o talento mostrado no seu filme de estreia. Como o jornal The New York Times falou entusiasticamente a respeito Cidadão Kane na estreia em 1941: “Chega quase a ser o filme mais sensacional já realizado em Hollywood”.

Mank une os pontos entre Cidadão Kane e sua inspiração em Hollywood e na política da época. Os flashbacks reconstituem os passos do impetuoso roteirista pelas salas de criação do estúdio e nas festas na propriedade do magnata dos jornais William Randolph Hearst.

Mankiewicz era um grande bebedor transplantado de Nova York, ex-jornalista e membro da Mesa Redonda de Algonquin (um clube de escritores, críticos, e atores), mas teve logo livre trânsito nos círculos dos estúdios, trocando piadas e dívidas de jogo com escritores, produtores e executivos. Hearst e sua amante, a estrela Marion Davies, também desfrutavam da companhia brilhante de Mankiewicz, mas a riqueza e a influência do multimilionário começaram a pôr em movimento as engrenagens da mente do escritor, a amizade que se dane.

Esta é a história de Mank, que também é feita do crucial pano de fundo político: a histórica disputa  para o cargo de governador da Califórnia, em  1934, que envolveu o escritor socialista Upton Sinclair. Aqui estão alguns dos personagens da vida real do filme:

William Randolph Hearst

Hearst (Charles Dance) apostou uma fortuna da família na criação de um império da mídia que se espalhou pelo país. Na virada do século 20, os seus jornais populares eram conhecidos por acontecimentos mundiais que influenciavam o mundo, como a Guerra Hispano-Americana. Hearst também concorreu ao cargo, representando o estado de Nova York no Congresso, mas perdeu também quando tentou eleger-se prefeito de Nova York, governador, e a indicação democrata à presidência.

A ascensão e a queda solitária de Charles Foster Kane, Welles em Cidadão Kane, foi inspirada pelas lendas das vastas ambições e riqueza de Hearst, inclusive a sua propriedade em San Simon, na Califórnia, semelhante a Xanadu - um local particularmente importante em Mank. Quando o estúdio RKO quis lançar Cidadão Kane, Hearst (que havia mudado para posições mais conservadoras) montou uma campanha brutal com o propósito de bloquear sua ampla exibição ajudado por seus aliados.

Marion Davies

Marion (interpretada por Amanda Seyfried) continua pouco conhecida por muitos fãs do filme hoje, e por muito tempo foi considerada o modelo para a segunda esposa desafinada de Charles Foster Kane em Cidadão Kane. Na realidade, Marion era uma comediante encantadora (Show People, The Patsy) e uma exuberante presença social, mas Hearst, que a apoiou financeiramente com fanatismo e por meio do seu império jornalístico, teimava em imaginá-la em dramas sérios.

Marion optou por retirar-se das cenas em 1937 (com 40 anos) e logo  passou a ajudar Hearst quando a sorte deste começou a declinar; o casal permaneceu junto até a morte dele, em 1951. Marion se ligou a Mankiewicz e, ao que dizem, não se sentiu afetada por Cidadão Kane.

John Houseman

Em Nova York, Houseman (Sam Troughton) tinha patrocinado a produção inovadora de Welles no Projeto Federal para o Teatro e depois no Teatro Mercury, que ambos fundaram. Houseman dirigiu os trabalhos encomendados a Mankiewicz para a programação da rádio do Teatro Mercury e em Mank, Houseman acompanha a redação de Cidadão Kane de Mankiewicz em colaboração com Welles. Houseman consequentemente tornou-se a testemunha principal da briga, que se estendeu por décadas, pelo crédito do roteiro, que rendeu Oscars tanto para Mankiewicz quando para Welles. Depois de trabalhar com Welles, Houseman produziu filmes de Nicholas Ray, Vincente Minnelli e Joseph L. Mankiewicz, o irmão de Herman.

Mas tarde, Houseman adquiriu nova fama atuando, e ganhou o seu Oscar de ator coadjuvante como um professor de direito no filme de 1973, The Paper Chase, papel que ele também desempenhou no seriado adaptado para a TV. (E, sim, ele era o sujeito que nos anúncios da Smith Barney elogiava quem ganhava dinheiro da maneira antiga).

Louis B. Mayer

Mayer (Arliss Howard) presidiu a MGM em uma era de diretores de estúdios fortes e determinados. De começos humildes em salas de jogos, Mayer ajudou a criar uma era de ouro em Hollywood com estrelas como Greta Garbo e Clark Gable e clássicos como O Mágico de Oz e Cantando na chuva. Mankiewicz entrou na MGM como roteirista, mas o perdeu por não deixar a jogatina. Supostamente, ele aprendeu mais tarde a apostar apenas em um tipo de jogo, quando olhou para cima e fixou o olhar através da sala com aquele que em breve se tornaria o seu ex-chefe.

Em Mank, o imponente chefão da MGM se mostra somo um patriarca benevolente para a sua equipe composta de milhares de pessoas e joga todo o seu apoio em Hearst e em Frank Merriam, o candidato a governador republicano, em 1934, contra Sinclair. Pertencente a uma família de imigrantes ucranianos, Mayer faria a grandiosa declaração de que Quatro de Julho era o dia do seu aniversário, detalhe que foi incluído em Mank.

Ben Hecht

Hecht (Jeff Harms) escreveu os roteiros de Notorius e Scarface e foi o corroteirista da peça The Front Page (tema de várias adaptações, como Jejum de Amor). Hecht vinha dos círculos intelectuais nova-iorquinos anteriormente frequentados por Mankiewicz, que enviou por telegrama ao amigo um convite frequentemente citado em Hollywood: “Aqui é possível ganhar milhões, e seus únicos concorrentes são uns idiotas”.

Em uma cena juntos em Mank, Hecht e Mankiewicz juntam um grupo de roteiristas talentosos para uma reunião: o gênio da comédia da Broadway George S. Kaufman, o humorista S.J. Perelman, e dois colaboradores de Hecht, seu coautor em Front Page, Charles MacArthur, e o jovem Charles Lederer, sobrinho de David. O grupo tenta conseguir o produtor da Paramount David O. Selznick e “Joe” von Sternberg - o diretor para quem Hechst escreveu a história pioneira dos gângsteres Underworld.

Joseph L. Mankiewicz

Joseph Mankiewicz (Tom Pelphrey) dirigiu A Malvada, A Condessa Descalça e Cleopatra, e outros incontáveis trabalhos como escritor e produtor (Núpcias de Escândalo). Era o irmão mais novo de Herman, mas embora este o tivesse ajudado a se lançar em Hollywood, foi Joseph quem alcançou uma fama maior e mais estável no firmamento de Hollywood.

Ganhou quatro Oscars, dois pela direção e roteiro de Quem É Infiel? e outros dois pela direção e roteiro de A Malvada. No entanto, os irmãos Mankiewicz compartilharam a experiência de crescerem com um pai exigente, Franz, professor na Universidade de Columbia.

Irving G. Thalberg

Thalberg (Ferdinand Kingsley) foi um dos fundadores da MGM ao lado de Mayer quando tinha ainda incrivelmente 24 anos (havia dirigido a Universal Pictures com 20). Apropriadamente chamado de “garoto maravilha”, morreu prematuramente em 1936, depois de supervisionar centenas de filmes com um considerável recorde de sucessos. Em “Mank”, ele é mostrado como a figura que consolidou o poder juntamente com Mayer, e tentando friamente fazer Mankiewicz aderir ao apoio do estúdio a Merriam quando este se candidata a governador, tentativa à qual o roteirista resiste.

Thalberg realmente produziu  noticiários falsos fingindo mostrar pessoas comuns que se opunham ao adversário socialista de Merriam, Sinclair. Como os fãs do Oscar sabem, o executivo é homenageado pelo Irving G. Thalberg Memorial Award pela excelência na produção.

Upton Sinclair

Sinclair (Bill Nye) é muito conhecido como o autor do livro sobre as condições de trabalho nos frigoríficos intitulado The Jungle. (O seu livro Oil! foi livremente adaptado como o filme Sangue Negro). Mas Sinclair também se candidatou a governador, fazendo campanha em sua plataforma EPIC (End Poverty in California - Fim da Pobreza na Califórnia) com propostas como a criação de uma rede de cooperativas.

Depois de concorrer apenas como teste em 1926 e em 1930, o escritor berst-seller recebeu mais de 800 mil votos na sua tentativa seguinte, em 1934, em que defendeu medidas socialistas em um estado profundamente afetado pela Grande Depressão. Perdeu para Merriam, que recebeu ajuda por meio de campanhas negativas em parte coordenadas por Mayer. Mank destaca Sinclair pronunciando um discurso político que chama a atenção do próprio Mankiewicz, o qual, por uma vez, se cala. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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