Palladium Film
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Quem acredita em milagre, você depois de assistir ao filme 'A Palavra'

Filme de Carl Theodor Dreyer tem sessão nesta quinta, no IMS paulista; veja trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2019 | 17h55

Antes, era só Cannes Classics, mas agora Berlinale Classics também compete pela melhor seleção de clássicos restaurados do ano. Faz todo sentido. Cada vez mais o chamado 'cinema ritrovato' ganha atenção da critica e do público. Existem festivais específicos, mas Cannes e Berlim agregam glamour ao resgate de obras-primas por fundações como a de Martin Scorsese. Em Berlim, em fevereiro, a sala lotou para a apresentação de A Palavra/Ordet. O filme de 1955 é considerado um dos maiores, para muita gente o maior de Carl Theodor Dreyer, e olhem que ele fez O Martírio de Joana D'Arc e Dias de Ira.

A Palavra venceu, na época, o Leão de Ouro no Festival de Veneza e o Globo de Ouro de melhor filme erstrangeiro pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Baseia-se na peça escrita por um pastor luterano dinamarquês que se tornou renomado dramaturgo, Kaj Munk. A princípio simpático a Adolf Hitler e ao nazismo, pela unificação do povo alemão, tornou-se um crítico virulento pelas perseguições do regime aos judeus, e isso antes que o mundo conhecesse todo o horror da solução final nos guetos e campos de extermínio. Munk foi sequestrado e morto a tiros por nazistas, em 1944. Nesta quinta, 18, A Palavra terá sessão especial às 20h30, no IMS, com direito a apresentação de Laura Erber.

Grande autor dinamarquês, Dreyer ficou conhecido como o cineasta que sempre quis radiografar a alma de seus atores, e personagens. O diretor e rotreirista Paul Shrader famoso por sua parceria com Scorsese, cita-o como um dos três cineastas da transcendência, sendo os outros dois o francês Robert Bresson e o japonês Yasujitro Ozu. Grande como é - uma rara unanimidade -, Dreyer volta e meia encerra desafios. Os racionalistas, os agnósticos e os ateus são desafiados pela magia de A Palavra a 'crer'. O filme é sobre milagres, e um milagre, em particular. Prescinde de efeitos. Apenas a palavra - o Verbo divino. Quem vir, viverá. Ao (re)ver hoje A Palavra, a primeira coiisa que salta aos olhos do cinéfilo é certa similaridade com O Cavalo de Turim, de Bela Tárr, de 2011. Preto e branco rigoroso, um ambiente rural parecido, muitos interiores.

Duas famílias divididas pela fé 

O patriarca Borgen deixou de crer porque não rexistem mais milagres no mundo moderno. Ele tem três filhos - o mais velho, cuja mulher espera o terceiro filho; o do meio, que enlouqueceu de tanto esatudar a obra do filósofo Kirkegaard; e o mais jovem, que ama justamente a filha do pastor com quem seu pai está brigado. Por amor ao filho, Borgen encara a possibilidade de uma (re)aproximação. Sua nora morre, em trabalho de parto, e o filho louco, que acredita que pode espalhar a palavra de Deus como o próprio Cristo, pergunta à sobrinha se ela acredita que ele poderá devolver a vida à sua mãe. Só isso - "Você crê?" E ele diz a palavra - "Ressuscita!" Talvez, até como reação a essa overdose de religião que está tomando conta do Estado laico, no Brasil, o espectador crítico seja tentado a reagir ao clássico de Dreyer. Pode até pensar que não é assim, não pode ser assim. Mas a verdade é que a magia, como a fé, não se explica.

 

Dreyer não age por convencimento. O que ele espera é provocar uma reação - perplexidade? Maravilhamento? - no público. Porque Inger, a essa palavra imperiosa - "Ressuscita!" -, começa a reagir em seu leito de morte. Como Lázaro, ela ressuscita, mas, só por efeito de comparação, n'A Maior História de Todos os Tempos, do cineasta cristão norte-americano George Stevens, de 1965, o Verbo ganha apoio da trilha, e dos céus que se abrem. Aqui, nada disso. Simplicidade, rigor absoluto. Portas que se abrem e fecham, pessoas que conversam - debatem questões transcendentais -, enquanto tomam quantidades incríveis de café, como reclamava a crítica Pauline Kael, que amava Dreyer, mas não particularmente esse filme. No máximo, sutis movimentos de câmera, e a força expressiva do elenco. Kaj Munk escreveu sua peça em 1925 e Dreyer vinha querendo filmá-la desde 1932.

Em 1943, surgiu na Suécia a versão de Gustav Molander com Victor Sjostrom, o professor Isak Borg de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. Dreyer esperava seguir A Palavra com uma vida de Cristo, mas não conseguiu concretizar o projeto. Décadas mais tarde, seu filme inspirou o mexicano Carlos Reygadas, quando dirigiu Luz Silenciosa, em 2007. Outro milagre, outra ressurreição. Independentemente de crença, o grande milagre, nesses filmes, é o cinema.

Sessão Mutual Films

IMS

Avenida Paulista, 2.424

Tel. 2842-9120

Quinta, 18, às 20h30

Ingressos: R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia)

 

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