"Queimando ao Vento" mostra busca da felicidade

A narrativa de Queimando ao Vento é em primeira pessoa e lembra um pouco o tom de Jorge Luis Borges: "Nasci numa pequena aldeia sem nome em um país sem importância." O narrador, Tobias Horvath (Ivan Franek), fala em francês, com sotaque. Ficamos sabendo que mora há dez anos na Suíça. É operário e trabalha em uma fábrica relógios. Fabrica peças. Jamais montou um relógio inteiro. Aqui o tom muda para alguma coisa próxima da crítica do trabalho alienado. O diretor do filme, o italiano Silvio Soldini, já é conhecido aqui por Pão e Tulipas, que encantou o público por sua crença na busca da felicidade individual. Uma dona de casa, oprimida pelo marido brutal e pelos filhos chatos, resolve refazer seu sonho de juventude mandando tudo para cima ao se mudar para Veneza. De certa forma, Queimando ao Vento pode ser considerado uma nova versão desse mesmo problema, aliás, o problema humano por excelência, a luta pela felicidade. No caso de Tobias, essa felicidade se resume no encontro com Line, corruptela de Caroline (Barbara Lukesova), menina que estudou com ele na escola elementar, na tal aldeia do país sem nenhuma importância. A vida de Tobias é regida por essa agenda implacável, e não por acaso ele é operário de uma indústria que fabrica instrumentos para medir o tempo. A esse plano, da exatidão, contrapõem-se dois outros - o da escrita, no qual ele se refugia, e o do amor, que, levado a sério, implica sempre uma pequena revolução pessoal. Mas se essa tardia história de amor acaba por ocupar o primeiro plano, Soldini não se descuida do entorno e, através das dificuldades de reencontro entre Tobias e Lise, pode comentar também o drama das migrações européias no pós-socialismo dos países da Cortina de Ferro, para relembrar essa expressão que devemos a Churchill. De resto, também põe em xeque essa mitologia da abolição das fronteiras, embutida na utopia da Europa unificada. O filme é adaptado do romance Ontem, da escritora checa Agota Kristof, que termina muito mal para seus personagens. Soldini tomou outro caminho. Em entrevistas, tem dito que preferiu um final "menos punitivo". Provavelmente resolveu atender aos apelos dos produtores que, à maneira bem italiana, sempre exigem dos cineastas "um pouco de sol" no final dos filmes. (Um "raggio di sole", pediam a Fellini, que nem sempre os atendia). Mas, de qualquer forma, é consenso entre produtores. Não importa o quanto sofram os personagens. Se terminarem bem, tudo bem. É isso, embora parte da crítica implique com esse tipo de final.

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