Marvel Studios
Marvel Studios

Queda de bilheteria de ‘Viúva Negra’ pode indicar esgotamento da fórmula da Marvel

Com a compra de ingressos para o filme secando de repente, crescem as perguntas para a Marvel e a Disney sobre o que aconteceu

Steven Zeitchik, The Washington Post

22 de julho de 2021 | 20h00

Talvez seja o modelo. Ou talvez seja a Marvel.

O tão aguardado filme da Disney, Viúva Negra, sofreu um golpe brutal nas bilheterias neste fim de semana, quando caiu 67% em relação ao fim de semana de estreia e frustrou as esperanças da empresa num sucesso ainda em julho.

Potencialmente ainda mais preocupante para a Disney é que os números ruins talvez não sejam resultado apenas de sua decisão de disponibilizar o filme simultaneamente por 30 dólares no Disney Plus. Pode ser que os consumidores já não queiram pagar pelo conteúdo da Marvel as quantias que pagavam antes, independentemente do meio.



Se for verdade, isso poria em perigo o universo cinematográfico mais lucrativo de todos os tempos - precisamente no momento pós-pandêmico, quando os cinemas mais precisam - e colocaria em dúvida o futuro financeiro da Marvel.

“Achei que seria um sucesso maior e mais consistente”, disse Josh Spiegel, comentarista e especialista em Disney. “Se Viúva Negra só pode fazer o que fez no seu segundo fim de semana, tem uma parte de mim que diz que as pessoas podem estar um pouco cansadas da Marvel. Isso deve deixar a Disney preocupada”.

O baixo desempenho é particularmente preocupante para a Disney, que busca desencadear uma enxurrada de novos filmes em sua chamada “Fase 4” do Universo Cinematográfico Marvel, ou MCU, como é conhecido. (A terceira fase se encerrou com o megahit Vingadores: Ultimato, em 2019). Em setembro, Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis - o primeiro filme da Marvel com um protagonista asiático - inaugura o lançamento de seis novos longas do MCU até julho do ano que vem, depois de um longo hiato. O período culminará com Pantera Negra: Wakanda Forever, sem o protagonista dessa série, o falecido Chadwick Boseman.

Uma porta-voz da Disney se recusou a fazer comentários para esta reportagem.

O MCU é o grupo de filmes mais lucrativo do maior conglomerado de entretenimento do país. Suas quase duas dezenas de filmes arrecadaram mais de 8,5 bilhões de dólares nas salas de cinema nos Estados Unidos e mais 14 bilhões de dólares nos cinemas do exterior, ao mesmo tempo em que geraram mais bilhões digitalmente e em merchandising.

Estrelado por Scarlett Johansson como a personagem título, pensava-se que Viúva Negra iria entrar direto nessa tradição lucrativa. O filme, que explora a história de origem de sua protagonista, é um dos longas mais esperados há muito tempo. Seus inúmeros adiamentos pandêmicos - começando em maio de 2020 - representaram uma espécie de campanha de teasers antes que o filme finalmente fosse lançado nos cinemas e na plataforma do Disney Plus, em 9 de julho.

Mas depois de um começo mediano (para a escala da Marvel) de 80 milhões de dólares nos cinemas, o filme arrecadou apenas 26 milhões de dólares  nas bilheterias no último fim de semana. E terminou em segundo lugar, atrás da muito menos esperada comédia de LeBron James, Space Jam: Um Novo Legado. Sua queda no segundo fim de semana é a maior de qualquer filme da Marvel lançado pela Disney, que geralmente continuam bem por semanas.

O filme agora tem 132 milhões de dólares em receitas nos Estados Unidos ao longo dos 11 dias de lançamento e pode acabar como o filme da Disney/Marvel de menor bilheteria de todos os tempos. (Atualmente, essa distinção vai para Capitão América: O Primeiro Vingador, com 177 milhões de dólares, uma década atrás). A maioria dos filmes da Marvel ultrapassa os 300 milhões de dólares em solo americano, e muitos já ultrapassaram os 400 milhões de dólares.

Viúva Negra não se saiu muito melhor no exterior, onde ainda não foi lançado na China e vem enfrentando dificuldades em alguns países. Até agora,o filme arrecadou 263 milhões de dólares em todo o mundo, muito fora do ritmo estabelecido por muitos dos lançamentos de bilhões de dólares da Marvel.

Embora algumas pessoas possam atribuir os resultados ao nervosismo do consumidor com relação às idas ao cinema durante a pandemia de covid-19, os especialistas observam que isso não explica os números relativamente baixos nas vendas do Disney Plus. A Disney disse que o filme arrecadou 60 milhões de dólares em “gastos do consumidor global” no primeiro fim de semana, referindo-se às compras no Disney Plus, mas não relatou vendas no segundo fim de semana. Números desse tamanho não vão compensar o déficit nas salas de cinema.


 


O presidente-executivo da Disney, Bob Chapek, anunciou em março que a empresa lançaria Viúva Negra simultaneamente nos cinemas e como opção de compra paga no Disney Plus, devido à incerteza em relação à reabertura dos cinemas. Alguns proprietários de salas, no entanto, temem que a empresa esteja usando a pandemia como oportunidade para testar um novo modelo que prejudica os cinemas, que normalmente têm vários meses de exibição exclusiva.

O grupo comercial Associação Nacional dos Proprietários de Salas de Cinema reagiu aos resultados no domingo, com uma longa declaração criticando a Disney pelo lançamento simultâneo, dizendo que isso prejudicou o lançamento de um “filme bem feito, bem recebido e muito aguardado”. “O lançamento simultâneo é um artefato da era da pandemia que deve ficar no passado, como a própria pandemia”, disse o documento.

A simultaneidade também é a abordagem polêmica adotada pela Warner Bros. para todos os seus filmes de 2021, incluindo Space Jam. A Universal Pictures, entretanto, seguiu a fórmula de lançamento mais tradicional para F9, sua sequência de Velozes e Furiosos, assim como a Paramount Pictures para seu drama de terror Um Lugar Silencioso - Parte II. Ambos tiveram um desempenho melhor do que Viúva Negra em relação aos seus respectivos antecessores.

A empresa não terá muita flexibilidade para redirecionar ou reduzir a Fase 4, que começou com a série WandaVision da Disney Plus neste inverno e abrangerá até duas dezenas de séries e filmes até pelo menos 2023. O presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, é famoso por planejar arcos com anos de antecedência para dar coesão ao enredo. Sites de fãs já começaram a delinear “setores” de histórias a partir de indícios de Viúva Negra.

O MCU começou não oficialmente com o Homem de Ferro de Robert Downey Jr., em 2008, quando os filmes da Marvel ainda estavam sendo distribuídos pela Paramount. Alcançou um ápice inicial com Os Vingadores de Joss Whedon, em 2012, vários anos depois que a Disney adquiriu a Marvel, enquanto o público se adaptava à mitologia mundial e aos altos riscos combinados com piadas internas e dramas pessoais. Sob Feige, o MCU nos anos que se seguiram gerou um sucesso global depois do outro, criando legiões de fãs e enchendo os bolsos da Disney, de seus acionistas e dos proprietários de cinemas.

Poucos duvidaram da capacidade de Feige de continuar com esse movimento mesmo depois que Vingadores: Ultimato apareceu para encerrar uma longa e tortuosa história - e mesmo depois de muitas franquias lucrativas, como o próprio Star Wars da Disney, terem se deparado com solavancos criativos e a fadiga do consumidor.

Mas a pausa pandêmica - e o subsequente gêiser de conteúdo da Marvel no Disney Plus - pode ter prejudicado essas esperanças. Alguns prêmios do MCU foram disponibilizados gratuitamente para mais de 100 milhões de assinantes do Disney Plus nos últimos seis meses, com estreias de séries como Loki, WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal. Os líderes da Disney têm como objetivo atrair o maior número possível de pessoas para seus serviços com conteúdo de alto valor. Mas, no processo, eles podem ter feito outra coisa: condicionado os consumidores à ideia de que o material da Marvel não é algo que deva ser pago.

Alguns analistas dizem que pensam que a mentalidade do consumidor de fato pode ter desempenhado um papel importante no baixo desempenho de Viúva Negra, mas por um motivo diferente: ao disponibilizar o filme para compra digital imediatamente, a Disney comprimiu a programação e dissuadiu os consumidores.

“Acho que isso mostra que, se você está disponibilizando um filme rápida e gratuitamente no streaming, as pessoas vão esperar”, disse Alicia Reese, analista de pesquisa de ações da firma de investimentos Wedbush Securities que acompanha de perto a indústria cinematográfica. “Se a Disney voltar ao modelo tradicional, acho que as pessoas serão menos pacientes e voltarão às salas de cinema”.

Viúva Negra estará disponível gratuitamente no Disney Plus apenas três meses após seu lançamento, uma reviravolta mais rápida do que muitos outros filmes. (Tenet, de Christopher Nolan, esperou longos oito meses). Shang-Chi seguirá um padrão lento mais tradicional: uma espera de 45 dias pelas vendas digitais antes da eventual disponibilidade em outras plataformas.

A pirataria também é uma preocupação do lançamento simultâneo. Viúva Negra foi o título mais pirateado da semana, de acordo com uma autoridade.

E um grupo demográfico fundamental para os filmes da Marvel são crianças menores de 12 anos: é possível que os pais e os acampamentos de verão tenham feito compras individuais no Disney Plus para exibir o filme a grandes grupos de crianças não vacinadas, em vez de comprar uma série de ingressos individuais para as salas de cinema.

Mesmo os mais céticos, como Spiegel, o comentarista de Disney, ainda não estão prontos para escrever o obituário da Marvel. Ele aponta como fatores importantes as críticas mornas a Viúva Negra e o fato de que o filme se passa numa espécie de terra de ninguém na linha do tempo do universo - antes de Ultimato, o que significa que os cinéfilos conhecem o destino da personagem. A apresentação de Shang-Chi e, em novembro, a estreia de Eternos, de Chloe Zhao, diretora de Nomadland, “podem revelar melhor se a Disney tem motivos para se preocupar, disse ele.

Os donos de salas de cinema, no entanto, dizem que mesmo se o MCU engasgar, eles terão poucos motivos para entrar em pânico.

“Para mim, o debate não é se a Marvel vai ou não vai durar para sempre”, disse Chris Johnson, coproprietário e presidente-executivo da Classic Cinemas, que controla 115 telas em Illinois e Wisconsin. “A questão é que precisamos de uma ampla gama de lançamentos para trazer uma ampla gama de públicos - públicos que não necessariamente amam super-heróis e explosões”.

Ele disse estar otimista de que, se a Marvel naufragar, outras pessoas entrarão em ação. “A criatividade não é propriedade de apenas uma empresa”, disse ele.


 Tradução de Renato Prelorentzou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.