Quatro vezes Woody Allen em digital

Faz 40 anos que Woody Allen subiu pela primeira vez num palco de teatro. Já era gagman (para Sid Caesar) na TV americana. Ele próprio estreou em seguida na televisão, no The Tonight Show. E, em 1964, já estava fazendo cinema - escrevendo as melhores gags de O Que É Que Há Gatinha?, de Clive Donner, o filme emblemático da Swinging London. Woody Allen é hoje o maior representante daquilo que se convencionou chamar de humor judaico-nova-iorquino. Nada menos convencional do que esse humor verbal sofisticado. Allen é um mestre da sofisticação. Criou alguns dos melhores filmes dos anos 90: Ana e Suas Irmãs, Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo. Salve a Fox Vídeo, que está colocando quatro DVDs dedicados a Allen no mercado. São quatro filmes por ele dirigidos e interpretados. Integram a Coleção Woody Allen: Tudo o Que Você sempre Quis Saber sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar, A Última Noite de Boris Grushenko, Noivo Neurótico Noiva Nervosa - mais conhecido pelo título original: Annie Hall - e Manhattan. Filmes, respectivamente, de 1972, 1975, 1977 e 1980. Do humor episódico do primeiro, no qual Allen aparece numa hilária participação como espermatozóide, para o segundo, uma paródia de Guerra e Paz, de Leon Tolstoi, já existe um salto de qualidade. O salto é maior ainda em Annie Hall, que ganhou os Oscars de melhor filme, direção e roteiro. Você sabe, mas não custa lembrar: Allen esnobou os prêmios da academia. Era o dia em que ele tocava com sua banda no Michael´s Pub e ele achou que não valia a pena deixar Nova York, rumo à Costa Oeste. Manhattan é a primeira definitiva obra-prima - e com o extra de ser embalada pela Rhapsody in Blue. Tudo o Que Você... e Boris Grushenko exibem diálogos engraçados e situações extravagantes. Mas o humor desses filmes com freqüência exibe um travo amargo: Gene Wilder degrada-se por amor a uma ovelha, que o abandona no primeiro filme e ainda lá existe o episódio do marido surpreendido com roupa de mulher e a esposa, compreensiva, desfia um rosário: por que ele nunca falou que era doente, pervertido? A cada adjetivo com que ela brinda o marido ´imoral´, o cara vai afundando mais e mais no colchão. Esse tipo de humor é 100% Woody Allen. Afinal, foi ele quem disse: "Se tivesse nascido na Polônia, teria dado um belo abajur." Você nunca ouviu piada mais cruel sobre o Holocausto. O humor torna-se mais grave em Annie Hall, com seu retrato de uma intelectualidade de Nova York, que sabe quem são Godard e Bergman, mas talvez não tenha resolvido direito os próprios problemas de identidade. Entre Manhattan e Los Angeles, os personagens de Woody Allen e de Diane Keaton estão longe de ter resolvido seus problemas afetivos e sexuais. Ri-se bastante, mas o riso, de novo, pode ser amargo. Foi o filme que consagrou Diane Keaton e ela ganhou o Oscar de melhor atriz. O retrato crítico do meio intelectual de Nova York é levado ainda mais longe em Manhattan. Allen faz o escritor de comédias às voltas com seus problemas e os dos amigos. Eles compõem uma fauna. A ex-mulher virou lésbica e agora o agride, a namorada não o satifaz e ele flerta com uma garota que representa a pureza e a inocência. Diane Keaton, Mariel Hemingway e Meryl Streep são algumas das mulheres, todas ótimas, mas quem rouba a cena é Wallace Shawn, que cria um dos personagens mais engraçados de toda a galeria alleniana, incluindo os que o próprio Allen interpretou. E há a fotografia deslumbrante, em preto-e-branco, de Gordon Wills. Com essa fotografia e a música de Gershwin servindo de invólucros para o inteligente humor doce-amargo do autor, não admira que Manhattan seja considerada uma das melhores e mais sofisticadas comédias de todo o cinema. Allen é um caso raro. Não é um vagabundo, como Chaplin, nem ostenta a agressividade triunfante de Groucho Marx. Mas seu personagem, tímido, intelectual e lúcido, faz parte da mitologia de Hollywood. Allen, que é único e é múltiplo com todos os seus talentos, é gênio.

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