Quatro Irmãos, de John Singleton, chega às locadoras

John Singleton irrompeu no cinema americano em 1991, instantaneamente consagrado com um filme profético sobre as explosões de violência racial em Los Angeles - Os Donos da Rua (Boyz´n the Hood). Desde então, com maior ou menor sucesso, ele tem tratado sempre dos problemas de afrodescendentes na sociedade americana. "De que outro assunto vou tratar, se também sou negro?", ele diz, numa entrevista por telefone, de Los Angeles, para ser divulgada no lançamento do DVD de Quatro Irmãos, que chegou às lojas nesta semana. Singleton conheceu o Brasil no carnaval. Ficou impressionado com o Rio - com a beleza de cartão-postal, a sensualidade das mulheres e a miséria humana e social. Aquilo não cansa de dar filme. "City of God (Cidade de Deus) is great (é grande)", ele diz. A novidade é que o próprio Singleton quer fazer um filme no Brasil, no Rio. "Vou fazer", jura. Singleton admite que adora filmar cenas de violência. Elas são cada vez mais fortes e intensas em seus filmes e a história dos quatro irmãos não foge à regra. A família é mista, integrada por Mark Wahlberg , pelo rapper Tyrese Gibson (cuja música está mais para o pop do que para o radical), por Andre Benjamin e Garrett Hedlund. São filhos adotivos de uma mulher que foi assassinada, supostamente durante um assalto. Cada um seguiu seu caminho, dispersaram-se pelo mundo, mas agora estão todos de volta para o enterro da mãe - e para a vingança. Fazem descobertas indesejáveis, desconfiam uns dos outros, colhem inimigos por todo lado. Há uma cena de fuzilaria dirigida contra a casa na qual se abrigam que parece digna de algum western de Sam Peckinpah. Quatro Irmãos não deixa de ser um western urbano, define o repórter. Por falar em western, é difícil não fazer a associação com Os Filhos de Katie Elder, de Henry Hathaway, de 1965, com John Wayne, do qual Quatro Irmãos seria a versão atualizada. Seria, porque Singleton nega que seja. "Não sei de onde vocês (jornalistas e críticos) tiraram essa idéia. Quatro Irmãos não me foi proposto nem nunca pensei nele como uma refilmagem de Katie Elder. Nem interessa saber se vi ou se gosto do filme antigo, porque não tem nada a ver." Êpa - o repórter observa que não é bem assim. É até possível acreditar que ele não concebeu seu filme assim ou até que nunca tenha assistido ao western do grande Hathaway, mas ambos têm tudo a ver, sim, apesar das diferenças que os caracterizam. Os Filhos de Katie Elder conta a história desses quatro irmãos que se reúnem para enterrar a mãe e caçar os pistoleiros (e o grande fazendeiro interessado nas terras dela) que executaram o crime. Além da diferença óbvia de um ser um faroeste e outro, um filme de ação urbana, a mãe não aparece e é definida por sua ausência (à Alain Resnais) no filme antigo, enquanto no de Singleton ela aparece, interpretada por uma atriz de presença muito humana, Fionulla Flanagan. "A fine lady" (Uma mulher maravilhosa), Singleton define. Sua presença fornece a explicação para o fato de se haver tornado a guardiã dessas crianças que têm em comum a carência (afetiva e social). O assunto volta ao começo, ao porquê da atração de Singleton pela violência, expressa em filmes como O Massacre de Rosewood, Shaft, remake (com Samuel L. Jackson) do velho êxito de Gordon Parks com Richard Roundtree, e Baby Boy - O Rei da Rua. Singleton admite duas razões. Uma delas é mais ideológica; a outra, mais estética. "Vivo numa sociedade na qual a minha raça foi historicamente excluída e na qual os conflitos costumam ser resolvidos pela violência", essa é a ideológica. Ao mesmo tempo, como diretor, tendo começado a trabalhar com cenas de violência, ele admite que é um desafio cada vez maior construir imagens novas num território tão saturado no inconsciente do espectador, essa é a razão estética - mas o repórter diz que, no fundo, é tão ideológica quanto a anterior, principalmente para quem vive num país como o Brasil, ocupado pela produção de Hollywood. Quatro Irmãos (Four Brothers). EUA, 2005. Dir. John Singleton, com Mark Wahlberg. DVD da Paramount. Só locação

Agencia Estado,

23 de fevereiro de 2006 | 11h56

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.