"Quase Nada" humaniza anônimos do campo

Inaugurando o cinema Estação Ipanema no Rio, chega às telas nesta sexta-feira o filme Quase Nada de Sérgio Rezende, vencedor do prêmio de júri popular em Gramado este ano. Saindo de duas grandes produções, Guerra de Canudos (1997) e Mauá, o Imperador do Brasil (1998), com atores famosos da TV, o diretor resolve produzir algo simples, protagonizado por artistas desconhecidos do grande público. Ele mergulhou no universo particular do homem rural, desses seres "invisíveis", com histórias tão diferentes e tão comuns ao mesmo tempo. Optando por uma narrativa em forma de conto, influência direta dos escritores Jorge Luis Borges, Maximo Gorki e Guimarães Rosa, o filme é uma junção de três histórias em um mesmo ambiente, o campo - que ele conhece bem por ter sido produtor de leite por 12 anos num município do interior do Rio. Quase Nada é tão pessoal, que Rezende faz, pela primeira vez, uma participação especial como ator. O filme estréia oficialmente dia 1º de setembro em São Paulo, Brasília e outros cinemas do Rio."São três histórias e um filme", como ele prefere sintetizar. A primeira conta a história de João e Compadre, dois trabalhadores em constante tensão. A segunda, do vaqueiro Ademir e sua mulher Idalina, aterrorizados por um fantasma do passado. E a última é sobre Ernani e Glorinha, um casal em conflito. Pela primeira vez, Rezende assina um roteiro sozinho. A idéia era fazer um filme com "quase nada" de gasto ou de glamour. Em seis meses a idéia passou do papel à tela a um custo de R$ 800 mil reais. O longa foi produzido por Mariza Leão, sua mulher e diretora da Morena Filmes, a produtora do casal, com apoio da RioFilme e do programa de apoio à produção dos países ibero-americanos Ibermedia. Um filme que se baseia nos personagens não poderia deixar de ter um elenco excepcional. Quase Nada revelou atores paulistas de formação teatral, como Genezio de Barros, que causou surpresa no festival. Cuidadosa também foi a composição por David Tygel da trilha sonora a partir de pesquisas dele e de Sérgio Rezende. O filme não tem exatamente um trilha, mas uma sonoridade, um diálogo entre sons naturais , instrumentos de sopro e som de copo de cristal. "Foi essa sensibilidade que eu acho que o público de Gramado percebeu no filme", diz Rezende. "E que o júri infelizmente não percebeu", alfineta.Por que sair de superproduções para um filme tão simples?Sérgio Rezende - Atendendo a lei do desejo. Esse é meu 9º longa metragem e os dois últimos filmes foram grandes. Mas antes disso, eu fiz filme de todo jeito, fiz documentário, fiz filme pequeno. Eu não estou muito preocupado com isso, às vezes me interesso em contar determinadas histórias e algumas, para serem contadas, precisavam de muitos recursos, como foi o caso de Canudos: reconstruir umas cidade inteira, milhares de figurantes. Dessa vez eu quis contar a história de pessoas anônimas, de gente pobre, do interior e eu não precisava de muito dinheiro para fazer. Mas tive tanto desejo de fazer esse filme quanto tive de fazer os outros. E a opção por uma narrativa de conto? Por que não uma única história?Pelo mesmo motivo: porque eu queria contar essas três histórias que eu vivi durante uma época da minha vida em que eu era um pequeno produtor rural. Eu tomei conhecimento de fatos que, passados muitos anos, permaneceram na minha memória. No ano passado eu li muitos livros de contos e de repente eu me dei consciência de que, em geral, os filmes usam a estrutura do romance, mas que era possível fazer um filme com estrutura de contos. Guimarães Rosa, Gorki e Borges são os três autores que fiquei lendo e relendo. Não são histórias compartimentadas, são contos que se interligam.Quase nada é um filme de aprofundamento?Quase Nada é uma tentativa de tornar visível o invisível, coisa que eu acho que é uma boa tarefa para o cinema. Você pegar personagens invisíveis da sociedade brasileira, pessoas que estão sem Marx, sem Freud, sem Deus. Esse filme é uma tentativa de me aproximar e aproximar as pessoas que vão ao cinema, das grandes cidades, desse universo esquecido. Citando Borges: "Gente que você não conhece tão parecida com você". Quando você se aproxima das pessoas, vê que os sentimentos são os mesmos: temos inveja, medo, ciúme. De perto todo ser humano é um ser humano. Quando você diz que queria fazer um filme sem grandes ambições, significa que não esperava muito dele? Esperava ganhar um prêmio em Gramado?Eu esperava. Acho que ninguém faz um filme sem esperar que seja um bom filme. Eu tenho filmes em Gramado desde 78, ninguém teve mais filmes em competição no festival do que eu. Eu já competi com documentário chamado PS. Te amo, que ganhou o prêmio da crítica, depois; em 81, com o Até a Última Gota, ganhei prêmio de júri. Em 82, voltei com O Sonho Não Acabou; em 86 com O Homem da Capa Preta, que ganhou vários prêmios; em 89, Doida Demais, e no ano passado o Mauá foi exibido fora de competição no encerramento do festival. Eu conheço bem Gramado. Esse filme agora, como a gente não tem grana para fazer lançamentos extravagantes, nem o filme se pretende a isso, eu achei que ter essa divulgação lá era importante. Isso para nós era a coisa mais importante. Ter ganho, além disso, esse prêmio de júri popular foi excelente.Pantaleón y las Visitadoras levou sete Kikitos. Faltou diversidade ao festival ou é puro mérito do filme peruano?O filme é bom.... mas o júri... Parece que o júri é uma instituição: deuses que vêm a Terra. "O júri" não existe, são pessoas, são quatro ou cinco que estão ali. Às vezes você se importa mais com a opinião delas, às vezes menos. Mas sempre tem esse peso institucional. E esse júri era muito conservador. Pantaleón é uma comédia como se fazia no Brasil na década de 70. Não acho que tenha faltado diversidade ao festival. Acho que havia vários estilos, vários "sabores". Cinema é como sorveteria, tem que ter vários "sabores".E agora? Que história você está querendo contar?Eu estou com dois projetos: Um filme de samba, que fala do samba de subúrbio, Não Quero Mais Amar a Ninguém. Eu vou convidar o Paulinho da Viola para fazer a trilha. E outro que se chama Os Piadistas, uma história de um cômico paulista aposentado que resolve sair pelo Brasil à procura do cara mais gozado do País É um filme de trupe: ele vai encontrando e se perdendo de pessoas e, ao mesmo tempo, descobrindo que são os caras mais pobres, que riem para não chorar. Todos os dois para o ano que vem.

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