Max-o-matic/The New York Times
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'Quase famosos': A história oral de uma viagem com ácido de um deus dourado

Filme foi lançado no dia 13 de setembro de 2000, e representou para Hudson e Fugit o grande passo para a fama e, para Crowe, um Oscar de roteiro original

Ilana Kaplan/The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 18h37

Cameron Crowe, o escritor e diretor, já era uma voz amada no cinema por seus contos para um público juvenil, como Fast Times at Ridgemont High Say Anything. Depois veio Almost Famous (Quase famosos, de 2000). Neste, a história sobre a chegada à idade adulta proporcionou ao público um passe para os bastidores do cenário do rock’n’roll dos anos 70 e, no meio tempo, se tornou um clássico.

Vagamente baseado nos anos da adolescência de Crowe como jornalista que escrevia sobre música e cobria a banda Allman Brothers e Led ZeppelinQuase Famosos fala do aspirante a escritor de 15 anos, William Miller (Patrick Fugit), que agarra a oportunidade de sua vida quando a revista Rolling Stones o manda da sua casa, em San Diego, a uma excursão com a Stillwater, uma banda fictícia de roqueiros prestes a se tornarem famosos. Durante a viagem, William faz amizade com o guitarrista, Russell Hammond (Billy Crudup) e a Band Aid, uma fã da banda, Penny Lane (Kate Hudson).

Quase Famosos foi lançado no dia 13 de setembro de 2000, e representou para Hudson e Fugit o grande passo para a fama e, para Crowe, um Oscar de roteiro original. Ao aproximar-se do seu 20º aniversário, o filme foi o tema de uma adaptação no teatro (estava prestes a estrear na Broadway, mas foi adiada por causa da pandemia) e de um podcast. Em parte, o filme é amado pelas cenas que se destacampor exemplo, um riff sobre a arrogância do astro do rock dos anos 70: durante uma pausa da turnê em Topeka, Kansas, Russell invade uma festa e acaba no telhado de uma casa numa viagem com ácido, pronto a pular em uma piscina escura. Antes de fazê-lo, diz umas últimas palavras: “Eu sou um deus dourado!” e “Estou drogado!”.

Conversei com o elenco e com a equipe técnica do filme – inclusive Crudup, Fugit, Crowe, o editor Joe Hutshing, o produtor de arte Clay Griffith, e a figurinista Betsy Heimann – sobre como foi rodada aquela cena.

Robert Plant do Led Zeppelin foi a inspiração, e não apenas por causa da frase.

CAMERON CROWE: Houve um momento famoso no terraço do Continental Hyatt House, the Riot House [como o hotel de Sunset Strip é conhecido]. Acho que há até uma fotografia daquele momento; ele está com as mãos estendidas e diz: “Eu sou um deus dourado!”. 

BILLY CRUDUP: O motivo pelo qual Robert Plant disse isto foram os seus longos cabelos dourados. Porque o meu é castanho. Eu não estava relacionando uma coisa com a outra. Só imaginei que Russell estivesse pensando em si mesmo como uma espécie de ídolo tribal.

CROWE: Quando estava escrevendo, pensava: “Amo a relação brincalhona de Plant com a própria imagem. Às vezes, ele usava uma camiseta de fã de Robert Plant que alguém jogara no palco. Ele tinha um esplêndido senso de humor sobre sua posição de grande astro do rock. Usar aquela camiseta equivalia a dizer que ele compreende a experiência do fã. Na realidade, é um deles. Russell estar com os fãs equivalia a fazer uma versão da mesma coisa. “Nós nos entendemos, e eu posso até compartilhar com vocês minha profunda sensação em cima do seu telhado!”

CRUDUP: Cameron, da perspectiva de alguém que passou muito tempo com estas pessoas, queria expressar a extrema humanidade delas, até mesmo com alguém como Russell. Foi preciso uma viagem de ácido para ele expor esta experiência quase infantil de um deus do rock.

CROWE: Russell vai para a casa do fã em busca “do que é real”. Este foi originalmente um dos títulos descartados do filme, “Something Real”. Antes que Russell fosse puxado para o mundo hermeticamente fechado da Stillwater, eu só queria ter a certeza de que nossa ideia era celebrar os fãs de lá porque“Quase Famosos” fala de nós enquanto fãs da música. Para mim, a sequência com Billy no telhado, na piscina, toda aquela brincadeira vive em um pequeno trecho  de uma carta de amor aos fãs, como eu sempre quis que fosse.

 A sequência da festa do filme acabou virando uma festa de verdade.

CRUDUPAcho que ficamos dois ou três dias naquela casa com todos os artistas de background fazendo o papel dos hóspedes da festa. Reunir todos eles foi uma experiência muito legal.

CROWE: Mary-Louise Parker [por um tempo a companheira de Crudup] apareceu. Depois Nancy Wilson [a roqueira do Heart que contribuiu com sua música para o filme e esposa de Crowe por algum tempo], e na realidade virou uma baderna total.

CLAY GRIFFITH: Escolhemos os extras mais pela aparência. Tínhamos um número considerável de extras um dia em San Diego, mas todos pareciam contemporâneos demais. Não sei dizer ao certo como seria uma festa dos anos 70, mas esta definitivamente era algo dos anos 90. Então, fomos para os locais do lugar, não lembro se eram bares ou restaurantes, e começamos a escolher as pessoas que estavam ali, perguntando se gostariam de estar neste filme.

FUGIT: [Aquela casa] foi a primeira vez que estive com um monte de pessoas mais da minha idade.

CROWE: Os moradores da casa participaram da festa. Mas ela também estava cheia desses extras. Foi demais porque, como aconteceu algumas vezes, a vida se tornou o filme, que se tornou a vida, que se tornou o filme. Patrick tinha aquela idade e ficou extasiado com Kate Hudson, exatamente como o personagem.

FUGIT: Ela pertencia à realeza de Hollywood e [sua mãe, Goldie Hawn, e o padrasto, Kurt Russell] ia ao set de filmagem. Aquilo era uma loucura para mim porque eu cresci assistindo a um monte dos seus filmes. Kate é linda e talentosa. Ela provocou uma tremenda impressão aos meus 16 anos. Tive uma paixão por ela por dois meses. À medida que as filmagens avançavam, ela se tornou muito mais uma espécie de irmã mais velha.

Crudup quase errou o pulo na primeira vez em que saltou do telhado.

GRIFFITH: Procurávamos um lugar que se parecesse com os bairros do Kansas, e o encontramos em San Fernando Valley [no sul da Califórnia].

Estávamos procurando uma casa perto de uma piscina. [Nós acabamos decidindo] encontrar a casa certa e depois construir uma fachada inteira fictícia que pudesse ser levada perto da piscina.

CRUDUP: O telhado era muito inclinado, e eu não me senti à vontade lá em cima. A parte prática de estar de pé em um telhado relativamente inclinado é que parece precário, mesmo que você esteja a apenas 6-7 metros do chão.

CROWE: Só queríamos nos sentir seguros, mas também qual seria a maneira mais ousada para poder vê-lo antes que ele voasse na piscina?

BETSY HEIMANN: Do ponto de vista do costume, todos nós estávamos um pouco nervosos com todas aquelas crianças mergulhando na piscina e Russell pulando da construção, porque em qualquer filme, você diz “água” e pensa: “De quantas vou precisar?”. Provavelmente fizemos quatro backups.

CRUDUP: Pulei em uma daquelas almofadas que murcham quando você pula em cima. Na primeira vez, estava com tanta adrenalina, que quase errei a almofada. Dava pra ver o branco dos olhos dos dublês com medo de que eu não fosse capaz de me dominar naquele momento.

GRIFFITH: Lembro que a piscina não estava suja, como se não tivesse sido usada. Então, tivemos de trazer folhas, e a tingimos de um pouco de verde.

CROWE: A ideia era deixar sempre deixar que Russell fizesse a sua mágica na medida do possível, sem ficar doente com uma piscina que não tinha água limpa. Mas nós tomamos bastante cuidado.

Billy Crudup inventou a viagem de ácido de Russell Hammond.

CRUDUP: Cameron quis fazer essas tomadas em que a câmera montada no guindaste estava focada em mim, e eu precisava estender os braços e olhar para cima para a câmera e gritar [sua fala]. Pensando nisso agora, me senti um pouco tonto. Cameron também encorajou todo tipo de estranhas interpretações do que poderia ser uma viagem para Russell: que veria e sentiria muita energia. Está provocando uma curiosa sensação nos meus braços. 

CROWE: Lembro que, a certa altura, Billy estava pegando fogo. Ele disse: “OK, tomei ácido, certo? Me dê algo específico. Me dê algo específico para fazer”. E eu disse: “Bom, você está sentindo um formigamento, suas mãos têm mente própria”. E ele fez aquilo com as mãos, não canso de olhar, quando ele está sentindo o ar tinindo em suas mãos, e parece que é como: “Estou desenterrando música”.

CRUDUP: Só lembro que Cameron ficou tonto com aquilo.

CROWE: Acabou sendo o momento da bravura como eu tinha sonhado que poderia ser, e a gente nem sempre consegue.

O filme seria diferente sem aquela sequência. Serei sempre grato por isso.

Cameron Crowe fez uma exibição para o pessoal da Led Zeppelin para que os músicos dessem a licença para que usássemos a sua música, porque não costumavam fazer isto naquela época.

JOE HUTSHING: Cameron e eu tivemos de pegar um avião para ir a Londres para mostrar o filme a Page e Plant na esperança de conseguir a benção dos dois. Quando as luzes se acenderam, Robert Plant imediatamente disse: “Então, Cameron, sua mãe gostou mesmo disso?". Houve uma pausa, e nós todos caímos na gargalhada. Ela era exatamente assim, e Frances McDormand a interpretou perfeitamente.

CROWE: Você nunca ficou observando duas cabeças mais do que nós ficamos olhando para as cabeças dos dois enquanto assistiam a Quase Famosos. De vez em quando um deles murmurava alguma coisa no ouvido do outro. E nós nos olhávamos e pensávamos: “O que será que isto significa?” e depois veio a sequência do “deus dourado”. Billy diz: “Eu sou o deus dourado!”. Aí Robert Plant explode na maior gargalhada e aplaude. Agora podíamos respirar. E pensamos: “Isto significa que talvez eles gostaram do filme”. Depois veio o fim, em que Billy Crudup está sentado em um banco e descobre que o menino escreveu tudo [no artigo] ,inclusive o grito: ‘Eu sou o deus dourado”. Acho que Billy disse: “Eu não falei isto”. E Plant gritou no cinema: “Fui eu!”.

CRUDUP: Cameron me contou mais tarde: “Robert Plant falou: 'Sim, gostei muito. Aquele personagem de Russell, conheço o cara'. E Cameron: 'Você conhece Billy?'. E ele: 'Não, não, não, conheço Russell'.

CROWE: Ficamos sentados na sala de projeção com Page e Plant por algum tempo. E um dos primeiros comentários foi de Robert Plant: “Uau, quantas recordações”. E: “Tenho uma garrafa de quaaludes (um hipnótico) do início dos anos 70 como enfeite em uma prateleira. Acho que vou para casa e hoje a noite vou abri-la”. Foi aí que pensei que “Eu sou o deus dourado” encontrou sua casa certa e voltou para o seu criador. Muitas vezes penso em Robert Plant dialogando com o filme quando vejo essa cena. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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