"Quase Dois Irmãos" traz choque social na ditadura

Quase Dois Irmãos é o melhor filme brasileiro do ano. Pode até ser que surjam até o fim do ano outros filmes tão bons quanto ele, mas é pouco provável que venham a ser melhores do que o forte - e denso e impactante - trabalho de Lúcia Murat que estréia hoje. Em parceria com o escritor Paulo Lins, de Cidade de Deus, Lúcia debruça-se sobre um episódio da ditadura militar para entender o que se passa hoje no Brasil.Lucia, presa por razões políticas entre 1971 e 1974, inspirou-se na própria biografia e em fatos ocorridos com pessoas próximas para fazer o filme. A diretora nega que sua motivação principal tenha sido contar a história da formação do Comando Vermelho, embora a gênese e o desenvolvimento da organização criminosa ocupe uma boa parcela do entrecho. "As pessoas têm uma visão muito romântica de como se deu essa interação entre os presos políticos e os presos comuns, que resultou na formação do CV", esclarece ela. "Na origem, o comando teve um papel social forte. Só que a posterior transformação em organização criminosa, com intensificação da luta entre as facções criminosas pelo poder, e a escalada da violência aconteceriam de qualquer maneira." O fio condutor está na relação de amizade entre os personagens de Miguel (Caco Ciocler e Werner Schünemann), deputado e ex-preso político, e Jorginho (Flavio Bauraki e Renato Pompeo), chefão do tráfico que controla a gangue da penitenciária. O filme começa mostrando o início do laço, nos anos 1950, quando os pais de ambos - participações especiais de Fernando Eiras e de Luís Melodia - participavam de rodas de samba nos finais de semana. E percorrem os anos 1970, quando ambos dividem o mesmo pavilhão no presídio da Ilha Grande, próximo da cidade litorânea do Rio de Janeiro, e participam da experiência que resultou na formação do Comando Vermelho. Nos anos 1990, eles voltam a se encontrar. Miguel como deputado de esquerda, bem intencionado e disposto a obter a aprovação para permitir a realização de projetos sociais no morro. Jorginho como o chefe do tráfico que controla seus soldados de uma penitenciária e líder supremo do morro onde o velho amigo quer realizar seus projetos assistencialistas. Há uma história paralela nesse período, vivida pela filha de Miguel, a belíssima e rebelde Juliana (Maria Flor). Ela freqüenta as festas funk do morro e se apaixona por um gerente do tráfico. Entre a desaprovação do pai e os atropelos da atividade do namorado, a menina se torna mais uma vítima da violência da guerra entre as gangues. É o retrato ficcional de casos que são cada vez mais comuns.

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