Valerie Macon / AFP
Valerie Macon / AFP

Quão aberta está a corrida pelo Oscar de melhor filme?

Cerimônia será apenas em 25 de abril, tempo suficiente para os candidatos fazerem suas campanhas

Kyle Buchanan, The New York Times

29 de março de 2021 | 05h00

Quem vai ganhar o Oscar de melhor filme, coroando o ano mais incomum que Hollywood já viveu? Oito longas continuam na briga depois das indicações de segunda-feira, 15, e, ainda que a maioria considere Nomadland o favorito, a atípica temporada de premiações não garante que o vencedor será o esperado. Ainda temos mais de um mês até a cerimônia do Oscar, em 25 de abril, e há tempo de sobra para os candidatos fazerem suas campanhas. Aqui vai minha opinião sobre como cada um dos indicados deste ano pode traçar um caminho para o prêmio.

Meu Pai. A categoria de design de produção geralmente vai para filmes grandes e chamativos, com cenários extravagantes, e não filmes como Meu Pai, que fica quase todo contido num único apartamento. Mas o fato de, mesmo assim, o filme aparecer nessa categoria – um tributo à maneira inteligente como retrata os espaços para indicar a crescente demência do personagem-título (Anthony Hopkins) – é sinal de que os eleitores do Oscar realmente gostaram de Meu Pai e estavam procurando um jeito de recompensá-lo. Mas não sei se o filme conseguirá transformar qualquer uma de suas seis indicações em vitória. Uma premiação póstuma de melhor ator para Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues) provavelmente afastará Hopkins de seu segundo Oscar, e a recente vitória da coestrela Olivia Colman por A Favorita (2018) pode prejudicar sua chance na corrida pelo prêmio de atriz coadjuvante. Nas disputas de roteiro, montagem e direção de arte, outros filmes saíram na frente. Para Meu Pai juntar forças para disputar melhor filme, terá de conquistar alguma vitória inesperada ao longo do caminho. 

Judas e o Messias Negro. Talvez não haja surpresa maior neste Oscar do que a dupla indicação dos atores de Judas e o Messias Negro: se Daniel Kaluuya já era considerado o favorito a vencer por sua poderosa atuação como Fred Hampton, o líder dos Panteras Negras assassinado, ninguém previa que nessa corrida ele teria a companhia de Lakeith Stanfield (o Judas do título), que tinha feito campanha como candidato a ator principal. O fato de Stanfield ainda ter conseguido a indicação, apesar da evidente bagunça na categoria, é notável: mesmo uma votação dividida não conseguiria drenar muito entusiasmo de Judas e o Messias Negro, que chega em cima da hora e com muito ímpeto como o último candidato a melhor filme a estrear nas telas. Suas chances de vencer a categoria de melhor filme seriam melhores se Shaka King tivesse conseguido uma indicação de melhor diretor. Mas, com o filme ainda em ascensão, ninguém sabe aonde poderá chegar.

Mank. Com toda a sua prodigalidade técnica, o filme de David Fincher sobre o passado de Hollywood atropelou todos os outros candidatos com dez indicações, entre elas reconhecimentos às estrelas Gary Oldman (como o roteirista Herman Mankiewicz) e Amanda Seyfried (como a atriz Marion Davies). Mas aí vem o problema: apesar dessa grande conquista, Mank é o único candidato a melhor filme que não conseguiu uma indicação para seu roteiro. E isso porque é um filme sobre um roteirista!

O caminho para o melhor filme depende cada vez mais da vitória do roteiro, e apenas sete filmes já ganharam o Oscar sem que seus roteiros fossem indicados (os exemplos mais recentes, Titanic e A Noviça Rebelde, nem são tão recentes assim). Mank ainda pode obter algumas vitórias técnicas ou quem sabe um prêmio para Seyfried na imprevisível categoria de atriz coadjuvante, mas o baque de ter sido esnobado em roteiro, bem como outra omissão reveladora na categoria de melhor montagem, sugere que é um candidato que é mais admirado do que amado.

Minari – Em Busca da Esperança. A distribuidora A24, queridinha do momento, conseguiu uma vitória de melhor filme em 2017 com Moonlight, mas os esforços mais recentes não conseguiram se conectar com os eleitores do Oscar. Minari mudou esse jogo e acumulou seis indicações, entre elas melhor diretor e roteiro para Lee Isaac Chung, bem como indicações individuais para Steven Yeun e Yuh-Jung Youn, um feito notável, uma vez que os filmes asiáticos que concorreram ao Oscar nos últimos anos, como Parasita e O Tigre e o Dragão, não ganharam nenhum reconhecimento da academia no ramo da atuação.

Num ano em que quase todas as premiações têm sido estranhas e remotas, Minari produziu dois dos mais memoráveis e sinceros discursos de aceitação da temporada: quando Minari ganhou o Globo de Ouro por melhor filme em língua estrangeira, a filha de Chung caiu em seus braços e exclamou: “Eu rezei tanto!”. E quando o astro Alan Kim, de 8 anos, ganhou o prêmio de melhor ator jovem no Critics’ Choice Awards, ele ficou tão emocionado que começou a chorar. Muitos eleitores do Oscar podem torcer por Minari simplesmente porque sua vitória garantiria um momento tão emocionante quanto o próprio filme.

Nomadland. Se o Oscar fosse hoje, Nomadland certamente seria o candidato mais forte a melhor filme: esse drama protagonizado por Frances McDormand já recebeu as maiores honras do Globo de Ouro, do Critics’ Choice Awards e do Gotham Awards, para citar apenas alguns de seus feitos. Será que Chloé Zhao também será a primeira mulher não branca a ganhar o título de melhor diretora? Com base no que vimos até agora, suas chances parecem muito boas.

Mas a corrida para o melhor filme tem se mostrado fluida nos últimos anos, e os eleitores podem preferir um filme mais abertamente político para representar um ano tão tumultuado. Com um orçamento inferior a US$ 5 milhões, Nomadland também seria um dos campeões de melhor filme mais modestos de todos os tempos. Será que um filme tão íntimo consegue se manter na dianteira ao longo de uma temporada de premiações prolongada por dois meses extras?

Bela Vingança. Você pode subestimar Bela Vingança o quanto quiser, mas fica por sua própria conta e risco. Esse drama sombrio sobre violência sexual é o único indicado para melhor filme (além de Nomadland) a mostrar força em quatro categorias principais – ganhando indicações de melhor diretor para Emerald Fennell, melhor atriz para Carey Mulligan e melhor roteiro e montagem. Na noite do Oscar, uma ou duas vitórias cruciais podem abrir o caminho para o melhor filme: Mulligan tem grandes chances de ganhar o Oscar de melhor atriz, mas um presságio ainda melhor seria uma vitória para Fennell na categoria de roteiro original.

Não será fácil enfrentar Aaron Sorkin, roteirista vencedor do Oscar que foi indicado mais uma vez por Os Sete de Chicago, mas Bela Vingança é audacioso o suficiente para ainda ter alguma chance. Mais que isso, sua vitória faria história: se Fennell levar o Oscar de roteiro original e Zhao triunfar na categoria de roteiro adaptado, será a primeira vez que ambas as disputas de roteiro serão vencidas por mulheres que foram as únicas roteiristas creditadas em seus filmes.

O Som do Silêncio. O Festival Internacional de Cinema de Toronto muitas vezes catapulta os principais candidatos ao Oscar, mas quando o drama de Riz Ahmed estreou lá, no outono de 2019, seu burburinho de premiação foi quase insignificante. A campanha do Oscar para O Som do Silêncio exigiu o tipo de paciência e esforço que talvez não fosse possível em outro ano, quando o filme poderia ter sido atropelado por uma competição de orçamento maior. Mas, num cenário de premiação reduzido, essa história de um baterista lidando com a surdez rendeu seis indicações para o Oscar.

Será que isso vai se traduzir em chance de prêmio? Bom, uma vitória na categoria de melhor som é quase garantida, e você não pode levar o prêmio principal sem pegar pelo menos um outro troféu no meio do caminho. Ahmed e sua coestrela Paul Raci, indicado para melhor ator coadjuvante, certamente merecem ganhar em suas categorias, ainda que nenhum dos dois seja o favorito. A indicação de melhor filme talvez seja suficiente para O Som do Silêncio, embora o filme certamente já tenha superado suas modestas expectativas.

Os Sete de Chicago. Os diretores da academia tendem a preferir filmes tecnicamente audaciosos àqueles que ficam só na falação. Mas, mesmo num ano em que havia muito poucos dos primeiros competindo, Aaron Sorkin não conseguiu uma indicação de melhor diretor para o drama da Netflix Os Sete de Chicago. Isso significa desgraça para o filme, ou será que pode mandar um Argo e ganhar o melhor filme do mesmo jeito?

Certamente, o filme parece um candidato antiquado: é um longa de época baseado em uma história real, recebeu boas críticas e seus temas de protesto político e violência policial têm muita ressonância nos dias modernos. Os Sete de Chicago deveria ser uma possibilidade natural de melhor filme para os eleitores mais velhos do Oscar, que tendem a gravitar em torno de filmes protagonizados por homens de peso.

Seria de se esperar uma vitória significativa como melhor filme, mas ele continua perdendo para Nomadland. A Netflix certamente gastará muito, e um triunfo no Writers Guild Awards, que foi realizado no dia 21, poderia ter dado um impulso a Os Sete de Chicago, mas o filme saiu sem nada e não dá para cravar que ele venha a ganhar muito mais do que um roteiro no Oscar.

Tradução de Renato Prelorentzou.

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