Quando 'Tropa de Elite' vira 'The Elite Squad' na Berlinale

Filme foi exibido nesta manhã para a imprensa com legendas em alemão e narrado em inglês, francês e espanhol

Flavia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

08 Fevereiro 2011 | 10h23

Tropa de Elite virou The Elite Squad na Berlinale. E as tiradas genais que tornaram o Capitão Nascimento um dos personagens mais 'citados' da história do cinema brasileiro acabaram caindo numa geléia geral da narração que acompanhou o filme durante a sessão para a imprensa, que começou às 9 horas da manhã desta segunda-feira, 11, em Berlim e se seguiu a uma animada coletiva de imprensa da equipe do filme.       Veja também:    Trailer de 'Tropa de Elite'   Acompanhe a Berlinale no blog do Merten   Saiba quais filmes concorrem ao Urso de Ouro  A imprensa não se empolgou. Mas tampouco vaiou o filme dirigido por José Padilha (que comparece ao festival acompanhado de Wagner Moura, Maria Ribeiro, o diretor de fotografia Lula Carvalho e o produtor Marcos Prado). Houve quem não entendesse muito bem os diálogos. Não só porque bordões como "Pede para sair" e "O Senhor é Moleque, seu 06" não têm a mínima graça e ironia em inglês, mas porque o filme foi exibido com legendas em alemão e narrado para a imprensa (que podia 'ouvir' na língua que escolhesse usando os tradicionais fones de tradução simultânea).   "O início é muito difícil. O Capitão narra muita coisa. E ao mesmo tempo a ação acontece. Fora que em inglês foi narrado por uma mulher. Um filme em que os personagens masculinos são tão fortes ser narrado por uma voz feminina faz com que perca um pouco da força sim", disse um jornalista britânico.   Houve quem discordasse e afirmasse que "deu para pegar o sentido geral". "Mas, há que se confessar, o filme é um tanto quanto didático, e tem que ser. Com narração, fica cansativo. Não é culpa do filme, mas da estrutura de legendagem e narração", comentou um jornalista espanhol.   No fim, a coletiva de imprensa foi acalorada. Padilha praticamente falou pela equipe e afirmou que não ter idéia de como espera que o filme seja recebido. "Há coisas que a gente não controla na vida. Uma delas é como seu filme vai ser recebido. Eu acho que vai ser visto, de qualquer forma, de um jeito diferente porque aqui na Europa o background cultural das pessoas é outro. E é uma realidade distante da nossa, no Brasil. Acho que vai ser visto mais como um filme, que é mesmo, e não como um assunto que deu margem a tanta discussão, como deu no Brasil", comentou o diretor, que exibe o longa-metragem pela primeira vez no exterior.   "Não vai levar o Urso de Ouro, mas levanta uma bela discussão e tira a poeira de filmes um tanto mofados e nada vibrantes que vi durante esta semana", confessou outro jornalista ao colega de bastidores.   Seja como for, a acolhida da imprensa em Berlim foi positiva. Padilha e equipe foram bombardeados com as questões sobre a realidade de filmar numa favela, a legalização do consumo de drogas, a violência da guerra do tráfico, o ponto de vista de um policial e, claro, a pirataria fenomenal que envolveu o lançamento no Brasil.   O diretor afirmou que ele e a The Weinstein Company, produtora dos lendários irmãos Weinstein responsável pelo filme no exterior, contrataram duas empresas de pesquisa boca-a-boca para saber quantos brasileiros de fato viram o filme em cópia pirata. Segundo o resultado, cerca de 11 milhões. Destes, 66% afirmou que não voltaria a ver o filme no cinema.   "Começamos perdendo milhões de pessoas. É muito difícil responder como eu acho que o filme seria visto se não tivesse sido fenômeno de pirataria. Mas o fato é que ser visto por tanta gente gerou sim uma discussão enorme sobre, por exemplo, a legalização do comércio de drogas no Brasil. Eu sou a favor e acho que as drogas deveriam ser legalizadas. Há muito o que se discutir, mas há também um sistema que criamos e que podemos mudar", conclui o diretor, que nesta segunda às 16 horas apresenta oficialmente seu filme na sessão de gala e, em seguida, participa de evento oficial na Embaixada Brasileira em Berlim.

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