Quando o social interfere na vida privada

Fãs de futebol e do cinema politizado do inglês Ken Loach não podem perder Meu Nome É Joe. O filme, distribuído nos cinemas pelo grupo Estação, já saiu em vídeo no selo Cannes, do Consórcio Europa. Até o fim do ano, sai também em DVD. É ótimo. Integrou a mostra competitiva do Festival de Cannes de 1998. Ganhou o prêmio de melhor ator - Peter Mullan não é menos que prodigioso no papel-título.Até por tratar de futebol, num ano de Copa do Mundo, não faltou quem, em Cannes, acusasse Loach de oportunismo. E mais - o filme foi chamado de obra menor. Não é. Loach, aliás, deu entrevista à Agência Estado, na época, recusando a divisão entre obras maiores e menores. Como autor, reconhecia em Meu Nome É Joe a mesma ambição de Terra e Liberdade e A Canção de Carla.O futebol está presente no filme, mas Meu Nome É Joe não é sobre futebol. É uma história de amor permeada pelas conhecidas preocupações políticas e sociais do diretor. Mullan é Joe, um desempregado (e ex-alcoólatra) que treina um time de várzea. Esse time usa as camisetas da mítica seleção brasileira de 1970, que ganhou o tri. Pelé, Jairzinho, Carlos Alberto, Rivelino, Tostão e Gérson são todos citados. Joe envolve-se com uma assistente social, interpretada por Louise Goodall. O romance é dificultado pelas ligações de ambos com o casal formado por outro desempregado e uma junkie.A barra pesa quando os desempregados se envolvem com traficantes. A love story termina em aberto, num cemitério, expressão de um mundo em crise. Loach quer falar sobre a precariedade dos sentimentos, sobre a interferência do social no privado. Crítico ferrenho da Dama de Ferro Margaret Thatcher, ele não é menos ferino em relação a Tony Blair. Permanece um diretor da geração 68, não renegou seus anseios revolucionários - por mais que eles pareçam anacrônicos nesse novo mundo globalizado que ingressa no terceiro milênio.Como sempre em se tratando de Loach, a direção de atores beira o sublime. Jean-Luc Godard disse certa vez que todo filme, mesmo de ficção, é um documentário - nem que seja sobre os seus atores. Loach deixa o espectador com a impressão de que está vendo pessoas filmadas por uma câmera oculta, não atores que participam de uma encenação. Seu método é colocar em cena atores que possuem páginas de roteiro com outros que improvisam. Isso mantém todo mundo ligado no set. Às vezes ele alterna posições. Lembra, a propósito, uma frase de Jean-Louis Trintignant, que disse que, no cinema, não existem bons e maus atores. Existem bons e maus diretores. O bom diretor é aquele que coloca o ator diante da câmera, que estabelece sua ligação com o cenário para estabelecer uma visão de mundo e, finalmente, leva o intérprete a se superar. Loach, por esse critério, é um grande diretor - um dos maiores diretores de atores do mundo.Meu Nome É Joe - (My Name Is Joe). Inglaterra, 1998. Direção de Ken Loach, com Peter Mullan e Louise Goodall. Consórcio Europa. Colorido, 105 min. Já nas locadoras, até o fim do ano também em DVD.

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