'Quando Eu Era Vivo' tem a esperteza de insinuar aos poucos

Filme é baseado no livro 'A Arte de Produzir Efeito Sem Causa', de Lourenço Mutarelli

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2014 | 18h25

Mais que no terror, Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra, investe no clima de suspense psicológico. É baseado no livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli, que faz uma ponta no filme. O universo de Mutarelli, autor de O Cheiro do Ralo e Natimorto, se sabe, é o da estranheza. E essa é a inspiração literária que passa do papel ao filme.

 

 

 

 

Pensemos no que vem a ser a estranheza. É o mundo do terror, das almas do outro mundo, dos sustos, dos seres terríveis que virão nos destruir? Não. O mundo da estranheza se instala no cotidiano. Mas um cotidiano levemente desfocado, que nos leva a desconfiar da natureza ambígua e pouco segura das coisas. É uma falha na nossa percepção do universo como algo estável, amigável e acolhedor. Por isso, o ambiente doméstico, o nosso lar, o nosso porto seguro, seja a ambientação ideal para o estranho. Freud escreveu um artigo excepcional sobre o assunto, chamado exatamente de Das Umheimlich – uma das traduções possíveis seria “o estranho familiar”.

Bem, daí o ambiente preferencial e quase exclusivo de Quando Eu Era Vivo ser o apartamento da família. É para lá que retorna Júnior (Marat Descartes), para passar uma temporada com o pai (Antonio Fagundes) quando seu casamento fracassa. Na casa, Júnior encontra seu quarto ocupado pela estudante de música Bruna (Sandy Leah). Júnior é convidado a dormir no sofá da sala. Mas ele prefere se mudar para o quartinho de despejo, onde estão as coisas da mãe, já morta. Eis aí o quadro no qual vai se desenvolvendo esse drama mental, no interior do qual a memória desempenha seu papel. Como personagem adicional, um irmão de Júnior, internado num hospital psiquiátrico, e do qual o pai não quer falar muito.

Aliás, o pai não quer falar de nada relacionado ao passado. Está preso ao presente, e de uma maneira um tanto forçada. Cuida obsessivamente da forma física, é bronzeado e namora uma mulher do prédio. Mas também existe algo de tão artificial quanto seu bronzeado quando se recusa a falar do passado e repudia os objetos da mãe, que Júnior se obstina em trazer de volta a vida. E há Bruna, essa garota de ar inocente, que nunca entendemos direito como se encaixa na história, a não ser como um elemento de deslocamento a mais no já conturbado universo de Júnior. Ela é quem ocupa o seu quarto, exatamente aquele aposento que ele dividia na infância com seu irmão, hoje no Juqueri.

Esse quadro vai, aos poucos, mostrando suas rachaduras e deixando à mostra (mas nunca de maneira explícita) o centro nervoso da história: o que existe de perturbador num passado que se deseja esquecido e reprimido?

A progressiva fratura familiar só se sustenta por sua sutileza. Ou seja, pela maneira como a história é dirigida por Marco Dutra. Nada há de muito explícito nessa história que, numa concepção menos ambiciosa, apareceria para despertar o medo do espectador. Dutra prefere insinuar aos poucos os elementos perturbadores e o faz com um sentido visual que amplia a sua dimensão claustrofóbica. Não se trata apenas de mexer-se em ambientes estreitos, mas expressar visualmente a própria estreiteza daquelas vidas.

Cabe ressaltar, também, o elenco bom e bem dirigido. Marat Descartes, em interpretação calcada no Jack Nicholson de O Iluminado, mostra, mais uma vez, a variedade de expressões contida em seu estilo cool – e, nesse ponto, muito diferente de Nicholson. Fagundes está ótimo, com sua intensidade econômica de ator tarimbado que sabe jogar o jogo. Às vezes implicam com ele, porque trabalha muito e aparece demais. Mas esta é outra história e diz respeito à cultura brasileira de não perdoar o sucesso. Nem Pelé escapa. Por fim, Sandy, cuja escolha parecia apenas jogada de marketing, dá conta do recado proposto. Tem mesmo o ar inocente que sua personagem exige, e consegue passar a ponta de mistério que apimenta a história.

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