Pulsação de Porto Alegre em 90 min

'Ainda Orangotangos' reduz 14 horas da vida da cidade gaúcha numa só tomada

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 de setembro de 2005 | 15h25

Diretor gaúcho de 36 anos, Gustavo Spolidoro faz um cinema de experimentação que lhe tem valido elogios (e fãs) em festivais do País. Seu curta Outros, narrado em plano-seqüência (tomada única), virou referência de ousadia e criatividade. Por conta disso, havia grande expectativa em relação à estréia de Spolidoro no longa. O problema é que, sendo O Homem Que Mudou o Mundo um tanto caro - R$ 3,5 milhões -, ele não conseguiu levantar a verba da produção. O Homem seria um projeto de decupagem tradicional. Em vez disso, Spolidoro elegeu um BO - produção de baixo orçamento - e rodou Ainda Orangotangos, que estréia nesta sexta-feira, 5, num único plano-seqüência. Mas ele adverte que não buscou uma história para fazer Ainda Orangotangos desta maneira. Foi o livro de Paulo Scott que lhe apontou o caminho.   Veja também: Trailer de 'Ainda Orangotangos'    "Foi o casamento perfeito", explica o diretor, que reside em Porto Alegre, onde o filme estreou na semana passada. Spolidoro passou a semana em São Paulo, concedendo entrevistas e mostrando seu filme para a imprensa. Ele ainda não sabia como foi a receptividade dos porto-alegrenses a Ainda Orangotangos - "Estou meio desligado de lá, envolvido nessa outra etapa de divulgação" -, mas espera que tenha ido bem. "A história passa-se em Porto Alegre e integra a vida da cidade à ficção." Foi, aliás, o que o atraiu. "São tramas do dia-a-dia sobre personagens que transitam por ruas e prédios que conheço e reagem de forma instintiva, até primitiva, aos desafios da vida, pois ainda são orangotangos. Selecionamos seis contos - o plural refere-se aos sócios de Spolidoro e ao roteirista Gibran Dipp - não tanto porque se interligavam , mas porque davam margem para isso. E todos transitam entre a realidade a fantasia, numa linha muito tênue que chega ao absurdo e ao bizarro." Ainda Orangotangos foi rodado num único plano em Porto Alegre, em dezembro de 2006. Nos anos 40 e 50, o teórico francês André Bazin valorizava muito o plano-seqüência e a profundidade de campo, menos pelo tempo real que colocam na tela do que por outra característica do chamado "campo total". Como dizia Bazin, a profundidade de campo e o plano-seqüência permitem ao espectador que ele próprio faça o corte e estude cada personagem segundo sua vontade. Se o pensamento de Bazin for tomado como cânone, Spolidoro o subverte. Embora filmado numa única tomada de 90 minutos, Ainda Orangotangos não se passa em tempo real e, na verdade, concentra nesse período um relato cuja extensão de tempo é de 14 horas, iniciando-se às 6h45 (da manhã) e estendendo-se até à noite. "Em Porto Alegre, no verão, anoitece mais tarde e nós aproveitamos a passagem do dia para a noite. Fizemos seis tomadas, durante seis dias seguidos. As do segundo e do quarto dias foram as mais satisfatórias, mesmo que não sejam perfeitas. Escolhemos a segunda, o que permite dizer que Ainda Orangotangos foi feito exatamente no dia 8 de dezembro de 2006, entre 19h30 e 21 horas." Spolidoro treinou um mês com os atores - existem cerca de 100 personagens, dos quais 15 são os mais importantes. "Utilizamos dez atores e cinco não profissionais." Os ensaios com eles visavam a criar uma integração como no teatro. "O grau de improvisação dos atores num filme desses é muito reduzido, mas tentamos integrar o virtuosismo do plano-seqüência aos caminhos que eles apontavam nos ensaios", diz o diretor, que ensaiou mais um mês com a câmera antes de filmar.     Ainda Orangotangos (Brasil/2007, 81 min.) - Drama. Dir. Gustavo Spolidoro. 14 anos. Cotação: Regular

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