Público faz fila no Festival do Rio

Havia filas que serpenteavam pela Cinelândia para ver Um Casamento à Indiana, no sábado à noite, e Apocalipse Now Redux, no fim da tarde de domingo. O Cine Odeon BR pode ser a maior das mais de 30 salas que apresentam a programação do Festival do Rio BR 2001, mas foi pequena para acomodar o público que queria ver os filmes de Mira Nair e Francis Ford Coppola. Na Mostra Internacional de Cinema São Paulo ocorre a mesma coisa. O Festival do Rio BR mostra quase 400 filmes. A maioria deles nunca mais será vista no País, mas entre arriscar num filme obscuro ou ver logo a obra aguardada que terá lançamento em breve, os espectadores não vacilam. Investem na segunda opção.Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza, o filme de Mira Nair ainda não tem distribuição assegurada no País, o que justifica a corrida para vê-lo. A nova versão de Apocalipse Now estréia em fim de novembro, numa distribuição da Buena Vista. Os ingressos estavam esgotados desde sexta. Havia ingressos sobrando para ver, por exemplo, o filme do argentino Rodrigo Grande, As Gangues de Rosário, que é muito bom. Havia uma procura extraordinária por ingressos para ver Hedwig: Amor, Morte e Traição, o musical gay de John Cameron Mitchell que virou uma das sensações do evento.Um grande festival de cinema, como é o Rio BR, não é feito só para exibir filmes ou para premiar filmes, como os que integram a Première Brasil e concorrem aos prêmios de R$ 310 mil que a Distribuidora BR dá aos vencedores nas categorias de curta-metragem e longa de ficção ou documentário, de acordo com a votação popular. O Festival do Rio BR promove seminários para discutir produção, legislação, novas tecnologias. No domingo à tarde, houve um encontro, importantíssimo, para discutir o projeto de criação do Instituto Latino de Cinema.Com seu mercado potencial de milhões de espectadores, as cinematografias latinas podem e devem se constituir em alternativas à hegemonia de Hollywood. Pensando assim, autoridades e cineastas de países latinos como Brasil, França, Itália, Cuba, Espanha e Argentina se juntaram e, no recente Festival de Veneza, no mês passado, criaram o Instituto Latino de Cinema. A discussão prosseguiu no Copacabana Palace. O instituto quer mobilizar integrantes de todas as cinematografias de países latinos para lutar por políticas eficientes para o cinema, setor que muito sofre, em nível mundial, com a hegemonia propagada pelo cinema americano. Um dos primeiros objetivos perseguidos é a revitalização dos acordos e relações culturais entre esses países. O velho slogan - o povo, unido, jamais será vencido - está sendo adaptado para o cinema.Esses debates mobilizam produtores, diretores, distribuidores e representantes de entidades. O público quer saber dos filmes. O de Mira Nair é ótimo. Sugere um Cerimônia de Casamento à indiana. Isso é o mais óbvio, o que salta aos olhos: Mira Nair solta sua câmera entre dezenas de personagens, como Robert Altman gosta de fazer. As semelhanças terminam aí. Um Casamento à Indiana trata de um casamento entre integrantes das castas superiores, na Índia contemporânea. O país se moderniza e globaliza. O noivo mora nos EUA, mas foram seus pais que arranjaram a união. Ele conhece a noiva só na véspera do casamento. Ela tem outro, sofre uma decepção.Em Veneza, muita gente se admirou que o júri presidido pelo grande Nanni Moretti desse o Leão de Ouro a um filme que a própria diretora chamou de doméstico. Moretti com certeza quis premiar o olhar amoroso que Mira lança sobre as contradições da Índia atual. Aquela elite canta, dança, o povo na rua leva sua luta diária pela sobrevivência. Imagens de respeitabilidade são destruídas. Descobre-se que o tio que paga a festa abusa das sobrinhas. Mesmo ao custo da pobreza indesejada, o expurgo necessário é feito. Prevalecem o canto, a dança, a interação social. É um filme generoso. Já havia um pouco disso em The Perez Family, que Mira fez sobre cubanos, mostrando que a realidade do Terceiro Mundo não é muito diferente, seja em Cuba ou na Índia. Aquele filme tinha coisas lindas, mas eram vinhetas, pequenos toques isolados que revelavam a natureza dos personagem. O conjunto não era bom. Agora, o conjunto é bom. Mira Nair fez o filme de sua vida.Apocalipse Now Redux ganhou 53 minutos que o diretor havia cortado na versão lançada no fim dos anos 70. Ficou maior, sem ser necessariamente melhor. Claro, é um filme impressionante. Revela, mais que qualquer outro, a desintegração moral que foi, no fundo, o que enterrou os EUA no Sudeste Asiático. Os americanos não podiam ganhar a Guerra do Vietnã porque, ao contrário do que Sylvester Stallone diz em Rambo 2 - A Missão, não eram os good guys. Depois do apocalíptico 11 de setembro, a fala final de Marlon Brando, aquela que precede "horror, o horror"- quando ele fala sobre a natureza do radicalismo político e ideológico, a sua eficiência suicida (e destrutiva) -, ganhou uma atualidade mais do que nunca dramática. Os EUA e seus aliados deveriam ver esse filme e refletir sobre ele antes de se enterrar no Afeganistão.As cenas acrescentadas a Apocalipse Now tornam o filme mais explicativo e reiterativo. Quase meia hora se passa na fazenda dos franceses, com a participação de atores como Christian Marquand e Aurore Clément. Coppola vê a derrocada do império colonial do ângulo dos colonizadores. É um projeto, digamos, viscontiano e, como Luchino Visconti, ele é um cineasta operístico. É a maior crítica que se pode fazer a Apocalipse Now antes como agora. Coppola transforma a Guerra do Vietnã numa ópera. Estetiza o horror. Duas pequenas amostras do equívoco puderam ser sentidas na platéia do Odeon. O público jovem vibrou com o arrogante personagem de Robert Duvall, que só pensa em surfar naquele mar de ondas gigantescas, indiferente à miséria física e moral, à dor. O mundo estava terminando na tela e um celular tocou, o sujeito atendeu e ficou conversando por longos cinco minutos, indiferente aos protestos da platéia. O filme é super, hipercriativo, mas não comove. Provoca uma admiração fria. É estranho, já que seu tema, o horror - do quê? De tudo: da guerra, da vida, do homem -, exigia reações muito mais drásticas e veementes.O argentino Rodrigo Grande recebe a reportagem enfiado numa poltrona do grande salão do primeiro andar do Copa. Deve haver algum engano. O filme é sobre dois presidiários que deixam a cadeia após 30 anos e partem numa viagem sem volta atrás do dinheiro que um deles escondeu, mas principalmente atrás dos amigos. Um filme sobre o drama de velhos, sobre gângsteres veteranos, tango e violência, sobre amizade e honra. O diretor que espera o repórter é um garoto. Rodrigo Grande tem 27 anos, menos que os 30 que seus personagens passam na cadeia. Como um garoto desses pode ter vivência para fazer um filme assim, com essas figuras. Ele ri: "Percebo que sua reação é positiva, mas na Argentina quando as pessoas diziam isso era para me denegrir; achavam que um jovem deveria, quem sabe, ter feito um filme amador, não o filme reflexivo e profissional que espero ter feito; queriam que fosse defeito o que para mim é o mérito de As Gangues de Rosário."Apesar das diferenças, Grande acha que é um filme gêmeo de Nove Rainhas, que tanto sucesso fez em São Paulo. Por que um filme sobre velhos gângsteres? "Porque em países como os nossos, o seu, o meu, infelizmente dominados pela corrupção institucionalizada, tenho a impressão que esses marginais, com seus códigos de honra, encerram uma espécie de reserva moral da nação." Grande já havia feito curtas. Escreveu o roteiro do jeito que achava que devia ser. Conseguiu apoio de um produtor e diretor que admira, Martínez Suárez. Por meio dele, chegou a Adolfo Aristarain, um dos grandes diretores da Argentina, a quem muito admira. Aristarain pôs dinheiro em As Gangues de Rosário. Grande enviou o roteiro a Federico Luppi, um dos grandes atores argentinos, hoje radicado na Espanha. Seduzido pelo roteiro, Luppi aceitou fazer o filme por muito menos do que ganha normalmente. Já que tinha Luppi no elenco, por que não arriscar um grande diretor de fotografia, Felix Monti? Ele também topou, trabalhando por menos do que normalmente ganha. Grande avalia a experiência: "Havia gente que podia fazer o filme profissionalmente; apenas mais um em suas carreiras. Todos vestiram a camiseta do filme, fizeram As Gangues com paixão, com dedicação. Tive muita sorte." Pode ter tido sorte, mas tem também talento. Depois de Nove Rainhas, As Gangues de Rosário, que ainda não tem distribuição no País, é outro filme que o público brasileiro tem de ver.

Agencia Estado,

01 de outubro de 2001 | 16h51

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.