Público consagra 5 x Favela

Filme, que tem Cacá Diegues como mentor, foi aplaudido várias vezes durante a projeção

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2010 | 22h30

Cena de 5 x Favela.

 

PAULÍNIA - 5 x Favela - Agora por Nós Mesmos foi o primeiro filme a de fato empolgar o público de Paulínia. O longa-metragem, dividido, como diz o título, em cinco episódios, foi várias vezes aplaudido durante a projeção, e terminou a sessão consagrado. O produtor - e mentor do projeto - o cineasta Cacá Diegues, apresentou a equipe no palco do Theatro Municipal antes da sessão. "Tenho muito orgulho desse filme e digo isso sem qualquer problema, pois não sou responsável por qualquer das imagens que vocês irão ver", disse. Modéstia. Cacá e sua mulher, Renata de Almeida Magalhães, são os produtores. Mas é claro que Cacá é também um inspirador do projeto.

 

Essa entrega da autoria aos diretores, radicados nas favelas do Rio, é uma maneira de reafirmar o aspecto coletivo desse filme, nascido de oficinas feitas nas comunidades cariocas que, no caso, filmaram a si próprias. O título vem de um clássico do Cinema Novo, 5 x Favela, em que jovens cineastas de classe média (entre eles Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e o próprio Cacá Diegues) filmaram o universo das favelas cariocas. Agora, quase 50 anos depois, chegou a vez de as comunidades exibirem o olhar que têm de si mesmas, e não mais filtrado pela visão da classe média. Vem daí o interesse, a espontaneidade, o frescor dessas imagens que tocaram as pessoas em Paulínia.

 

Há um claro lado militante na base desse projeto. Cadu Barcelos, um dos diretores - são sete para cinco episódios - representou o grupo e disse para a plateia: "Com o apoio do Cacá, falamos de nós mesmos, com o pensamento de que democracia, sem oportunidades, não é democracia." Cadu tem 23 anos e mora no Complexo da Maré. Outros vêm de Cidade de Deus, Vidigal e Caxias.

 

Nesse sentido, em seus episódios, 5 x Favela procura traçar um retrato das comunidades que pouco tem a ver com os estereótipos conhecidos. Num dos episódios, o jovem universitário (Silvio Guindane) financia seus estudos vendendo drogas para seus colegas mais abonados, mas a história reserva um desfecho inesperado para os padrões convencionais. Noutra, um menino resolve roubar um frango para dar de presente ao pai, cansado de levar apenas arroz e feijão na marmita. O humor e o humanismo desse episódio são incríveis. O cineasta Ruy Guerra faz um personagem engraçado, o português pinguço, dono de um aviário.

 

O cotidiano das favelas, com sua violência e tráfico de drogas e gangues, não é escondido. Mas ganha relevo diferente ao que estamos habituados. Vemos também o outro lado, a solidariedade social, o humor, a irreverência, a sensualidade.

 

Alguns críticos se queixaram de que o filme se fixaria em estereótipos, só que de sinais contrários. Por exemplo, num dos episódios se mostra o jovem mais privilegiado induzindo o favelado a delinquir. Noutro, são os meninos brancos que tiram o dinheirinho suado ganho pelos garotos favelados para comprar o frango para o pai de um deles. Clichês, que culpam os privilegiados sociais? Talvez. Mas pode ser apenas outra maneira de perceber a complexa realidade social brasileira, e que ainda não tivéramos no cinema nacional, mesmo porque ele é majoritariamente feito pela classe privilegiada, tenha ela consciência culpada ou não.

 

5 x Favela está longe de ser perfeito, tanto técnica quanto conceitualmente. Quem procurar defeitos vai encontrar. Mas seria uma maneira mesquinha de ver esse filme que pode nos comover e, por que não?, ensinar alguma coisa sobre um tipo de realidade que julgamos conhecer mas só enxergamos sob o filtro do nosso preconceito.

 

Já o outro longa concorrente, As Doze Estrelas, de Luiz Alberto Pereira, não chegou a empolgar, para usar um termo ameno. Na história, um astrólogo, Herculano Fontes (Leonardo Brício) é contratado para trabalhar na equipe de uma novela de TV. Sua função é entrevistar as 12 atrizes candidatas aos papéis principais da novela, e cada qual de um signo do zodíaco. No elenco, belas mulheres como Leona Cavalli, Rosane Mulholland, Silvia Lourenço, Djin Sganzerla e outras. O que faz da espécie de "jornada do herói" do astrólogo Herculano uma tarefa das mais agradáveis, nada semelhante aos 12 trabalhos de Hércules, como chegou a ser comparada.

 

Pereira adiciona outros ingredientes ao filme, que abre com as Parcas prestes a cortar o fio da vida do protagonista. Mas, nesse instante, intervém um personagem, o Destino, vivido por Paulo Betti. Há, assim, a tentativa de falar de astrologia, vida e morte, colocando-as em diálogo com o mundo do mito e do inconsciente. Não faltarão menções a Fellini, com citações a Satyricon e A Cidade das Mulheres. Não faltará também o humor, que salva algumas situações. É engraçado quando, por exemplo, o personagem se transforma em gato ou quando assume o corpo de uma bela mulher - e talvez a alusão a Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho, não seja gratuita.

 

O diretor opta por visual não realista, como forma de dar uma dimensão onírica à sua fábula. O grau de estranheza de algumas situações não deixa de ter interesse. O conjunto é que não funciona e não dá liga, como se a soma das partes não fizesse sentido no todo. Um mapa astral do filme dificilmente daria bom prognóstico para sua carreira. Mas, enfim, isso só as estrelas podem saber.

 

O fato é que, com todos os problemas que possa ter, o filme poderia ter sido discutido com riqueza durante o debate. Pena que o tempo tenha sido empregado com futilidades, com o elenco desfiando sua crença na astrologia e as características de cada signo. Por quase duas horas, a sala de debates do festival ficou parecendo um programa de entretenimento vespertino da TV.

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