"Psicopata Americano" é serial killer mauricinho

O personagem de Christian Bale em Psicopata Americano, Patrick Bateman, é um típico mauricinho dos anos 80. Cuida de si como quem cuida de um deus. Xampu especial para os cabelos, cremes para umidificar a pele, muita malhação para conservar o corpo forte e ágil, roupas de grife, loft no endereço certo, etc. Típico, mas com um detalhe: Bateman é um serial killer. Sai com prostitutas e mata. Mas não são apenas elas as vítimas, pois ocasionalmente esse yuppie gomalinado esfaqueia moradores de rua, por exemplo. Enfim, destrói quem é diferente dele.Há alguns clichês neste filme da diretora Marry Harron, que estréia nesta sexta-feira. O mais notório deles é o detetive vivido por Willem Dafoe, que desconfia de Bateman, procura apertá-lo e fazer com que confesse. Bem, mas essa relação entre tira e acusado nem é tão significativa assim. Ela existe para justificar o gênero, o que não deixa de ser enganoso, já que essa história, tirada do livro de Bret Easton Ellis, não satisfaz o formato habitual, como, apenas para efeito de contraprova, acontece com Hannibal, que também entra em cartaz nesta sexta-feira.Pelo contrário, Psicopata Americano é aquilo que se chamava em outros tempos de filme de tese. Tem uma idéia a defender, e é esta idéia, equivocada ou não, que conforma a estrutura da história, empresta motivação ao personagem e dá sentido àquilo que ele faz ou deixa de fazer.E a tese de Bret Easton Ellis, encampada por Mary Harron não deixa de ser atraente. Segundo o escritor e a cineasta, o homem típico dos anos 80, aquele protótipo absoluto da era Thatcher e Reagan, seria como Bateson: um cara tão vazio, tão competitivo e dependente das aparências, tão separado dos outros quanto de si mesmo, tão superficial e egocêntrico, que só tiraria alguma existência real do ato de assassinar alguém. Esse seria um perfil sociopsicológico possível de Patrick Bateman. Não é impossível que Ellis tenha relido Eliot à sua maneira e feito de Bateman o homem oco da nossa época.Também não é impossível que Psicopata Americano seja o que resta da literatura política contemporânea. Findas as utopias salvacionistas, ficou-se com o mundo real - o da "administração das coisas", expressão que em outros tempos já coube no jargão socialista. Bateman seria o homem unidimensional desse mundo contábil, onde só aparência se leva em conta. Conclusão que poderia conduzir a um moralismo do tipo "o que importa são os valores espirituais", etc. Nada disso. Na saída radical proposta pelo filme, a reafirmação do indivíduo esvaziado é feita pelo crime, pela destruição dos outros, pela crueldade sem sentido. Por isso, há uma certa desolação quando se constata que a confissão final do protagonista não leva a nada: não há catarse, não há alívio e nem sinal de remissão no fim do túnel.Bateman não é um Raskolnikov, atormentado por seu crime e em busca de expiação. E seria ridículo chamar Psicopata Americano, tanto o livro como o filme, de o Crime e Castigo dos anos 80. O romance de Dostoievski é uma das realizações maiores da espécie. O de Bret Easton Ellis, apenas literatura mediana. Mas que tem o mérito de tomar o pulso de um certo mal-estar contemporâneo. É melhor do que nada, e preferível à política do avestruz, que enterra a cabeça na areia quando a realidade não lhe convém. No cinema, essa transcrição um tanto literal do niilismo de mercado ganhou uma forma correta, ainda que convencional, e bem interpretada por Christian Bale. Repare no rosto dele, de vez em quando, e diga se não lembra o de um político brasileiro de triste memória. É uma associação casual, sem dúvida, mas cheia de significado para o espectador brasileiro.Psicopata Americano (American Psycho) - Suspense. Direção de Mary Harron. EUA/2000. Duração: 104 minutos. 18 anos.

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