Psicanalista filma os artesãos da morte

Há depoimentos pungentes, nenhumtão comovente quanto o do coveiro que conta a história da mãeque lhe pediu, entre lágrimas, que deixasse uma abertura nasepultura da filha, pois a menina tinha medo de escuro e elaqueria que entrasse um pouco de luz. O homem diz que nenhumoutro episódio o marcou tanto e há anos ele trabalha nocemitério. Já devia estar acostumado aos rituais da morte.A cena pertence ao documentário feito pela escritora,psicanalista e cineasta Miriam Chnaiderman. Artesãos daMorte terá uma exibição amanhã, às 11 horas, no EspaçoUnibanco de Cinema. Em princípio, a sessão é para convidados,mas Miriam assegura que todos os interessados terão acesso àprojeção. São 18 minutos de duração, fotografia empreto-e-branco de Hugo Kovensky. Funcionários de cemitérios, denecrotérios, um médico discutem o que representa, para cada umdeles, esse contato diário com a morte. Não há narrador. Osdepoimentos valem por eles mesmos.Em Nick´s Movie, seu filme sobre a agonia do diretornorte-americano Nicholas Ray, que estava morrendo de câncer, WimWenders trabalhou nos limites do documentário e da ficção. Fez oque não deixa de ser uma reflexão sobre a própria natureza docinema. É veículo de vida, porque permite às coisas e pessoascontinuarem existindo como imagem, muito tempo após o seudesaparecimento. Mas é veículo de morte porque, nessas imagensparadas no tempo e no espaço, está a própria negação da vida.Esse mistério da morte e a relação entre vivos e osmortos costuma ser trabalhado em chave de ficção pelo cinema.Mortos-vivos, maquiadores de cadáveres, legistas. Você conheceesses personagens. Há até um filme famoso de Tony Richardson:O Ente Querido, baseado no livro de Evelyn Waugh. Ao sevoltar para pessoas que convivem com a concretude da morte,Miriam teve de pensar naquilo que define como "os instrumentosusados pelas pessoas para lidar com o que, para Freud, não erasimbolizável: a morte".É o segundo documentário da diretora, que estreou, em1994, com Dizem Que Sou Louco, sobre loucos de rua. A idéiasurgiu quando Miriam fazia supervisão em postos de saúde daPrefeitura, trabalhando com psicanalistas confrontados com arealidade social de pessoas de poucas posses, que não podempagar uma sessão de análise nos consultórios dos Jardins. Haviaaquele paciente, um pedreiro de cemitério, que levava para apsicanalista as angústias que a profissão provocava nele. Miriamficou tocada com a história e começou a refletir sobre aquestão. Artesãos da Morte é o produto artístico dessareflexão.Há valas anônimas, mas na maioria das vezes ela dárostos aos mortos, filmando os retratos nas sepulturas. Ela sabeque a anulação do morto, na vala comum, exerce um efeitoperturbador sobre as pessoas. Um desses artesãos da morte revelaque encontrou consolo e fortalecimento no espiritismo. É o mesmoque toca e canta no fim do documentário. Uma frase de Miriamresume seu objetivo: "A concepção da morte revela a concepçãoda vida." E é sobre a vida que quer falar.Artesãos da Morte. Documentário. Direção de MiriamChnaiderman. Br/2001. Duração: 18 minutos. Amanhã (10), às 11horas. Espaço Unibanco 1. Rua Augusta, 1.475, tel. 288-6780.

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