Provocativo, filme 'Uma Nova Amiga' seduz o espectador para melhor tirá-lo de seu centro

Provocativo, filme 'Uma Nova Amiga' seduz o espectador para melhor tirá-lo de seu centro

Longa de François Ozon está em cartaz no Brasil

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 04h00

É meio complicado comentar Uma Nova Amiga, de François Ozon, sem incorrer no pecado contemporâneo do spoiler. Enfim, tentemos, mas tem gente que considera estraga-prazer até quem lhe informa a duração do filme.

No começo, temos uma bela exibição do poder de síntese do diretor. Em alguns quadros, ele apresenta a história de uma amizade entre Claire e Laura, que começa na infância, avança pela adolescência e a primeira juventude. Uma delas morre, logo após dar à luz. A sobrevivente, Claire (Anaïs Demoustier), jura, no enterro, cuidar do bebê e apoiar o viúvo, David (Romain Duris). Claire é casada com Gilles (Raphaël Personnaz) e, de fato, sente-se traumatizada pela morte precoce de Laura (Isild Le Besco).

Baseado em história da britânica Ruth Rendell, a mesma de Carne Trêmula, Uma Nova Amiga guarda traços de afinidade com o cinema de Pedro Almodóvar. Em especial, no gosto pelos meandros da sexualidade humana, que não se deixa aprisionar em categorizações fáceis como acredita a gente moralista. Amar, sentir, desejar são verbos de flexões variadas, tanto no sujeito como no predicado. Legislar sobre matéria tão fluida e plástica parece tão inútil quanto tentar tirar água do oceano com um dedal.

Mas, enfim, os preconceitos estão aí, consolidados por milênios de conformismo e pensamento autoritário, e não é tão fácil contorná-los, apesar das evidências em contrário. O interessante do cinema de Ozon é conseguir trilhar os caminhos da sexualidade e do desejo com atenção às nuances e sem mostrar nenhuma vocação para o proselitismo explícito. As coisas são como são e tudo o que se precisa é de um pouco de inteligência e flexibilidade emocional para constatá-las.

Ozon consegue encaminhar esse trajeto de maneira límpida ao aliar o inconformismo corrosivo de Pedro Almodóvar ao rigor do suspense de Hitchcock. De fato, Uma Nova Amiga pode ser visto (também) como uma espécie de thriller amoroso, uma interessante ciranda entre três personagens (ou quatro, já que um deles se desdobra e se divide), sobre o pano de fundo de uma pessoa morta – Laura. Na sua ausência, a personagem projeta luzes e sombras sobre os impasses e impulsos dos que ficaram.

No fundo, Uma Nova Amiga é um filme sobre a questão da identidade. Identidade de gênero, sem dúvida, em especial para um dos personagens, que transita entre os dois de maneira desenvolta. Mas também para Claire, que não sabe muito bem onde colocar seu desejo, ao hesitar entre se sentir atraída por um homem e/ou por uma mulher. Coloca-se em cena a questão das máscaras no jogo da sexualidade, em que fantasias podem muito bem ser intercambiadas pela realidade.

Anaïs Demoustier, como Claire, tira máximo rendimento de sua personagem, ora insegura ora decidida. Mas o show fica mesmo por conta de Romain Duris, que joga com a ambivalência com tamanha desenvoltura que faz o jogo de espelhos proposto pela história parecer muito natural. O filme é filho da psicanálise e da cinefilia, com inúmeras referências a outros filmes e estilos, entre os quais está Laura, de Otto Preminger. Mas não apenas. Como já se disse, veem-se, com clareza, toques de Almodóvar e Hitchcock, distribuídos tanto na temática como na maneira de narrar. Esse mescla variada não leva ao pastiche, mas a um cinema original e provocativo, que seduz o espectador para melhor tirá-lo do seu centro.

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