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Prolixo, 'Azul É a Cor Mais Quente' reserva cenas intensas e cheias de emoção

Diretor busca o limite da representação do desejo humano

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2013 | 21h49

Em Azul é a Cor Mais Quente, temos um drama em dois atos. No primeiro, acompanhamos a educação sentimental de uma adolescente, No segundo, as intermitências da paixão entre Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux).

Emma é uma artista plástica que busca espaço na difícil cena cultural parisiense e, por fim, o encontra. Adèle encaminha-se para o magistério e torna-se professora primária. O “abismo” cultural entre elas não parece tão grande assim. Emma é artista, porém o seu reconhecimento parece encaminhar-se mais para o lado do sucesso burguês que para uma autêntica realização estética. Essa “réussite” social de Emma é um dos aspectos mais fakes do filme de Kechiche. Por outro lado, o litígio entre as duas se dará por uma questão prosaica de ciúmes e não por outro motivo.

Em entrevista, Kechiche rebateu críticas que o davam como voyeur com o argumento de que buscava uma “banalização” da relação homossexual. O verbo “banaliser” foi assim traduzido, e não está errado, mas o conceito, em francês como em português, tem algo de pejorativo, o de tornar alguma coisa trivial. Concedamos, com boa vontade, que ele quis dizer outra coisa. Queria mostrar o amor entre duas mulheres como algo natural.

Certo, mas, como se sabe, sexo e morte são dimensões da experiência humana que colocam sérios problemas à sua representação na tela. São como formas-tabu, irredutíveis, no limite, à representação. Daí, por exemplo, a tentativa de glamourizar a morte como forma de evitar a sua crua realidade. Em Tarantino, a morte é pop; em Kieslowski é quase insuportável. O sexo é embelezado de maneira publicitária em 9 1/2 Semanas de Amor e jogado de forma subversiva em Império dos Sentidos. Em Kechiche há essa questão adicional da temporalidade. Em busca de sua escritura própria, ele precisa alongar a sequência até o limite.

Vale dizer que Azul É a Cor Mais Quente nos reserva momentos de beleza e emoção. As cenas de brigas entre as duas são muito intensas. O mesmo para as de sexo. Enfim, mesmo que o filme tenda para a prolixidade, não se pode dizer que não traga recompensas ao espectador.

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