Guy Ferrandis/SBS Productions/Sony Pictures Classics
Guy Ferrandis/SBS Productions/Sony Pictures Classics

Prolífica e exigente, Isabelle Huppert se destaca pelo distanciamento crítico

No teatro e no cinema, com mais de 120 filmes, Isabelle Huppert acumula prêmios e o trabalho com grandes diretores

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2019 | 03h00

Isabelle Huppert estreou em 1972 no filme Faustine et le Bel Été e, desde então, passados 47 anos, interpretou mais de 120 filmes, o que dá uma média de 2,5 filmes por ano. A média é relativa, pois só este ano ela vai aumentar sua filmografia com mais cinco títulos e ainda vai filmar, fazer teatro. Mlle. Huppert – uma atriz francesa é sempre mademoiselle – é incansável.

Ela explica a efusiva carreira dizendo que faz o que gosta. E Isabelle, a exemplo de seu mestre Claude Chabrol, poderia acrescentar que filma muito, mas nunca não importa o quê, pois ela ainda se dá ao luxo de escolher, e muito. Foi sempre assim, e no início Isabelle provocou ódios viscerais. Protegida, leia-se amante, do produtor Daniel Toscan du Plantier, uma espécie de mecenas do cinema francês, a partir da Maison Gaumont, Isabelle desfrutou de certo favorecimento, mas ninguém é louco de achar que ela não chegou aonde está por brilho e talento próprios.

Filha de pai judeu e mãe católica, Isabelle foi educada em colégios de freiras. A mãe queria que ela fosse atriz, incentivou-a e Isabelle superou toda expectativa. Ganhou duas vezes o prêmio de melhor atriz em Cannes (por Violette Nozière e A Professora de Piano, em 1978 e 2002), mais duas em Veneza (as Copas Volpi de 1988 e 1994, por Um Assunto de Mulheres e Mulheres Diabólicas), recebeu duas vezes o César, o Oscar francês (Mulheres Diabólicas, em 1995, e Elle, 2017), um Urso de Prata (por Oito Mulheres, em 2002) e o Globo de Ouro de melhor atriz de drama (também por Elle). Cannes, cujo júri ela presidiu, outorgou-lhe uma terceira distinção, uma Palma honorária.

A par dessa carreira memorável no cinema, mantém outra, não menos notável – e igualmente premiada – no teatro. Trabalhou duas vezes com Bob Wilson e diz que, com ele, fez a descoberta decisiva – “Quanto mais imposição, mais você encontra seu espaço e sua liberdade. Eu preciso de pressão e a aceito com muito prazer”. A estreia com Faustine não foi das mais expressivas e, no longa de Nina Companaez, sua participação era pequena. A personagem título, interpretada por Muriel Catalá, ia passar as férias no campo e ficava obcecada pela família de um garoto com quem eventualmente ia para a cama. Como concerto campestre, o filme era pródigo em papéis para jovens atrizes, abrigando quase todas as estrelinhas da época – Isabelle Adjani, Nathalie Baye, Marianne Eggérick, Virginie Thévénet, etc.

Isabelle começou a fazer-se notar, dois anos mais tarde, com a comédia transgressora de Bertrand Blier, Corações Loucos, interpretada pelo jovem Gérard Depardieu e Patrick Dewaere. De novo com Depardieu, brilhou em Loulou, de Maurice Pialat, em 1980. Pialat era conhecido por seu naturalismo, mas Isabelle, ao adquirir maturidade, como atriz e mulher, tornou-se a intérprete perfeita para autores como Claude Chabril, Michael Heneke e Paul Verhoeven. É brechtiana de carteirinha, o que significa que não representa com a emoção, mas com distanciamento. Mas, atenção, pois o próprio Brecht sempre advertiu – “Nenhuma cena é um herbário nem um museu zoológico, com animais empalhados. Atores e atrizes têm de saber criar homens e mulheres.”

Ela sabe. Isabelle é casada desde 1982 com Ronald Chammah, com quem teve três filhos – a garota, Lolita, é atriz. Deve ser o casal menos midiatizado do cinema. Ela é guerreira na defesa de sua privacidade.

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