Projeto documenta sonho da França nos trópicos

Cláudio Kahns está de volta. Ele nunca esteve parado, mas nos últimos anos concentrou-se demais no grandioso projeto de Islands of the Moon, o épico sobre o descobrimento do Brasil que deveria ser dirigido pelo americano Michael Cimino. Deveria - a novidade é que o projeto, megalômano emperrou. O marco dos 500 anos passou, Kahns não conseguiu levantar o dinheiro necessário para a parte brasileira, sendo o restante da produção bancado pelo multinacional Ilya Salkind. Ele não desistiu do projeto. Fala em redimensionar a produção, sugere que outro diretor vai ocupar o lugar de Cimino. Cita o nome em off. É alguém ligado ao Brasil e prestigiado. O filme talvez fique até melhor.Island of the Moon continua sendo uma preocupação, mas Kahns está voltado, agora, para outro projeto mais imediato. Um vídeo-documentário que leva o sugestivo título de Os Papagaios Amarelos, produzido pela Tatu Filmes, de Kahns, e a empresa suíça Le CinéAtelier Sarl. O próprio Kahns co-assina a direção com Emmanuelle de Riedmatten. Embora pouco conhecida (e até desconhecida) no Brasil, Emmanuelle, que nasceu em Sion, em 1954, e recebeu seu certificado de etnologia em 1985, é roteirista e diretora com experiência em vários documentários.Na sede da produtora de Kahns, na Rua Duartina, em São Paulo, Emmanuelle, de pés descalços, conta como surgiu a idéia desse vídeo. "Nasceu do livro de Maurice Pianzola, que leva o mesmo título, emprestado do nome que os índios usavam para chamar os franceses desembarcados no Brasil." Eram papagaios, porque tagarelavam sem cessar, e amarelos porque, sendo normandos, eram altos e loiros. O vídeo pretende mapear a passagem dos franceses pelo Maranhão, onde fundaram, no século 17, a França Equinoxial.O livro de Pianzola foi editado no Brasil com esse título, Os Papagaios Amarelos, e a idéia, já aprovada pelo Conselho Editorial da Senac, é fazer coincidir o lançamento do vídeo com uma nova edição do texto, com toda a qualidade e o esmero que merece seu conteúdo. O livro, orçado em R$ 70 mil (uma edição de 2 mil exemplares), ainda depende de patrocínio. As imagens já foram todas captadas. Isso ocorreu em setembro-outubro do ano passado, aproveitando o período em que os Lençóis Maranhenses - as famosas dunas de areia branca - são redesenhados pela brisa oceânica, após um período de chuvas (em torno de seis meses), durante o qual essas mesmas dunas são destruídas pelas águas.É, assumidamente, um filme de viagem, tendo como ator principal o próprio Maurice Pianzola, grande conhecedor da história, da cultura e das artes brasileiras. Emmanuelle, poética, define Pianzola como "o guia da nossa viagem, o conselheiro permanente, o portador do saber." Por meio dele, de suas narrativas, o vídeo vai reconstituir as divertidas aventuras dos franceses no Maranhão do século 17, cruzando imagens antigas à realidade atual "para falar da imutabilidade e das perturbações do Brasil no decorrer dos séculos, da persistência das cores e da luminosidade, da beleza dos corpos, dos problemas humanos e sociais, da desordem ecológica, dos contrastes" - de acordo com um texto especial que Kahns e ela redigiram para divulgar o projeto.Durante a rodagem - câmera na mão, no formato 16 mm -, a equipe reduzida teve algumas surpresas mais do que gratificantes. Numa área de difícil acesso no Maranhão, avançando por uma mata atrás de guias que vão desbravando o caminho, Emmanuelle e Kahns descobrem aquilo de que ninguém sabia a existência - as ruínas de um autêntico forte francês do século 17. Na verdade, não é bem o forte, mas as pedras que constituíam a fundação. Ninguém sabia da existência desse sítio. É um dos objetivos e talvez seja até o principal objetivo do projeto no qual embarcou, com tanta disposição, afirma Kahns. "É preciso resgatar essa página pouco conhecida da história brasileira."Sem chapa branca - Se tudo der certo, logo em seguida ele vai mergulhar de novo na saga de Pedro Álvares Cabral e do Descobrimento, que, em seu projeto, é vista pelo ângulo de Gonçalo Fonseca, um marinheiro português que integrava a tripulação da Capitânea, uma das três naus que compunham a frota de Cabral. A idéia é criar uma bela aventura, tanto quanto possível distante da versão chapa-branca da história oficial. Por que Kahns não dirige ele próprio o filme? "Conheço minhas limitações, mesmo reduzido em relação ao que era antes é um projeto grande, que exige um diretor experiente", diz Kahns. Mas ele está satisfeito com a experiência de Os Papagaios Amarelos, que se destina à TV e, depois, aos cinemas. Espera estreá-lo até 22 de abril, "quando ainda estaremos no marco dos 500 anos; depois, serão 501."

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