Produtora encontrou o mapa da mina

Ela descobriu o mapa da mina. Elisa Tolomelli ainda é jovem, mas esconde a idade: "põe aí 30 e poucos anos". Tem currículo para mostrar. Roteirista, diretora e produtora, foi também diretora comercial da Riofilme. Conhece todos os estágios da realização de um filme, da escrita ao lançamento. Elisa produz atualmente Death in the Water. O filme que assinala a estréia de Gustavo Lipsztein na direção está sendo rodado em Angra. No sábado, houve locações no Rio - uma cena no Hotel Intercontinental, outra na portaria de um prédio em Ipanema.O filme estrelado por Dominic Swain, a Lolita de Adrian Lyne, e por Henry Thomas, que foi (há 18 anos!) o garoto do cult ET, de Steven Spielberg, é uma co-produção da EH Produções, de Elisa e seu irmão, Henrique Tolomelli, com a empresa americana DITW Productions, de Los Angeles. A maneira como se deu essa parceria é que indica como Elisa descobriu o mapa.Quase todo cinema brasileiro atual é financiado pela Lei do Audiovisual, por meio do mecanismo que permite às empresas investirem na produção cultural parte do Imposto de Renda devido. É o mecanismo mais empregado, mas ultimamente não está sendo fácil captar. As empresas estão mais reticentes e, de qualquer maneira, é preciso esperar a virada do ano, quando as empresas fazem o cálculo do imposto devido. Criou-se uma espécie de impasse - quase todo o cinema nacional está no gerúndio, "captando", como se diz.Esse é um mecanismo, o outro é a aplicação de parte da remessa de lucros das empresas, especialmente das majors de Hollywood, que dominam o mercado. Columbia e Warner, principalmente a primeira, são as que mais investem. Canudos, Castelo Rá-Tim-Bum e Eu Tu Eles são todos distribuídos pela Columbia, que investe na produção ou finalização dos títulos que vai colocar no mercado. O Orfeu de Cacá Diegues foi feito em parceria com a Warner. São as duas vias principais. Elisa descobriu a terceira. É outro mecanismo autorizado pela lei, como forma de captação, mas, além de ser menos divulgado, implica certas dificuldades - é preciso ter conhecimento do mercado externo. É do mecanismo da conversão da dívida externa. Funciona da seguinte maneira: o investidor estrangeiro compra títulos da dívida externa brasileira, aplica na produção cinematográfica e, no deságio, embolsa algo em torno de 17% a 20% do investimento. Ou seja, tem esse lucro mínimo garantido, o que torna a operação atraente para ele. Parece simples, mas não é. Pressupõe que o produtor ou diretor brasileiro vá buscar esse investidor lá fora. Elisa conhece esse mercado - e isso faz toda a diferença. Embora jovem, Elisa está há bem uns 15 anos no negócio. Começou em parceria com Alberto Salvá, com quem foi casada. O diretor brasileiro nascido em Barcelona tem a seu crédito obras de renome, como Um Homem sem Importância, e A Menina do Lado. Elisa participou do processo criativo do segundo, de 1987. Salvá escreveu a história do coroa apaixonado pela vizinha jovem. Escreveu o roteiro (e os diálogos) do ponto de vista masculino. Ele é mais velho do que Elisa. Ela achava que era preciso ter o contraponto da visão feminina. Escreveu outra versão, do ponto de vista da menina. No fim, A Menina do Lado fundiu as duas visões num roteiro único. Virou um filme sensível, delicado, "truffautiano". O próprio título faz referência a A Mulher do Lado, de François Truffaut. Depois, Salvá produziu e Elisa dirigiu um filme sobre surfe, Manobra Radical. Montou um estande na feira do filme de Milão para divulgar seu produto, foi a festivais, visitou diversos países, estabeleceu contatos. Esse trânsito entre produtores internacionais foi que lhe permitiu encontrar o investidor para Death in the Water. Mas, antes de chegar aqui, ela foi diretora comercial na Riofilme, de 1993 a 1996. Quando largou a distribuidora de filmes da prefeitura do Rio foi produzir Central do Brasil, de Walter Salles.É um currículo respeitável e permitiu-lhe conseguir a parceria com a DITW Productions, uma produtora independente americana que está bancando o US$ 1,8 milhão da produção de Death in the Water, o thriller psicológico que Gustavo Lipsztein termina de rodar em Angra. A verba paga toda a produção e a finalização, mas Elisa ainda pode captar pela Lei do Audioviosual. Está correndo atrás de dinheiro para a comercialização - sabe que um filme sem exposição na mídia, na hora do lançamento, não existe. Ela ainda nem terminou esse projeto e já se prepara para ingressar em outro. Vai produzir Cidade de Deus, que outro estreante vindo do curta, Fernando Meireles, prepara-se para rodar com base no livro de Paulo Lins. Elisa estima que não será uma produção muito barata. Explica que é difícil filmar no morro, com todo o problema da violência e dos traficantes. Por isso mesmo, não descarta a criação de uma favela cenográfica, como a que Cacá Diegues fez para Orfeu.

Agencia Estado,

11 de setembro de 2000 | 20h06

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