Produtora busca patrocínio para exibir filmes em praça pública

A praça é do cinema, como o céu é do condor. Pelo menos é o que acredita Assunção Hernandes, uma das mais antigas produtoras do Brasil, responsável por filmes como O Tronco e O Homem Que Virou Suco, entre outros. Ela busca apoio para o projeto Cinema para Todos, que consiste na exibição de filmes em praças públicas. Ele foi criado no ano passado e permitiu exibir o filme O Tronco em 20 cidades do interior de Goiás, atingindo um público de 100 mil espectadores. "O projeto foi um sucesso e levou a sétima arte para pessoas que jamais haviam pisado em um cinema", orgulha-se ela.Apaixonada por cinema, Assunção acha vergonhoso que a maioria da população brasileira seja privada do acesso à sua cultura. "No interior, a maioria das pessoas só assiste a filmes na televisão, que praticamente não exibe filmes nacionais." A exibição em praças faria com que mais gente pudesse ver nossos filmes e, por ser gratuita, levaria cultura às camadas mais pobres. "É uma forma de não deixar excluída essa parcela da população."Segundo ela, apenas 8% dos brasileiros vão ao cinema. "Se considerarmos que a décima parte disso assiste a filmes brasileiros, dá para ter uma idéia do mercado que temos para conquistar." Ela atribui esses baixos números ao desinteresse. "Ao longo das últimas décadas, as grandes distribuidoras foram perdendo o interesse pelas cidades mais distantes e as comunidades de baixa renda."Há pessoas que nem podem ver filmes estrangeiros. "Em locais distantes, há muitos analfabetos e gente que não consegue ler na mesma velocidade das legendas, ou seja, não são alvo dos filmes das grandes distribuidoras." Assim, os cinemas do interior e dos bairros foram sendo gradativamente fechados ou ocupados por lojas, igrejas evangélicas etc. "Mas filmes brasileiros eles podem assistir sem problemas."O projeto Cinema para Todos prevê a formação de módulos itinerantes, com dois ônibus adaptados, que levariam projetor, tela gigante, arquibancadas desmontáveis e equipamento de som estéreo especial para praças semelhantes ao que se usa em shows de música em estádios de futebol. "Fazendo dessa forma, é possível garantir perfeita qualidade de som e imagem para os espectadores".Cada módulo poderia atingir até 120 cidades por ano, podendo chegar a um público estimado em cerca de 600 mil pessoas. Para isso, seria necessário dispor de R$ 800 mil reais, mas Assunção pensa em crescer aos poucos. "Estamos autorizados pelo Ministério da Cultura a captar R$ 250 mil pelas leis de incentivo." O projeto também prevê a exibição de filmes institucionais de três minutos dos patrocinadores e a montagem de quiosques para distribuição de folhetos dos mesmos.Dependendo da receptividade dos patrocinadores, a tendência é de que o projeto vá crescendo ao longo dos anos. "Gostaria de no futuro, ter dois ou três módulos circulando pelo Brasil e acho que muitas prefeituras poderiam se interessar pelo projeto, que tem enorme alcance popular."Assunção lembra que, quando começou o Cinema para Todos, as estimativas mais otimistas previam reunir cerca de 800 pessoas em cada praça. Na cidade de Corumbá (GO), aconteceu um fenômeno que se repetiu todas as vezes. "Durante o dia, o carro de som da prefeitura local percorria a cidade avisando da projeção." Quando a noite chegou, a equipe do projeto assustou-se com o volume de gente que procurava a praça. "Calculamos que cerca de cinco mil assistiram ao filme. As pessoas iam chegando e se acomodando no chão, nos muros ao redor, onde houvesse lugar para sentar."Ela lembra que houve casos de cidades que tinham nove mil habitantes e pelo menos três mil foram à praça ver o filme. "Isso sem falar que insisti em exibir o filme às 20 horas, quando os políticos locais recomendavam que se evitasse concorrer com a novela da Globo." Para Assunção, isso prova que as pessoas se interessam pelo cinema brasileiro. "As grandes distribuidoras sempre procuraram difundir a idéia de que o brasileiro não se interessa por filmes feitos aqui, mas o projeto prova que isso não é verdade. O problema é que não dão espaço para nossos filmes serem vistos."A bem da verdade, prefeituras poderiam montar a infra-estrutura, que consiste em projetor, tela e equipamento de som, mantendo uma exibição de filmes regular na cidade. O custo não é grande e o retorno pode surpreender. Assunção faz questão de dizer que seu projeto pode ser copiado e adaptado por quem se interessar. "Tudo que for pelo bem do cinema brasileiro tem meu apoio." Ela conta que os filmes poderiam ser projetados em estádios de futebol, que existem aos montes em qualquer cidade de médio porte. "Se fazem shows de MPB em estádios, por que não exibir filmes?"

Agencia Estado,

25 de dezembro de 2000 | 15h51

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