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Prisão de Pepe Mujica pela ditadura militar uruguaia é tema do filme 'Uma Noite de 12 Anos'

"Estamos vivendo tempos muito cínicos, de um apelo muito grande ao egoísmo e ao individualismo. As pessoas de bem se tocam com nossa fábula de resistência, sobre a força que pode ter unido o povo", diz De La Torre, que interpreta o ex-presidente do Uruguai

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2018 | 06h00

Antonio de la Torre, que interpreta o ex-presidente do Uruguai, José ‘Pepe’ Mujica, em Uma Noite de 12 Anos, não se surpreende nem um pouco com a acolhida entusiástica que o filme do argentino Alvaro Brechner teve nos festivais de Veneza, San Sebastián e Biarritz.

“Estamos vivendo tempos muito cínicos, de um apelo muito grande ao egoísmo e ao individualismo. As pessoas de bem se tocam com nossa fábula de resistência, sobre a força que pode ter unido o povo.”

E De La Torre comenta a emoção que teve o próprio Mujica – “Depois ele nos contou como havia sido forte, para ele, reencontrar ‘su vieja’, a velha mãe. Disse que, mais que a ele e seus companheiros, o filme era um tributo à força das mães. Se não fosse a dele, Mujica não tem certeza de que teria sobrevivido.”

Uma Noite de 12 Anos estreia nesta quinta, 27, nos cinemas brasileiros. O filme é uma coprodução entre Uruguai, Argentina, Espanha e França. Será o representante uruguaio no Oscar e no Goya, concorrendo a uma vaga no primeiro com o brasileiro O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues, também uma coprodução com a França, e no segundo com Benzinho, de Gustavo Pizzi.

Uma Noite de 12 Anos reconstitui o longo cativeiro a que foram submetidos Pepe Mujica, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro. Dirigentes do movimento guerrilheiro de Libertação Nacional Tupamaros, foram detidos em setembro de 1973 e mantidos reféns durante 12 anos – a longa noite do título – em diferentes prisões militares.

Na verdade, na maioria das vezes nem eram prisões, mas poços ou celas minúsculas, nas quais o confinamento, somado a maus-tratos físicos, visava a quebrar psicologicamente a resistência desses homens – enlouquecê-los. “Não enlouqueça”, diz a mãe. Resistiram a tudo – fome, incomunicabilidade – para sair em 1985, convertendo-se em referências dentro da Frente Ampla.

Rosencof virou escritor e dramaturgo, Huidobro foi senador da República e Pepe Mujica, presidente. Será interessante, para o espectador, comparar Uma Noite de 12 Anos com a nova versão de Papillon, que deve estrear na próxima semana.

Outra fábula de resistência, mas agora os personagens não são mais guerrilheiros, lutando por uma ideologia, ou um ideal, e sim criminosos. Traído, e acusado de assassinato de um policial, Papillon é enviado para uma prisão na Guiana Francesa, da qual se espera que não retorne.

Dentro da cela, sua atitude é a mesma de Pepe Mujica – medir, em passos, o tamanho do cubículo em que está confinado, e estará, sabe-se lá por quanto tempo. A partir daí, o inquebrantável Papillon vai tentar fugir. Ligado a outro prisioneiro – Louis Dega –, se manterá leal a essa amizade como Pepe e seus amigos são fiéis à causa.

Uma Noite de 12 Anos termina com a celebração – o povo, unido...

Por terrível que seja a história – o diretor diz que fez a sua versão de Uma Estação no Inferno –, ela tem respiros de solidariedade que comovem. A personagem de Soledad Villamil, a médica que ajuda Mujica. Ou o caso de Rosencof/Darín, que se liga ao carcereiro.

Olha o spoiler – o cara nutre uma paixão nada secreta por uma dama, e ele passa a escrever cartas apaixonadas pelo outro.

Reencontram-se anos mais tarde, quando nosso homem volta ao cubículo. E...? O guarda mostra a aliança. E acrescenta – “Mas ela (a mulher) reclama que eu não escrevo mais cartas românticas.” O episódio tem um quê de O Carteiro e o Poeta, o belo filme do inglês Michael Radford com Massimo Troisi, inspirado num episódio da vida do poeta Pablo Neruda.

“Não tem nada a ver”, diz Brechner. “Baseei-me no livro que Rosencof e Huidobro escreveram, mas também fiz longas entrevistas com os dois, com militares, com familiares de presos políticos, especialmente as mulheres. Pepe (Mujica) é particularmente devotado ao papel de sua mãe nessa história, mas minhas conversas com mães e mulheres de presos me ajudou a aprofundar uma ideia que já tinha.

Afinal, é impossível ser argentino sem conhecer as ‘madres de Mayo’, mas em toda parte a luta das mulheres foi a mesma. Guerreiras em defesa das famílias.” A par dessas passagens emocionantes, o filme tem outras engraçadas, se é que se pode considerar engraçada a tentativa de um dos presos de defecar, o que as algemas impedem.

O soldado que o acompanha chama um superior, que não sabe como resolver o imbróglio. Chama seu superior, que chama o dele – o Exército é uma cadeia de comando – e, de repente, todo o quartel está reunido em frente à latrina.

Divertido? “Para mim, essa é uma história sobre a capacidade humana de superação. E eu com certeza tinha muito mais histórias para contar – centenas de anedotas e casos. Um dos mais emocionantes não conseguiu colocar no filme, exceto, talvez, de forma um tanto enviesada. O trio ficou preso em 45 lugares diferentes, ia de um lado para outro. Num desses translados, de olhos vendados, ouviam um jogo no rádio do transporte militar. E eles queriam que a viagem nunca terminasse, para chegar ao fim do jogo. Essa história tem um fundo político, claro, mas é sua humanidade que conquista. Em Veneza, assistimos todos juntos ao filme pela primeira vez – atores, a equipe toda. Nos abraçamos e choramos. E, de repente, na sala de 1.600 lugares, o público não parava de aplaudir. As pessoas choravam também. São momentos que marcam para a vida.”

ENTREVISTA: Antonio de La Torre

"Diretor queria nosso olhar para criar o drama"

É curioso que o filme seja uma coprodução internacional e só um dos atores – o que faz Fernández Huidobro, Alfonso Tort – é uruguaio. Você é espanhol, Chino Darín e o diretor Alvaro Brechner são argentinos. Como se reuniram?

Foram as circunstâncias da produção, mas o risco seria reunir uma equipe global sem comprometimento com o tema. Todos nos comprometemos profundamente. Eu, por exemplo, tentei dar o melhor de mim para esse personagem singular que é Pepe Mujica. Nosso roteiro é muito bom, mas não era suficiente. Viajei ao Uruguai, encontrei-me com Mujica e seus familiares. Pesquisei muito sobre os tupamaros. Hoje em dia, sabemos muito sobre Mujica, que virou uma persona pública. Mas eu queria descobrir o homem em seu interior, para saber como ele conseguiu resistir a tanta barbárie.

O diretor me disse que não escolheu ninguém pela semelhança física. Então, o que foi?

Alvaro (Brechner) sempre disse que queria nosso olhar. Que seria a janela para entrarmos na alma dessas pessoas. E foi o que tentamos fazer. Eu, o Chino (Darín), Alfonso (Tort). Emagreci muito para fazer o papel, mas também, conversando com Mujica, tentei tirar dele todas as informações sobre sua intimidade naquelas celas, que nem eram celas, mas poços. Como ele dormia, no que pensava, como se sentia. E claro que, de posse de tudo isso, eu criei o meu ‘Mujica’, que é o que nós, atores, fazemos. 

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