Principais filmes da Mostra de Cinema Italiano abordam relações familiares

Festival traz produções de realizadores como Gianni Amelio e Pupi Avati

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Dezembro 2014 | 10h15

Pais e filhos, mães e filhas. Alguns dos mais interessantes filmes - os melhores - da 10ª Mostra de Cinema Italiano abordam relações familiares. Aliás, pode até ser ressaca da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas o evento iniciado na semana passada, e que trouxe ao Brasil a diva Mareia Grazia Cucinotta, não está atraindo o público na razão direta de suas qualidades. Tudo bem que o público jovem prefere o novo Jogos Vorazes, mas a frequência na sala do Caixa Belas Artes e no Cine Livraria Cultura anda abaixo da expectativa, ou dos números que edições anteriores da mostra italiana já apresentaram.

É curioso como Gianni Amelio e Pupi Avati parecem ir na contramão um do outro. Em Um Ragazzo d'Oro, Avati conta a história de um jovem ressentido com o pai, mas que termina se sacrificando por ele. O garoto de ouro é um escritor talentoso, o pai foi um roteirista de filmes populares - medíocres, segundo o gosto do filho. A morte do pai lança o jovem numa crise. Ao ouvir falar numa possível obra-prima que ele estaria escrevendo, o protagonista tudo arrisca e tudo sacrifica. Fica louco de pedra, mas restaura, no próprio imaginário, a memória do pai.

E olhem que, no elogio fúnebre, ele fez uma crítica. Disse que o melhor que os pais podem fazer é morrer e permitir que os filhos sigam seu caminho. O pai de Um Fiovane Favoloso, de Mario Martone, sobre a juventude do poeta Giacomo Leopardi, faz de tudo para inibir a carreira do filho. O filme é ótimo, e Elio Germano, que faz o papel, é impecável na expressão da dor e do sofrimento de Leopardi. O filme não narra apenas sua via-crúcis - sofria de uma doença degenerativa que o deixou corcunda - como ilustra a erudição e o processo criativo. O personagem fascina, tanto quanto deprime.

O pai de L'Intrepido/Um Herói Solitário, de Amelio, trabalha como substituto. Tem um filho músico que dificulta a vida de todos ao redor. Chega um momento em que, ao contrário do pai e filho de Pupi Avati, o de Amelio ensaia substituir o próprio filho num concerto. O seu garoto descobre que o importante é amar-se. O filme é lindo. Dá a volta por cima da próprias tristeza e ainda tem na trilha variações em saxofone das mítica Wonder Boy. There was a boy... emocionante. Roberto Faenza, em Anita B, volta ao tema do Holocausto. Uma garota judia que sobreviveu ao campo de concentração vive conversando com a mãe, que morreu. Ao redor, todos querem esquecer o passado numa Europa dividida entre comunismo e americanização. Ela resiste. Quer ser a memória viva do seu povo, da sua família. Farenza tem um belo filme no currículo, Sostiene Pereira, que no Brasil se chamou Páginas da Revolução, com Marcello Mastroianni, sobre a resistência ao salazarismo, em Portugal.

A Mulher do Alfaiate/La Moglie del Sarto, de Massimo Scaglione, com La Cucinotta, também fala de mãe e filha. Uma mãe difamada que faz o sacrifício de gerar o filho que a filha não pode ter. São todos belos filmes - bons. Estarão em cartaz, em diferentes horários, até quarta, na mostra italiana. Mais que dar uma chance aos filmes, dê a você, leitor/leitora, a chance de compartilhar experiências de estética, e vida.

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