EFE/EPA/RONALD WITTEK
EFE/EPA/RONALD WITTEK

Primeiro latino da competição do Festival de Berlim, ‘El Prófugo’ causa estranhamento

Longa-metragem de Natalia Meta conta a história de uma mulher dominada por seus pesadelos

Luiz Carlos Merten, enviado especial, O Estado de S. Paulo

21 de fevereiro de 2020 | 17h44

BERLIM - Nunca se sabe se isso pode ajudar ou não, mas do júri presidido por Jeremy Irons participa o ator italiano Luca Marinelli, premiado em Veneza, no ano passado, por Martin Eden - que deve estrear na sequência nos cinemas brasileiros. Marinelli bem poderia esforçar-se para garantir o prêmio de interpretação masculina para seu compatriota, Elio Germano. Um candidato a melhor ator logo no segundo dia? Se fosse um ator de língua inglesa, Germano já estaria no Oscar de 2021. Uma interpretação daquelas que a Academia gosta. Germano transformou-se fisicamente para incorporar seu personagem.

Volevo Nascondermi, que se pode traduzir como Gostaria de Me Esconder, inspira-se livremente na vida de Antonio Ligabue. Na vida e na arte, ele atravessou o fascismo como o grande solitário da arte italiana. Rejeitado pelo pai, sofrendo bullying na escola, Toni, ou Anton, foi sempre o diferente - e execrado como tal. Dotado de sensibilidade e talento excepcionais, esse autodidata lembra um pouco personagens como o garoto selvagem de François Truffaut, ou o Kaspar Hauser cujo enigma Werner Herzog decifrou num de seus mais belos filmes. Qual é o sentido da arte? Criar beleza, servir como instrumento de investigação da realidade? Van Gogh, numa carta ao irmão Theo, dizia que pintava para consolar - a si mesmo e à humanidade, porque a vida pode ser dura.

Como Van Gogh, Ligabue viveu em instituições. Foi interno como louco. Queria uma vida dita normal - uma mulher, uma casa. Tudo isso lhe foi negado. O filme de Giorgio Diritti resgata essa figura rara de revolucionário da arte. Germano é extraordinário no papel. Além de Marinelli, o júri é presidido por outro ator, e dos maiores - Jeremy Irons. A 70.ª Berlinale mal começou e a Itália já tem chance - está cavando seu espaço. 

Primeiro latino da competição - são dois, e o outro é o brasileiro Todos os Mortos/All the Dead Ones, de Marco Dutra e Caetano Gotardo -, El Prófugo, de Natalia Meta, é uma coprodução entre Argentina e México. O elenco é ótimo - Cecilia Roth, Daniel Hendler, Érica Rivas, etc. -, mas a sensação, no fim da sessão de imprensa, era do mais puro estranhamento. Um filme de gênero - até aí, tudo bem -, mas o que faz esse “intruso” na mostra competitiva de um dos maiores festivais do mundo?

De cara, a protagonista sofre um trauma violento, que somente acentua um problema que já possui - a desordem do sono. Inés está sempre imersa em pesadelos. Quem são essas figuras, não se sabe se reais ou imaginadas, que parecem querer dominar sua mente? Desde a primeira cena, quando a protagonista está dublando um thriller/terror erótico, o sexo faz-se presente como motor do relato e, talvez, da vida de Inés. A par de seu trabalho como dubladora, ela canta - é soprano num coro que se apresenta num teatro. Será só mera coincidência, ou Natalia Meta quis fazer a sua particular versão de O Fantasma da Ópera? Trata-se de um caso de possessão, que termina - não é spoiler - com uma heroína empoderada por meio do sexo. O que representa/são esses volumes/vermes que correm por baixo da roupa acetinada de Inés, até sua genitália?

Por menos atraente que seja o filme, talvez sua justificativa para estar aqui seja o fato de apresentar um vago parentesco com um clássico de David Cronenberg - Gêmeos, Mórbida Semelhança, interpretado por ninguém menos que Mr. President, Jeremy Irons. 

O festival deste ano inclui homenagens a Helen Mirren e King Vidor. A atriz recebe um Urso de Ouro especial de carreira - na quinta, 27 -, com direito a uma aula magna (In Conversation), no dia anterior. Uma seleção de filmes, incluindo O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante, de Peter Greenaway, e A Rainha, de Stephen Frears, permite ao público refrescar a memória de quão grande é a arte de Helen Mirren. Quanto ao rei Vidor, sua carreira faz a ponte do período silencioso ao sonoro. Foi um dos primeiros autores “sociais” de Hollywood, com filmes como The Crowd, The Big Parade e Hallelujah. Fez clássicos do melodrama (Stella Dallas, a Mãe Redentora) e do western (Homem Sem Rumo). Ofereceu a Jennifer Jones papéis inesquecíveis - em Duelo ao Sol e Ruby Gentry/Fúria do Desejo. A Berlinale apresenta 37 de seus 54 filmes em cópias restauradas, uma retrospectiva que, por si só, valeria a vinda a Berlim em 2020.

Sensação no evento, ator Johnny Depp lança ‘Minamata’

Mais que Sigourney Weaver no filme de abertura, My Salinger Year, Johnny Depp foi a sensação da sexta, na Berlinale. Ele veio mostrar, em Berlinale Special Gala, Minamata

O longa de Andrew Levitas é sobre o fotógrafo de guerra W. Eugene Smith, vivido por Depp, que, como Erin Brockovich - a personagem que valeu o Oscar a Julia Roberts -, moveu campanha internacional contra a empresa que poluiu com mercúrio uma baía no Japão, causando deformidades físicas que foram fotografadas por Smith e essas imagens correram mundo e deram origem a uma batalha em defesa do meio ambiente. 

O festival também estendeu o tapete vermelho para a animação, recepcionando San Scanlon, que veio apresentar Onward - no Brasil, Dois Irmãos, uma Jornada Fantástica. A produção estreia no País em 5 de março. 

Conta a história dos irmãos teens Ian e Barley em uma jornada para tentar descobrir se ainda há magia no mundo. Scanlon está ligado a filmes como Carros e Universidade Monstros. Disse que é seu filme mais pessoal. Seu pai morreu quando o irmão e ele eram pequenos. Contou que sempre sonhou com esse pai mítico, que conhecia só de filmes familiares. Nunca tinha ouvido sua voz. Um tio descobriu umas fitas cassetes. O pai dizia apenas ‘Olá!’ e ‘Adeus’. Foi o que bastou para alimentar sua fantasia. O filme é muito bonito.

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