Primeiro filme dos Beatles sai em DVD

Já o chamaram de "o Cidadão Kane dos filmes de rock", mas A Hard Day´s Night (ou Os Reis do Ié-Ié-Ié, como foi intitulado aqui) é até mais do que isso. Ele pode ser marcado como o início daquilo que hoje imaginamos como anos 60, em termos de mudança social e de costumes. Isso tudo pode ser conferido a partir do dia 4, quando estará nas lojas o DVD duplo da Imagem com o filme de Richard Lester, o primeiro dos cinco feitos pelos Beatles.Foi filmado em março e abril de 1964, quando boa parte do mundo, Estados Unidos inclusive, ainda estavam mergulhados na pasmaceira dos anos 50. Até mesmo na música, traz o ímpeto da renovação roqueira. A Hard Day´s Night trouxe à moda o visual um tanto andrógino dos Beatles, seus cabelos peculiares e, até mais importante que isso, um espírito irreverente e crítico.Os Beatles não eram como aquele bem-comportado Elvis Presley que, nas entrevistas, recitava as respostas ensaiadas por seu empresário. E não eram clones, apesar do cabelo e das roupas iguais. Cada um tinha sua personalidade e ninguém tinha dúvidas de quem fosse John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr (este, sem falar daquele nariz). O filme, através dos diálogos de Alun Owen, realçou essa individualidade de cada beatle e ganhou em verdade.A Hard Day´s Night é muito diferente de qualquer filme de rock feito até então. Era esperto, irreverente, feito em estilo de documentário, em preto e branco (Gilbert Taylor copiou - ou pelo menos utilizou - parte das técnicas dos filmes da nouvelle vague francesa, sobretudo a câmara na mão), sobre o que seriam 24 horas na vida do grupo.O lado anárquico do conjunto - mostrado como quatro rapazes loucos para se divertir, tanto no palco quanto fora dele - se casou admiravelmente com o método do diretor Richard Lester (refinado em comerciais de TV e programas ao vivo), que fundiu sua marca registrada, uma montagem frenética, com sequências humorísticas inspiradas nos grandes comediantes do cinema mudo. Na receita entraram ainda entrevistas gravadas em ritmo recorde, pedaços de diálogo entrecortados.Transitando do realista ao abstrato com uma passadinha pelo absurdo, o filme não se leva a sério e nem quer tornar os Beatles respeitáveis (a propósito, em nenhuma hora se diz a palavra Beatles). As situações são verídicas (embora simuladas) em ensaios, entrevistas, shows e gravações. Mostra um pouco do que seriam os vícios dos quatro: eles bebem, fumam, caçam garotinhas, ficam se olhando o tempo todo em espelhos, atacam figuras respeitáveis e querem mais curtir que responder cartas de fãs.Lester não os apresenta como figuiras heróicas ou sábias. Eles são, contudo, responsáveis e leais uns com os outros e têm uma atitude profissional com a música. E que música! Clássico após clássico, que cantam e tocam com evidente prazer: She Loves You, I Should Have Known Better, If I Fell, Can´t Buy me Love, I Wanna Be Your Man, All my Loving, And I Love Her, I´m Happy Just to Dance With You, Tell me Why, a instrumental This Boy e a música-tema, que foi composta da noite para o dia por Lennon e McCartney, a partir de um comentário de Ringo.É um filme que não envelheceu nada e o que nele parece convencional é apenas porque foi muito imitado. Basta ver a sequência de abertura para sentir o espírito dominante. Os Beatles querem entrar num trem e são perseguidos por uma multidão de fãs (foram usadas extras beatlemaníacas de verdade); sente-se a histeria das jovens e a excitação dos quatro roqueiros. Tudo é alternado com a música-título (a primeira vez que isso foi feito).Não há praticamente tempos mortos e muitas cenas são antológicas (como a participação hilária de Wilfrid Brambell no papel do avô de Paul). Muitos críticos dizem que a melhor cena do filme é a da apresentação do conjunto quando os Beatles cantam She Loves You. Os quatro sorriem enquanto cantam e são mostrados alternadamente com rápidas tomadas da platéia, quase toda de adolescentes, que gritam sem parar por toda a duração da música, criando um frenesi difícil de esquecer.Um dos discos do DVD (preço sugerido, R$ 43) tem o filme, com 88 minutos, e o outro mostra 236 minutos de extras, no qual há curiosidades como as da cena em que John Lennon foi substituido por um dublê, pois precisava lançar um livro em Londres e não esteve nas filmagens, a história de que a United só produziu o filme porque foi descoberta uma brecha no contrato com o grupo que lhe dava certos direitos sobre a trilha sonora. Hoje, vendo os Beatles como eram, é difícil lembrar como eles foram polêmicos.O visual da rebeldia mudou, mas passados 38 anos, John, George, Paul e Ringo, ao contrário dos seus fãs de então, são jovens para sempre. E isso nunca foi tão verdade como neste filme.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.