Andrew White/The New York Times
Andrew White/The New York Times

Prestes a se aposentar, Daniel Day-Lewis disputa o Oscar por seu papel em ‘Trama Fantasma'

Filme faz retrato de um gênio corrosivo e controlador, um brilhante e imprevisível estilista no meio do século passado

Reggie Ugwu, The New York Times

24 de fevereiro de 2018 | 13h24

Daniel Day-Lewis, que está na disputa do Oscar 2018estava comentando os mistérios e as curiosidades dos enredos românticos – como as pessoas podem ser governadas por desejos que parecem alheios mesmo para si mesmos. “Não existe estranheza que seja mais bizarra do que as vidas de pessoas aparentemente convencionais na intimidade”, disse ele.

Ele estava apresentando, com alguma provocação, uma justificativa para seu último personagem – um brilhante e imprevisível estilista no meio do século passado, que é o centro do exuberante drama psicossexual de Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma, em cartaz no Brasil.

Mas a observação também pode servir como o tema para todo o filme. Passa-se na Londres da década de 1950, e explora as fronteiras entre o amor e o masoquismo com um toque distintamente andersoniano sobre os antigos romances góticos de Hollywood. Dado que Day-Lewis anunciou, aos 60 anos, que esta será sua última atuação – apesar de ter ganho o Oscar de melhor ator duas vezes na última década (se vencer desta vez também, estabelecerá o recorde de três vitórias na categoria masculina) – trata-se de um mensageiro convincente.

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“Não temos como saber por que as pessoas tomam algumas decisões”, comentou no salão de um hotel no Lower Manhattan, inclinando-se para a frente em um sofá bordado, usando jeans e um suéter listrado, “mas isso funciona para eles”.

Na conversa, Day-Lewis fala pausando a voz em uma cadência medida e um tom delicado e ligeiramente rouco que faria um interlocutor mais insolente silenciar envergonhado. O efeito é simultaneamente dominante e retraído.

Nesta temporada, ele é mais uma vez o tema de burburinho no Oscar, no qual concorre na categoria melhor ator, e foi também indicado para um Globo de Ouro por sua atuação em Trama Fantasma como o fictício estilista Reynolds Woodcock. O longa pode ter um alcance mais preciso do que os trabalhos mais recentes de Day-Lewis, incluindo Lincoln e Sangue Negro com Anderson, pois seu papel é difícil de ser esquecido – um retrato agudo e inesperadamente cômico de um gênio corrosivo.

Em uma manhã recente em dezembro, Day-Lewis e as outras estrelas do filme – a atriz britânica Lesley Manville, que aparece como a imperiosa irmã e gerente de negócios de Reynolds, Cyril; e a atriz de Luxemburgo Vicky Krieps, que interpreta Alma, a obstinada musa do estilista e seu interesse no amor – foram reunidas para discutir o filme como um trio pela primeira vez sem a presença de Anderson.

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Quando se faz a pergunta de forma direta, Day-Lewis recusa-se a explicar a decisão de se aposentar, revelada em junho e que seus companheiros de elenco disseram não ter conhecimento prévio durante a filmagem. “É uma decisão tomada com convicção, mas não totalmente compreendida”, disse ainda ele.

Ele falou reverentemente de sua experiência fazendo Trama Fantasma, que surgiu de anos de colaboração criativa com Anderson. Day-Lewis, conhecido por sua imersão completa em um personagem antes de colocar o pé no set (ele construiu canoas enquanto se preparava para O Último dos Moicanos), foi aprendiz por quase um ano de Marc Happel, diretor de figurino do New York City Ballet, para transformar-se em Reynolds – um fanático por controle com um zelo monomaníaco pela costura, inspirado principalmente na vida real do ícone da moda Cristóbal Balenciaga. Ele estudou desenho, costura manual e drapejamento, em última análise, chegando a pregar 100 botões e refazendo um vestido tubinho de Balenciaga a partir do zero.

“Explorei muitos mundos diferentes e o que eles têm em comum é que eram inteiramente misteriosos para mim no começo. Isso é provavelmente uma grande parte do fascínio – descobrir algo que parece estar fora do alcance, às vezes além do alcance, que o empurra para a frente até entrar em sua órbita de alguma forma.”

O que se tornou Trama Fantasma foi originalmente concebido há cerca de três anos, numa época em que Anderson estava acamado com uma doença. Mais dependente do que de costume dos cuidados de sua parceira, a atriz Maya Rudolph, ele delineou uma história sobre um relacionamento intensamente íntimo entre um homem, sua irmã e uma mulher. Mais tarde, depois que Anderson encontrou uma biografia de Balenciaga em um aeroporto, o homem em sua história tornou-se um mestre estilista com um estilo de vida monástico interrompido pelo novo amor.

“Os estilistas de alta-costura em geral têm a reputação de serem controladores, exigentes e preciosistas”, afirmou o diretor, um improvável fashionista, em uma entrevista por telefone. “Essas características são muito, muito úteis para o nosso personagem.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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