AFP PHOTO / VALERIE MACON
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Presidente do comitê de filme estrangeiro do Oscar 2018 avalia a qualidade dos finalistas

'The Square — A Arte da Discórdia' e 'Uma Mulher Fantástica' estão entre os indicados; cerimônia ocorre neste domingo, 4, em Los Angeles

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 Março 2018 | 20h38

ENVIADO ESPECIAL / LOS ANGELES — O produtor Mark Johnson tem um Oscar em sua coleção, de melhor filme por Rain Man (1988), além de outras nove indicações. Na televisão, ele assina como produtor executivo de séries como Better Call Saul e Halt and Catch Fire. Mas é como presidente do comitê da Academia de Hollywood que cuida do prêmio para a melhor produção estrangeira que Johnson parece se sentir mais à vontade. “É fascinante observar os filmes de boa parte do mundo e ter uma ideia de como o cinema reflete o pensamento humano do momento”, disse ele, que comanda uma equipe com mais de 400 pessoas.

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É com esse olhar abrangente que Johnson avaliou os cinco filmes que ele e seu comitê escolheram como finalistas para o Oscar 2018: o chileno Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio, o húngaro Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi, o libanês O Insulto, de Ziad Doueiri, o russo Sem Amor, de Andrey Zvyagintsev, e o sueco The Square, de Ruben Östlund. 

“Todos têm um denominador comum: não se concentram em conflitos, mas em personagens”, disse ele, em Los Angeles, no sábado de manhã, quando tradicionalmente acontece um encontro público com os cinco diretores finalistas. “Marina, personagem de Uma Mulher Fantástica, poderia facilmente representar um personagem frio, em uma sociedade predeterminada ao preconceito, mas Marina realmente representa o personagem dela mesma”, observou, referindo-se ao personagem vivido por Daniela Vega. “O triunfo desse filme – aliás, bem titulado – é que Marina é um personagem de carne e sangue, que consegue um sucesso superior ao filme que a apresenta.”

O curioso é que o diretor do filme, o argentino naturalizado chileno Sebastián Lelio, contou que o roteiro apenas tomou contorno depois do aparecimento de Daniela. Uma Mulher Fantástica retrata a relação entre uma jovem trans e um homem mais velho. Quando ele morre subitamente, Marina descobre o quanto é mal vista pelos familiares do amante e passa a sofre maus-tratos por parte deles.

“O ponto de partida foi uma questão: o que aconteceria se a pessoa que você ama morre em seus braços e, de alguma forma, no pior lugar, porque você é indesejável, mas precisa avisar a família? Conversei muito com meu corroteirista (Gonzalo Maza) até que surgiu a ideia de essa pessoa ser uma mulher transexual. Travamos aí e não conseguimos mais escrever”, contou Lelio, no sábado. “Parecia muito emocional, mas, ao mesmo tempo, havia o risco de cair em clichês. Nesse momento, eu não tinha a certeza de que queria fazer o filme, parecia muito perigoso, cheio de armadilhas – o que é um bom sinal, mas aterrorizante.”

A chegada de Daniela Vega ao projeto clareou a situação. Inicialmente, ela apenas daria uma assessoria ao roteiro, mas Lelio ficou surpreso com a personalidade dela. “Daniela estava trabalhando em um salão de beleza. Fui buscá-la, fomos a um café e fiquei fascinado, eu a adorei imediatamente. É muito engraçada, politizada e muito, muito inteligente”, lembrou o cineasta. “Depois dessa conversa, decidi que só faria o filme com uma atriz transgênero. Passei um ano em um impasse até descobrir que aquela que nos daria uma assessoria era a nossa estrela.”

O casal protagonista de Corpo e Alma também necessitava de atores especiais para transmitir o clima de estranheza que domina aquela relação. “Escrevi o roteiro freneticamente, em menos de quatro semanas, foi um período apaixonante, pois estava motivada a escrever sobre segredos”, disse a cineasta Ildikó Enyedi. De fato, o longa segue Endre e Mária, trabalhadores de matadouros que sonham em se apaixonar como cervos em uma floresta. “Gosto de assumir riscos e me decidi por atores que transmitiam uma vulnerabilidade com convicção.”

Pelo mesmo caminho, seguiu o russo Andrey Zvyagintsev ao planejar Sem Amor. O filme acompanha Zhenya e Boris, um casal no meio de um amargo divórcio e que precisa se unir para encontrar o filho desaparecido. “Como se tratava de uma relação deteriorada, dolorida, marcada por agressões verbais, busquei atores profissionais, pois era essencial que se tornassem íntimos de seus personagens”, comentou o cineasta, lembrando que o menino escolhido para viver o filho desprezado foi tratado com cuidado. “Pensei em colocar um aviso, ao final do filme: ‘Nenhuma criança foi mal tratada’”, brincou.

Já em O Insulto, Ziad Doueiri buscou a naturalidade e incentivou, em muitas cenas, a improvisação. “Busquei assessoria com minha mãe, que é advogada, e revi fantásticos filmes de tribunal, como O Veredicto, de Sidney Lumet”, explicou ele. “Como são campos opostos numa discussão, era necessário que tudo estivesse bem balanceado.” O Insulto apresenta uma disputa entre Toni e Yasser, um cristão libanês e um refugiado palestino que acabam no tribunal por causa de um xingamento, e o caso assume importância nacional.

O tema dos refugiados interessou Ruben Östlund, em The Square. “A Suécia é um dos países que mais recebem refugiados, mas a paranoia com a violência aumentou muito”, explica. “Assim, busquei tratar do individualismo em uma sociedade como a sueca.” 

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