Prêmio para quem entender "Cidade dos Sonhos"

Se em Veludo Azul a charada era descobrir de quem era a orelha cortada e na série Twin Peaks, quem matou Laura Palmer, o mistério de Cidade dos Sonhos(Mulholland Drive), o novo filme do americano David Lynch, é a trama inteira. Os espectadores de Cidade dos Sonhos, em cartaz na cidade há duas semanas, estão ganhando na entrada da sala de projeção um folheto com dez pistas do diretor que tentam ajudar a desvendar o enigma - ou seja, o próprio filme. Trata-se de uma promoção da distribuidora Europa Filmes/MA. Marcondes, que também convoca os participantes a escrever no site www.europafilmes.com.br as suas conclusões sobre a trama. Os autores das melhores versões vão receber dez títulos em DVD, e outros nove vão ganhar um CD com a trilha sonora do filme. As inscrições vão até 30 de junho. O concurso está mobilizando parte das cerca de 30 mil pessoas (número divulgado pela distribuidora) que assistiram a Cidade dos Sonhos em São Paulo, com as dicas no colo, nas últimas duas semanas. Parte porque Cidade dos Sonhos acaba polarizando opiniões do tipo "ame ou odeie" devido ao enredo confuso, cenas violentas e polêmicas, como as de lesbianismo. "É engraçada essa promoção, já que esse é um filme feito para não se entender mesmo. Esse Lynch é um tremendo charlatão!", diz o crítico Rubens Ewald Filho. Marco Aurélio Marcondes, diretor da distribuidora, garante: "O filme não é claro, mas tem um sentido. E é belíssimo. Atraiu uma bilheteria bem inferior à dos blockbusters, mas muito boa considerando-se a censura do filme (18 anos) e o gênero. Já tratamos o filme como cult." A trama de Cidade dos Sonhos começa com um acidente na Mulholland Drive, estrada que liga Los Angeles a Hollywood. A colisão envolve uma mulher morena e dois motoristas, que estavam prestes a assassiná-la. A morena, desmemoriada, invade a casa de uma atriz famosa que foi filmar no Canadá. Betty, a sobrinha da dona da casa, encontra a morena ali e pensa que a moça é uma hóspede da tia. Betty pergunta o nome da morena. Como ela perdeu a memória, diz chamar-se Rita ao olhar na parede da casa um pôster do filme Gilda (papel imortalizado por Rita Hayworth). Ambas se tornam amigas (e até muito mais do que isso) e começam uma saga em busca da identidade da morena. No desenrolar da história ainda aparecem um monstro que vive em uma lanchonete, um assassino trapalhão, um mágico de um clube sombrio, cadáveres, velhinhos, um caubói e uma tal de Tia Ruth, que vaga pelos cantos do filme como o Wally do livro infantil. Para completar, a certa altura a morena abre uma misteriosa caixa azul e toda a trama muda. Ela passa a se chamar Camilla e a loira Diane e ambas assumem personalidades completamente opostas. "Aí, ninguém entende mais nada", reclama a escrevente Cynthia Zanlochi, 27 anos. O estudante Aleksandar George Sndic, 19, disse que captou "o espírito do filme" e pretende colocar no site sua versão. "Acredito que tudo é um sonho da loira", tenta explicar. "Mas tem duas loiras!", retruca Luiz Carlos Rocha Di Tomazzo, projetista, que assistiu três vezes ao filme. "A Betty é uma atriz e a Diane outra, não é?" "Imagina! Uma mesma loira faz Betty e Diane e uma mesma morena, Rita e Camilla. E tudo é uma neurose da loira. Não gostei", afirma a bancária Ruth Francisco Moço."Não passa de um lixo, enganação", critica a estudante Juliana França, 20, que saiu na metade do filme. "Claro que a trama tem um sentido", retruca Eduardo Vidal, psicólogo da Escola Letra Freudiana. Vidal estudou Cidade dos Sonhos, que viu duas vezes, e prepara uma palestra sobre os signos no filme. Segundo Vidal, o filme de Lynch é sobre o processo de identificação entre duas mulheres, uma história que se passa nos planos da realidade e da idealização. "Para isso, ele carrega nos símbolos. Buñuel fazia o mesmo nas obras dele. É uma história sobre a natureza humana." "É uma história de amor", diz Fabrício Splendor, 23, ator. "É uma história de vingança", emenda a aposentada Maria Cecília Ramos. "Mas gostaria que o diretor explicasse o filme." Mas Lynch insiste em não dar explicações. Só pistas (leia mais nos links). Em algumas entrevistas o diretor disse apenas: "A mente é um lugar maravilhoso para se estar. Não sei qual sua extensão. Mas o fato é que isso me deixa doido." A ele e aos espectadores.

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