Prêmio a 'Tropa de Elite' é visto como desforra após críticas

Filme recebeu elogios e duras críticas dos dois lados do Atlântico e não estava entre os favoritos para o prêmio

FERNANDA EZABELLA, REUTERS

08 Fevereiro 2016 | 20h30

Tropa de Elite, o filme mais comentado e visto de 2007 no Brasil, recebeu o prêmio máximo do Festival de Cinema de Berlim, o Urso de Ouro, em um clima de surpresa e desforra após críticas recebidas dos dois lados do Atlântico. Esta é a primeira vez em 10 anos que o Brasil recebe o Urso de Ouro. Em 1998, Walter Salles foi premiado com Central de Brasil e Fernanda Montenegro com o prêmio de melhor atriz.   Veja Também:   'Tropa de Elite' leva o Urso de Ouro no Festival de Berlim Além de 'Tropa', mais três brasileiros levam prêmios em Berlim Opine: Você acha que 'Tropa de Elite' mereceu ganhar? Confira os vencedores do 58º Festival de Berlim  José Padilha fala à TV Estadão sobre ‘Tropa de Elite'    Tropa de Elite, dirigido por José Padilha e com Wagner Moura como protagonista, narra a luta sangrenta contra o tráfico nas favelas do Rio de Janeiro, na visão dos policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).       Abaixo cineastas, produtores e dríticos comentam a premiação:       Wagner Moura, o capitão Nascimento do filme   Em entrevista ao Jornal Nacional, o ator Wagner Moura desabafa: "Para nós que fomos muito mal entendidos, mal interpretados, muito acusados, foi muito bom. É um sinal de que alguém entendeu o que quisemos fazer. Esse prêmio vem coroar isso aí."   Luiz Carlos Barreto, produtor e cineasta Para o cineasta e produtor de cinema Luiz Carlos Barreto, a premiação realmente tem a importância de "mostrar o vigor e a força do cinema brasileiro". Ele evitou valorizar as críticas da imprensa internacional ao filme.  Logo após a exibição de "Tropa de Elite" em Berlim, o respeitado jornal Variety classificou o longa como "um filme de recrutamento para assassinos fascistas". Mas "Tropa" também recebeu elogios de outras mídias internacionais. "Esse patrulhamento aos filmes são pretensões subjetivas, porque você pode fazer uma leitura do filme por um lado ou pelo outro", disse Barreto, por telefone. "O importante é que o filme tem recebido grande reconhecimento por parte do público."     Cao Hamburger ,  diretor de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias       Já o cineasta Cao Hamburger não viu surpresa na vitória brasileira. Ele considerava o filme um "concorrente forte, um dos favoritos".  Cao é o diretor de "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", escolhido por um júri do Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar --o que deixou "Tropa de Elite" fora da disputa pelo maior prêmio da indústria cinematográfica. Na corrida pela estatueta da Academia, "O Ano" ficou entre os nove finalistas de filme estrangeiro, mas acabou fora das cinco vagas oficiais. "O Ano" também foi exibido em competição em Berlim em 2007 e voltou sem prêmios. "Dou meus parabéns ao filme, foi supermerecido, é uma conquista muito importante, muito bacana", disse Cao.   Rubens Ewald Filho, crítico de cinema   "Veja, que coisa inesperada! Nunca subestime os irmãos Weinstein (Harvey e Bob, produtores, ex-Miramax). Já se supunha que iam dar uma lição de marketing. Eu gosto do filme, não tenho nada contra o filme. Mas retrata uma particularidade muito brasileira, é um filme que não viaja tão fácil. Fico feliz, é um bom filme, é bom pra nós, é bom pra todo mundo. Mas eu acho uma surpresa, especialmente depois de todas as notícias que chegaram de lá.   Fizeram questão de mostrar todas as críticas. Mas os Weinstein, que estão no filme desde o começo, têm um mérito. Não desistem de um filme tão facilmente. Pegam um produto e lutam até ele dar certo. Agora vão lançar nos Estados Unidos, vai nascer todo o ciclo da polêmica, o que é ótimo. Hoje em dia, poucas coisas são polêmicas. Mas será que as frases do filme vão pegar nos Estados Unidos? Para o diretor, sem dúvida, gera mais visibilidade internacional do que o Oscar.   Hoje o Padilha já hoje deve estar com convite para fazer filme lá fora. Berlim também é mercado, todo mundo está lá procurando o filme que vai dar certo em qualquer parte. E o 'Tropa' é assim. É uma boa notícia. Agora quando vierem me perguntar "Nós nunca vamos ganhar o Oscar?", posso responder que já ganhamos mais um Urso em Berlim.   Neusa Barbosa, crítica Para a crítica de cinema Neusa Barbosa, a premiação foi "uma grande surpresa" e também uma desforra. "É, sim, uma resposta para as críticas que Padilha recebeu, tanto aqui no Brasil, como lá em Berlim", disse Neusa, para quem só o fato de o longa ter sido selecionado para a competição em Berlim já era um fato "muito expressivo". "Muitas pessoas achavam que era um filme muito significativo só para nós, que era muito local", disse Neusa. "Mas não é verdade, a violência e essa luta contra o tráfico têm muito mais apelo do que a gente pensa."    Sergio Rezende, diretor da cinebiografia Zuzu Angel   "Vejo o famoso TDB , tudo de bom. Acho maravilhoso, é uma coisa tão difícil do cinema brasileiro conquistar um espaço no mundo. Tem de comemorar muito. O filme tem o Padilha, um diretor começando - faz o primeiro filme de ficção e consegue sacudir o Brasil - e agora vai abrir essa repercussão internacional. O pessoal de Berlim não é brincadeira. Na verdade, acho que já abriu, não é nem mais conjectura, agora já é o fato."   Marco Ricca, ator, que vai fazer seu primeiro longa como diretor, chamado Cabeça a Prêmio   "Sensacional, um filme de pessoas jovens, o primeiro longa do diretor, que pegou uma realidade brasileira e fez uma ficção de uma forma incrível. Deram um prêmio de cinema, para um ator excelente. É momento de festejar. Também vai calar os coveiros do cinema nacional. Gostem ou não do filme, pelo menos que tenham um pouco mais de respeito. Eu fico muito feliz, são pessoas que conheço, por quem tenho muito carinho, sou fã do Wagner Moura e acho que esse prêmio é muito dele."   Zé do Caixão, cineasta   "Com certeza, o Padilha acertou na mosca, e este Urso de Ouro não será para ele só. Será para todos os cineastas brasileiros, para a repercussão mundial, que é o que nos falta. Lá fora, o cinema do Brasil tem cara de "bunda", então quando aparece um trabalho desse e de repente traz um prêmio de um festival, é importantíssimo e para nós, e não só para o setor cinematográfico. Parabéns a ele. Texto atualizado às 23h05  

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