Premiado, "Memórias Póstumas" estréia

Cinco prêmios no recente Festival de Gramado, incluindo os Kikitos de melhor filme e direção. André Klotzel não cabe em si de felicidade: Memórias Póstumas, sua adaptação do clássico de Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas, estréia amanhã em 46 salas de todo o País com o aval de um dos festivais de cinema brasileiro mais importantes (e tradicionais) que existem. Cinco prêmios estão de bom tamanho, mesmo que tenha faltado um, o de melhor direção de arte para Adrian Cooper. Klotzel não quer entrar na polêmica. Nem supervaloriza os prêmios.Acha que a vitória não representa um valor absoluto de qualificação. Seu filme foi o melhor, naquele festival, para aquelas pessoas (os jurados). Mas esses 5 Kikitos representam bem menos que os 11 que ele amealhou por A Marvada Carne, também em Gramado. Alguém poderá pensar que, com essas duas vitórias acachapantes, a história de amor de Klotzel e Gramado seja um mar de rosas. Não é. O diretor lembra que a recepção gramadense para Capitalismo Selvagem não poderia ter sido mais fria. Mas, enfim, aquele é seu filme do qual ninguém gosta. Nem ele.Memórias Póstumas começou a surgir há uns dez anos, quando ele resolveu reler os clássicos - aqueles que a gente é obrigado a ler na escola. Tomou-se de amores por Brás Cubas. Achou que era difícil de adaptar, mas isso, longe de desanimá-lo, serviu como estímulo. Agradece a Julio Bressane. "Com as liberdades que ele tomou com o romance de Machado para fazer Brás Cubas, autorizou-me a dar minha versão sobre o livro." Acha graça com as reações dos críticos, mesmo que Memórias Póstumas tenha recebido o Kikito de melhor filme segundo a crítica. Como o papel e o microfone não recusam nada, tudo (ou quase tudo) foi impresso ou dito na TV e no rádio: ele foi fiel à fina ironia machadiana, foi mais ou menos fiel - na cena com a pretendente manca, ela diz, no filme, "Livre-se do ridículo de casar comigo"; no livro não há a palavra ridículo -; e houve até quem reclamasse de o filme ser excessivamente "narrado", não deixando muito espaço para a imaginação do público.Klotzel sabia que mexia num vespeiro. Afinal um clássico... Mas não se preocupou em agradar a todo mundo. Aliás, seria condenar o filme à mediocridade. Também acha absurdo pretender que esteja assinando a versão definitiva de uma obra como a de Machado. Essa é a sua versão de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Outro, se quiser, que faça a sua. No palco do Cine Embaixador, o palácio dos festivais de Gramado, ele fez o que foi entendido como um desagravo a Reginaldo Faria, que faz o velho Brás Cubas. Faria era considerado forte candidato ao Kikito de melhor ator, com Werner Schunnemann, o ator gaúcho de Netto Perde Sua Alma. Ambos perderam - para o Tony Ramos de Buffo & Spallanzani. Klotzel dedicou o prêmio de melhor filme a Faria. Explica por quê: "Ele é o filme, o filme é ele."Foi muito aplaudido. Parte do público, senão todo mundo, concordou com ele. Está cheio de expectativa em relação ao público. Não faz estimativas quanto ao número de espectadores, mas conta, com satisfação, que o filme vai integrar o projeto cinema e escola do Espaço Unibanco, da rede Cinemark e o da irmã do cineasta Sérgio Rezende, no Rio. Levar o filme para estudantes é fundamental, acredita Klotzel. "Equivale a criar público; estamos investindo no futuro do cinema brasileiro."A polêmica que Klotzel quer evitar, sobre a premiação, é encarada pelo diretor de arte Adrian Cooper. Inglês radicado no Brasil (há 26 anos), Cooper está indignado e com razão. No fim do festival, o presidente do júri chegou para ele com esta pérola: "Seu trabalho foi o melhor de todos, mas resolvemos não lhe dar o Kikito porque seu filme já havia recebido muitos prêmios." Cooper não tem meias-palavras: deplora a covardia dos júris que não têm coragem de defender suas opções e preferem lotear prêmios para que todo mundo saia contente do festival.Ele diz que, embora seu crédito seja de diretor de arte, a função é mais do que production designer no cinema americano. "Minha função é definir o visual de todo o filme com o fotógrafo e, naturalmente, o diretor." Já havia feito a direção de arte de A Marvada Carne. Klotzel chamou-o e foi uma longa preparação para fazer Memórias Póstumas. Não foi fácil montar o conceito do filme, que atravessa 70 anos da vida de uma pessoa e da sociedade na qual ela se insere. Para complicar, o realismo cede espaço para vôos de imaginação na cena do delírio que antecede a morte do herói. Apesar da covardia do júri de Gramado, Cooper ganhou muitos elogios e tem consciência do ótimo trabalho que fez. Mas ainda hesita em definir-se como diretor de arte. Para isso, precisa desistir da definição de fotógrafo, que prefere. Um diretor de fotografia dos bons, que fez, por exemplo os documentários de Ricardo Dias,O Rio das Amazonas e Fé.Memórias Póstumas - Comédia. Direção de André Klotzel. Br/2000. Duração: 102 minutos. 12 anos

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