Premiado em Sundance estréia nos cinemas

Logo no começo de Secretária, o patrão - interpretado por James Spader - põe em funcionamento uma armadilha para os ratos que infestam seu escritório. A secretária - Maggie Gyllenhaal - tem dificuldade para lidar com a engenhoca, mas seria um recurso muito fácil mostrá-la presa na armadilha, até porque a história do filme de Steven Shainberg é mesmo a do envolvimento da garota com seu charmoso chefe. Maggie, a secretária, é tão inábil que, no fundo, é o que o espectador espera que ocorra. Ela não fica presa, mas também não sabe como se desvencilhar direito daquela coisa. Parece banal, mas é um pequeno detalhe significativo do filme que estréia hoje. Secretária chega ao Brasil credenciado pelo prêmio de originalidade que recebeu no Festival de Sundance. Permite uma radiografia interessante do que é, afinal de contas, esse Sundance tão falado, que o ator Robert Redford criou no Utah, batizando seu instituto (e o festival que ele promove) com o nome de seu personagem em Butch Cassidy, grande êxito de Hollywood no fim dos anos 1960. Sundance é hoje reconhecido como a principal vitrine da produção independente nos EUA. Mas Sundance mantém uma relação, no fundo, ambígua, com o cinemão. Os executivos dos estúdios garimpam novos talentos no festival e as oficinas de roteiros que o Sundance promove pelo mundo são sempre, no fundo, para aprimorar - num conceito não muito distante de Hollywood - a arte de contar a história. O que Sundance faz é estimular uma maneira conservadora de inovar. Boa parte da produção independente dos EUA vive nessa contradição: é inovadora, em termos. Não radicaliza, apenas não segue a receita de efeitos milionários do cinemão. São filmes mais comprometidos com pessoas, o que não representa pouca coisa. Secretária é típico. A idéia do filme é bem tradicional - a secretária de miolo meio fraco e o patrão vão descobrir que foram feitos um para o outro -, mas a forma de narrar a história toma algumas liberdades com o que seria uma comédia romântica feita pela cartilha de Hollywood. O mesmo filme poderia ser refeito com Jennifer Lopez ou Sandra Bullock e, formatado para elas, o que há de ácido em Secretária teria de ser consideravelmente diluído. É o que faz a graça do filme. Até atingir seu sonho de Cinderela, a pobre secretária, que se chama Lee, sofre um bocado. É bom definir o que seja esse sofrimento. São as pequenas humilhações cotidianas que quem está no comando costuma submeter, às vezes sem sequer dar-se conta, as pessoas que dele (ou dela) dependem. O tema de Secretária é a submissão. Passa por um calvário físico. Logo na primeira cena, Lee se amarra toda para desempenhar tarefas burocráticas com competência e elegância. Não é fácil para ela e, por isso, logo após esse prólogo entra o letreiro que informa: seis meses antes... Nesse vaivém do tempo, Shainberg constrói suas cenas. A da armadilha, as das sucessivas broncas que o chefe, E. Edward Grey, dá na secretária até aquela, politicamente incorreta, em que ele cansado, aplica um corretivo na moça - e ela e a platéia acham aquilo o máximo. Secretária está longe de ser um grande filme, mas é um filme que você não pode perder. Maggie Gyllenhaal é ótima atriz e ainda há esse lado, digamos, didático para se discutir as alternativas americanas à dominação de Hollywood.

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