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Premiado em Gramado, 'A Bruta Flor do Querer' é obra de uma dupla talentosa

Andradina Azevedo e Dida Andrade mostram talento e entrosamento

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2016 | 04h00

Apesar de todas as tentativas para mudar a imagem do Festival de Gramado, o evento na serra gaúcha permanece aquele que, no País, mais se liga no ritual do tapete vermelho. Em princípio, nada mais alheio ao espírito de Gramado que o longa A Bruta Flor do Querer, de Andradina Azevedo e Dida Andrade, que concorreu aos Kikitos em 2013. Produção barata, de jovens diretores, sem elenco conhecido – os próprios diretores são os protagonistas –, tudo conspirava contra A Bruta Flor. O filme parecia que só ia fazer figuração em Gramado, mas a aposta do programador Rubens Ewald deu certo. A Bruta Flor venceu os Kikitos de direção e fotografia. Sobre o segundo prêmio, os diretores fazem uma revelação curiosa (abaixo).

A Bruta Flor do Querer estreou na quinta, 7, na cidade. Os dois anos decorridos desde a premiação em Gramado foram consumidos – mais de um, com certeza – na liberação das músicas que compõem a trilha. Em Gramado, o filme foi exibido na raça, sem liberação. Quando o filme armou um bochincho, outros diretores e produtores concorrentes tentaram desautorizar A Bruta Flor, dizendo que jamais chegaria ao circuito. “Foi duro, mas chegamos”, comemora Andradina. “Mas não foi como esperava. Tinha a fantasia de que conseguiríamos chegar ao Caetano (Veloso), mostrar o filme, conversar como bróders. Pagamos bem menos que os caras costumam cobrar, e já foi uma vitória, mas eles são blindados, meu. A gente nem chega perto.”

Andradina e Dina assumem que fizeram um filme confessional. Começaram a escrever em 2010, filmaram em 2012. Digital, claro, sem orçamento. Dos R$ 100 mil investidos – a duras penas – na produção, R$ 50 mil foram para a trilha. “Muita gente nos ajudou na concretização desse sonho. Uns trabalharam de graça, outros apoiaram.” Na quarta à noite, ocorreu a pré em São Paulo. “Entramos pela madrugada e terminamos na sarjeta, na Augusta, tomando cachaça com os amigos.” A Bruta Flor é sobre um garoto que sai da faculdade, formado em cinema. O mercado não o absorve, ele vai filmar casamentos. Tem uma relação complicada, vai ao fundo do poço. Dida é quem faz o papel. Andradina é o amigo que lhe dá sustentação. “A Bruta Flor é sobre nós, a nossa geração. O próximo será sobre nossos pais”, anuncia Dida.

Um crítico, dos bons, reclamou da metalinguagem – filme dentro do filme, sobre diretor. Evocou Lacan (esse crítico) – a metalinguagem não existe. Ué, e Jean-Luc Godard? E Ingmar Bergman? A Bruta Flor tem esse lado Godard, nouvelle vague, mas os tormentos do amor, a perplexidade de um garoto contemporâneo diante do desafio proposto pela mulher, isso é puro Bergman. É a melhor parte de A Bruta Flor, embora o diálogo dos garotos seja muito vivo. Às vezes, não dizem coisa com coisa, falam boçalidades. Assim como a metalinguagem, outros críticos investem contra o machismo. As feministas bradam de seus saltos altos. A correção é inimiga da arte. Com os defeitos que possa ter, A Bruta Flor possui uma grande e bela qualidade – é sincero. E isso nos remete a Gianfranco Rosi, o diretor do deslumbrante Fogo no Mar, que na quinta, 7, deu entrevista ao Estado, na inauguração do É Tudo Verdade.

Para Rosi, não existe a divisão entre documentário e ficção. Tudo é filme, tudo é cinema e a divisão que conta é entre falso e verdadeiro. A Bruta Flor é verdadeiro. Boa parte do filme passa-se on the road, os protagonistas no carro, falando sem parar. Ou você entra, ou não. Só para lembrar, Estrada para Ítaca, que foi o cartão de apresentação do coletivo Alumbramento, do Ceará, também se passava na estrada, no carro, sobre um grupo de amigos cachaceiros que jogavam conversa fora e, numa cena-chave, chegavam à encruzilhada de Glauber Rocha. Para onde vai o cinema? Andradina e Dida admitem ter lido Glauber e André Bazin, mas não querem aparentar o que não são. Está tudo lá, mas do jeito simples (e ousado) deles. O sexo (explícito) faz parte do jogo. A metalinguagem? “Só se preocupa com ela quem é do ramo. Nas sessões com público, a questão do trabalho, o cineasta desempregado, passa naturalmente, como a de qualquer profissão. As pessoas até acham engraçada a filmagem do casamento.” A propósito, o casamento não foi encenado. Era real. Uma contribuição das teorias de Bazin.

ENTREVISTA - Dida Andrade e Andradina Azevedo, CINEASTAS

'Blefamos para ganhar o prêmio de fotografia em festival'

Dida Andrade está com 29 anos, Andradina Azevedo com 30. Tinham 26 e 27 quando fizeram A Bruta Flor do Querer. De ressaca, conversaram com o repórter na manhã de quinta, 7.

Por que trabalhar juntos?

Andradina - Temos ambições parecidas, então são as semelhanças, os sonhos. Seria mais difícil se um não estivesse sempre sustentando o outro.

Vocês têm um curta famoso, O Capitão Chamava Carlos...

Dida - É sobre um torturador que chora no fim e o filme foi criticado por isso. Dizem que é nosso filme mais bem dirigido, mas nos parece careta. Resolvemos botar para f... no Bruta Flor.

Confesso que gostaria de estar naquele carro com os garotos, só não sei se vocês vão entender o elogio - eles dizem muita m..., mas me soou verdadeiro. Que tal?

Dida - A questão era essa. Não queríamos transformar nossos personagens em porta-vozes de nada. A gente também toma cachaça, conversa m... Mas não somos nós, literalmente. Tem dramaturgia. E acho que tem também a questão do outro. Tem gente que está saindo na rua batendo panela. Eu não saio, mas entendo quem sai, essas pessoas que se sentem traídas em seus universos. 

Dois Kikitos em Gramado, direção e fotografia. Quem é Gallo Rivas, que assina a fotografia?

Andradina - Somos nós. Blefamos em Gramado, mas é que, quando fomos selecionados, a gente pensou. A fotografia do filme andava sendo elogiada em algumas sessões que fazíamos, tinha gente que comparava a (John) Cassavetes. Achamos que, se a gente assinasse, jamais teríamos chance de ser premiados. E criamos esse fotógrafo espanhol, que não pôde vir ao Brasil para a apresentação em Gramado porque estava filmando. 

 

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