Festival de Berlim
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Premiado em Berlim, ‘Roda do Destino’ de Hamaguchi estreia no Brasil

Longa-metragem de cineasta japonês chega às telas brasileiras nesta quinta (6); seu novo filme ‘Drive My Car’ é um dos favoritos para ganhar o Oscar de filme internacional

Mariane Morisawa, especial para o Estadão

04 de janeiro de 2022 | 20h00

Para o diretor japonês Ryûsuke Hamaguchi, 2021 foi um ano e tanto. Mas, lá em 24 de fevereiro, ele estava simplesmente feliz de participar do Festival de Berlim dali a alguns dias com seu filme Roda do Destino, mesmo que em formato online. “Não sei o que vai representar para minha carreira, mas sei que tenho sorte de participar da Berlinale, com um filme que não é vistoso”, disse ele em entrevista ao Estadão na época.

Corta para dez meses depois. Roda do Destino não só ganhou o Grande Prêmio do Júri em Berlim como entrou em diversas listas de melhores do ano. E, como dizia aquela famosa propaganda, e tem mais!

Hamaguchi lançou um segundo longa em 2021, Drive My Car, que ganhou o prêmio de roteiro no Festival de Cannes, além de ser escolhido o melhor filme do ano pelas associações de críticos de Los Angeles, Nova York e Boston e o melhor filme em língua não inglesa em diversas outras.

Drive My Car é um dos favoritos para ganhar o Oscar de filme internacional.

Nada mau para quem não tinha certeza nem se conseguiria dar conta de fazer duas produções ao mesmo tempo, em plena pandemia – o último dos três episódios de Roda do Destino foi rodado sob os efeitos da covid. “Dois mil e vinte foi muito difícil, mas em 2021 esses esforços deram resultado, graças ao trabalho maravilhoso dos atores e da equipe”, disse ele, poucos dias antes do Natal, em nova conversa com o Estadão para falar de Roda do Destino, que estreia nesta quinta (6) nos cinemas do Brasil.

O longa-metragem é uma composição de três histórias, todas protagonizadas por mulheres. Na primeira, a modelo Meiko (Kotone Furukawa) ouve sua melhor amiga, a produtora Tsugumi (Hyunri), falar de seu novo crush e percebe que se trata de seu ex. Na segunda, o universitário Sasaki (Shouma Kai) convence sua amante, Nao (Katsuki Mori), casada, a seduzir seu professor como vingança. Na terceira, Natsuko (Aoba Kawai) não se lembra do nome de ninguém em uma reunião das colegas da escola. A caminho da estação de trem, cruza com uma amiga que finalmente reconhece.

O acaso está no centro de cada uma das histórias – daí o título do filme. “Vivemos em um mundo em que coincidências acontecem constantemente”, disse Hamaguchi. “Se eu não inserisse as coincidências, não estaria representando o mundo real.” 

Mas representar o acaso é muito difícil. A chance de parecer forçado é bem grande. E, desde que fez um documentário em três partes sobre a tragédia tripla de Fukushima, com terremoto, tsunami e desastre nuclear, Hamaguchi sente que seu cinema de ficção mudou. “Quando voltei à ficção, comecei a me preocupar em como expressar cada cena da maneira mais crua, mais verdadeira.”

+ Crítica: Em 'Roda do Destino', Hamaguchi tenta iluminar o mistério do feminino

Seu estilo de filmar reflete essa busca. “Eu tento criar uma sequência fluida, sem mostrar algo que seja bonito demais. É só uma sequência de planos”, disse. Aos atores, ele dá liberdade. “Eu não sei o que eles vão fazer. E isso resulta em muitos erros. Então eu faço uma colcha de retalhos de bons planos e crio a sequência. Ou seja, esses planos bons vêm de coincidências, de acasos.” 

Mas, antes da filmagem, Hamaguchi gosta de ensaiar. “Eu parto do princípio de que ficar na frente da câmera dá medo”, contou. “Os atores têm medo das críticas e criam autodefesas. Para resolver isso, eu gosto de dizer para eles que sua existência já é maravilhosa.” Outro método é fazer um exercício de leitura repetitiva, em que os atores devem ler o texto sem nenhuma emoção, até que as falas saiam de forma automática. “A possibilidade de errar os diálogos diminui drasticamente. Consequentemente, os atores ficam mais seguros. Fora que esse tempo de ensaio é o momento de comunicação entre os atores e deles comigo.” 

Quem já assistiu a Drive My Car, um longa-metragem baseado em um conto de Haruki Murakami, vai reconhecer o método no personagem principal, Yûsuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima), um diretor de teatro que prepara uma montagem multilíngue de Tio Vânia em Hiroshima. Seria Hamaguchi uma versão mais generosa de Kafuku, que está no meio do luto por sua mulher? “Só um pouquinho mais gentil”, disse ele, sorrindo pela primeira vez nas duas entrevistas – o cineasta é muito educado e agradável, mas sério e compenetrado. 

Ryûsuke Hamaguchi já tinha chamado a atenção com Happy Hour (2015), premiado em Locarno, e Asako I & II (2018), exibido em competição em Cannes. Mas, com Roda do Destino e Drive My Car, ele entrou para o panteão dos cineastas obrigatórios de acompanhar.

Suas premiações mundo afora e principalmente nos Estados Unidos, que normalmente relega produções estrangeiras aos prêmios nessa categoria, são prova disso – e também de que as coisas mudaram desde Parasita.

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