Premiação na Grécia homenageia Robert Altman

Era para ser, e foi, a noite da homenagem a Wim Wenders, que recebeu das mãos de Theo Angelopoulos um Alexandre de Ouro especial, por sua carreira.Mas a esta homenagem superpôs-se outra, com o minuto de silêncio que o mestre-de-cerimônias da noite pediu para Robert Altman, após anunciar a morte do grande diretor. Seria exagero dizer que Tessalonica se vestiu de luto na noite de terça, mas a morte de Altman desencadeou uma onda de nostalgia. Grupos formaram-se, no coquetel oferecido pela Embaixada do Brasil na Grécia, à delegação que veio prestigiar a apresentação de retrospectiva formada por 18 títulos, desde clássicos do Cinema Novo até obras recentes.O próprio Altman considerava-se discípulo de Jean Renoir (A Regra do Jogo), embora seu método de soltar a câmera entre diversos personagens tenha sido assimilado de Luis Buñuel, O Discreto Charme da Burguesia. Em seus melhores momentos, fez grandes filmes MASH, Nashville, Quando os Homens São Homens, Um Perigoso Adeus. Na fase mais recente, há controvérsia sobre Assassinato em Gosford Park e A Última Noite, em cartaz nos cinemas brasileiros. São a depuração do estilo de um sábio ou diluições de um artista que já foi grande. Alguém atualizou a blague de Billy Wilder sobre Ernst Lubitsch - "Nunca mais Robert Altman - pior, nunca mais os filmes de Robert Altman".A noite da homenagem a Wenders foi precedida na terça-feira pelo dia do Brasil em Tessalonica. De manhã, houve a master class de Walter Salles, que dividiu a mesa com Wim Wenders numa conversa sobre o cinema de estrada. Mostraram imagens de seus filmes - Paris, Texas e Diários de Motocicleta. Para falar do cinema on the road, Wenders disse que tinha de voltar no tempo: "Começou aqui, com Homero, o grande viajante." Ele disse que a estrada não é só metáfora da vida. Representa o eterno desejo humano por superação: "É uma fala de Travis, o personagem de Paris, Texas, cujo nome vem de traveller (viajante)", explicou.O filme de estrada é a mãe de todos os gêneros, acrescentou Wenders e Walter Salles destacou outras de suas características - a improvisação e a imperfeição. Salles exibiu cenas do documentário que está terminando de montar. Contratado pela Zoetrope, empresa de Francis Ford Coppola, para adaptar o livro cult On the Road (Pé na Estrada), de Jack Kerouac, ele condicionou a aceitação do projeto a um documentário que queria fazer, percorrendo os mesmos lugares de Kerouac em seu livro. Só assim Salles poderia dizer se o filme é possível. Ele ainda não tem uma resposta, pois ainda não terminou a montagem e também não sabe se o produtor continua interessado. Sua viagem o levou a percorrer os EUA interioranos e conformistas que Kerouac e sua geração, com seu inconformismo, combateram nos anos 50. É, agora, a América profunda de George W. Bush, que não é mais unitária e na qual Salles flagrou uma semente de insatisfação, como há 50 anos. O material apresentado pelo cineasta promete. Também fornece um curioso contraponto - a jornada do jovem Ernesto Guevara, antes de virar o Che, levou-o ao norte do continente, rumo ao México, em Diários de Motocicleta; a de Kerouac levou-o ao Sul, também ao México, em Pé na Estrada. Duas revoluções, uma política e outra comportamental. Será o brasileiro Salles o último revolucionário da tela?A homenagem ao Brasil tem sido marcada por um bom público aqui em Tessalonica, no 47.º festival. Na tarde de quarta-feira, houve uma concorrida sessão de Terra em Transe, de Glauber Rocha. Karim Ainouz e Hermila Guedes foram muito aplaudidos na sessão de O Céu de Suely, que concorre ao Alexandre de Ouro, prêmio maior do festival (que é só para diretores estreantes, até o segundo filme). Cinema, Aspirinas e Urubus, que estréia na Grécia na sexta, também teve uma concorrida sessão oficial. No coquetel, no próprio cine Olympion, Suzana Schild discursou em nome do Grupo Novo de Cinema, que organizou a retrospectiva, com apoio dos Ministérios da Cultura e das Relações Exteriores. Ela foi muito aplaudida ao propor o caminho inverso - uma retrospectiva do cinema grego no Brasil, desde os clássicos até os novos talentos.O repórter viajou a convite da organização do festival

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