TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Projecionista do Cine Belas Artes espera reabertura para receber promoção

Jovem de Cidade Tiradentes nunca havia entrado em um cinema até começar a trabalhar no local; agora, durante a pandemia, ele aprendeu a manejar um projetor de 35mm e se encantou com o resultado

Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 05h00

A primeira vez que o jovem de nome bíblico Sadraque José da Silva, de 23 anos, foi ao cinema foi quando encerrou seu expediente na bonbonnière do Cine Petra Belas Artes. Naquela noite, há alguns meses, já esperavam por ele a esposa Nicole Lorena, de 20 anos, com a pequena Paula Kelly, a filha de 3 anos. A família viu o filme O Rei Leão, título escolhido para entreter a criança e os adultos.

Morador do bairro de Cidade Tiradentes, na zona leste da cidade – a duas horas de distância, duas conduções, um trem e um ônibus até a Rua da Consolação –, Sadraque nunca havia posto os pés dentro de um cinema antes de começar a trabalhar dentro de um, servindo cafezinhos, pipocas e chocolates aos frequentadores da tradicional sala paulistana. Seu emprego anterior também havia sido no ramo alimentício, numa rede de fast-food, preparando hambúrgueres e batatas fritas. 

No fim do ano passado, surgiu a oportunidade de trabalhar como projecionista no cinema, chance abraçada com garra pelo rapaz. “Esse menino é esperto, ligeiro”, atesta e resume Pascoal Aquinos, de 43 anos, colega de Sadraque e também seu mestre na arte da projeção.

Os primeiros filmes que o jovem projetou foram na tecnologia digital, mais simples de serem operados. Sadraque trabalhou quatro meses na nova função, mas então veio a pandemia do novo coronavírus, mudando a rotina de todos, um verdadeiro tsunami digno de um filme blockbuster.

Com o Belas Artes fechado e a rotina menos intensa – afinal, os longas agora só são exibidos no drive-in do Memorial da América Latina –, o rapaz aproveitou para aprimorar seu conhecimento e dar mais um passo na profissão: projetar as antigas películas em 35mm, no modo analógico, tão admiradas pelos cinéfilos de carteirinha. O Belas Artes é um dos poucos cinemas na cidade que ainda possui projetores desse tipo – o IMS é outro.

Pascoal Aquinos é quem novamente está ensinando o passo a passo de como manejar os carretéis de filmes, conferir as bobinas, sincronizar som com imagem, fazer as emendas. Projecionista desde 2004, Pascoal tem uma longa história com os filmes em 35 mm. Seu primeiro emprego na área foi conseguido em novembro de 1997, graças à sua irmã que trabalhava no Cine Alvorada. Em seguida, ele emendou trabalho em outras salas, como Astor, Ipiranga e MIS. Só no Belas Artes, Aquinos soma 13 anos de serviços, já descontados os anos que o cinema ficou fechado por falta de patrocínio. “Nesse período, trabalhei de ajudante de caminhoneiro com meus irmãos”, lembra. 

Perguntado se prefere o sistema digital ao analógico, ele usa uma boa metáfora: “O maquinista que trabalhou com o carvão dificilmente larga os velhos costumes”, declarando seu amor pelas películas.

Na sexta-feira, 4, o Estadão acompanhou o misto de aula e aferição das bobinas que vieram da distribuidora Pandora para serem exibidas, quando o cinema reabrir, na sala Aleijadinho, do Belas Artes. Lá, os dois colegas, de modo ágil, colocaram para rodar um clássico das telas, Morte em Veneza, de Luchino Visconti, rodado na mítica cidade italiana, em 1971. Os olhos do menino se iluminaram com as luzes, cores e sons da fita. Por um momento, naquele limite fantástico da sala escura, onde todos os sonhos e vidas são possíveis, Cidade Tiradentes havia se encontrado com Veneza.

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