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'Preço da Fama' indaga onde está o verdadeiro espírito de Chaplin

Trilha de Michel Legrand termina sendo o grande destaque do longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2015 | 19h30

Xavier Beauvois recebeu elogios demais por seu longa anterior, Homens e Deuses, e talvez de menos pelo atual, O Preço da Fama. Deuses e Homens fez sensação com sua história de religiosos num mosteiro assaltado pela brutalidade do mundo. O silêncio de Deus, tema frequente do sueco Ingmar Bergman, era substituído pelo ruído humano. Era um filme mediano que, na ausência de Robert Bresson, foi supervalorizado. O Preço da Fama é mais desconcertante. Baseia-se no sequestro do cadáver de Charles Chaplin. O fato ocorreu nos primeiros dias de 1978. Chaplin morreu no Natal de 1977, em sua mansão na Suíça. A família fez um funeral reservado, a imprensa mundial comentou que o criador de Carlitos só poderia ter morrido no dia em que Deus, feito menino, trouxe esperança aos homens. Lançado no Festival de Veneza de 2014, O Preço da Fama produziu certo impacto. A estreia na França, apesar do elenco de nomes famosos - Roschdy Zem, Benoit Poelvoorde, Nadine Labaki, Chiara Mastroianni -, foi obscura. A explicação é simples - é outro filme mediano de Beauvois. Mas isso não explica tudo, já que Homens e Deuses, não sendo muito melhor, fez tanto barulho.

O conceito é interessante. Na história real, tão logo o cadáver foi localizado, a viúva de Chaplin, Oona O’Neill, promoveu uma recepção para mil policiais, em agradecimento. Pode-se entender seu gesto, mas nada mais avesso ao espírito de Carlitos que essa promiscuidade com o aparelho repressivo. A polícia sempre entrou nas comédias de Chaplin como o inimigo a ser temido (e evitado). Beauvois parte do princípio de que os dois amigos que roubaram o cadáver de Chaplin são 100% ‘chaplinianos’. Uma dupla meio patética na sua humanidade. Poelvoorde sai da cadeia, sem eira nem beira. É acolhido por Zem, que também está na pior. Sua mulher (a atriz e diretora Nadine Labaki) necessita de uma cirurgia e ele não tem dinheiro. Poelvedoere, que soube pela TV da morte de Chaplin, bola o plano - e se eles roubassem o corpo para exigir resgate?

É uma medida desesperada, mas, afinal, são pobres diabos. E Zem age por amor à mulher e devoção ao amigo - bem mais tarde na narrativa, o espectador descobre, enfim, porque a ligação entre ambos é tão forte. Embora sejam dois - e Carlitos fosse sempre solitário -, não fazem grande diferença no mundo. Não? Xavier Beauvois quer crer que sim. Por isso fez o filme. Tomou suas liberdades. Os ladrões do cadáver eram um polonês e um romeno, que viraram um árabe francês e um belga. Considerando-se que são ‘chaplinianos’ - a verdadeira família? -, a questão que se impõe é relativamente simples. Como se conta uma história dessas? Uma via seria a da comédia à italiana, na tradição de Dino Risi e Ettore Scola. E o problema é que Beauvois não sabe fazer humor. A comédia - a piada? - precisa de um timing. É como o fósforo. Deflagrado, perde o uso. Beauvois emperra seu filme por esse lado. Outra via seria o relato ‘policial’. Também não funciona. Quem viu Homens e Deuses sabe que o cinema de Beauvois não se destaca pelo ritmo. É contemplativo, o que até certo ponto servia àquela história. Investe no diálogo. A coisa também não anda por aqui.

Beauvois tenta uma terceira via. Numa cena, Poelvoorde recorre à ex-namorada, em busca de ajuda. Chiara Mastroianni trabalha no circo. Chaplin era palhaço. Fez um filme chamado O Circo para demonstrar que, ao contrário do que sustentava Cecil B. de Mille (O Maior Espetáculo da Terra), o circo é o menor espetáculo. O fantástico, o maravilhoso também não lhe serve. O filme patina, perdido entre todas essas vias. Mas tem uma coisa que é muito boa. A trilha. A família liberou as músicas do próprio Chaplin, que o grande Michel Legrand repagina, reinventa. Em alguns momentos, você tem vontade de fechar os olhos para sonhar com Carlitos.

 

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