Pré-estréia de "Samba Riachão" agita Salvador

Caetano Veloso aplaudiu com entusiasmo o coloridíssimo Clementino Rodrigues, vulgo Riachão, centro das atenções na pré-estréia baiana do documentário Samba Riachão. A sessão movimentou, na noite de anteontem, o maior cinema do Aeroclube Plaza Shopping. A sala, abarrotada, mostrou-se pequena para abrigar a multidão que foi conferir o longa de estréia do compositor (e agora cineasta) Jorge Alfredo. Muitos assistiram ao filme de pé.Marcaram presença, além de Caetano, vários artistas e intelectuais (o escritor Guido Guerra, o pesquisador Cid Teixeira, o antropólogo Antônio Risério) que ajudaram o cineasta a resgatar parte da história de Riachão, sambista de bem vividos 80 anos, e do samba, que todos garantem ter nascido na Bahia.O mais emocionado dos presentes era Armandinho, ex-A Cor do Som e hoje um dos grandes nomes do choro brasileiro. "Estou fascinado pelo filme. O Jorge (Alfredo) conseguiu resgatar a história de Riachão, como Wim Wenders fez com a velha-guarda cubana, em Buena Vista Social Club. Riachão, um músico que conheci ainda na minha adolescência, merecia mesmo um filme tão maravilhoso." Ao final da sessão, Caetano conversava com amigos, posava para fotos e festejava Riachão. Ao analisar o filme, fez questão de dizer que não se trata de similar baiano do Buena Vista Social Club. Para ele, "Jorge Alfredo realizou um documentário sobre Riachão e sobre o samba. Daí o nome Samba Riachão, no qual a palavra samba pode ser lida como imperativo, ou como substantivo. Por isso, o nome é tão adequado ao filme. Riachão é puro ritmo. Assim como o samba." Caetano tomou contato com o sambista, conhecido como "o grande cronista da Bahia", ainda em sua adolescência, através de programas radiofônicos. Pessoalmente só se conheceram no início da década de 70, quando Caetano retornou do exílio londrino e gravou Cada Macaco no Seu Galho. A marchinha carnavalesca (ou samba), a mais conhecida das composições de Riachão, estourou no carnaval e nas rádios.Jorge Alfredo, músico que abraçou o cinema como novo ofício, fez de Caetano uma das vozes mais importantes de seu primeiro longa-metragem. Num documentário em que todos os depoimentos são bons, os de Caetano e Tom Zé são ótimos. Ao deparar-se com sua imagem num filme, Samba Richão, enquanto aguarda a estréia de outro (Caetano aparece em Hable con Ella, o novo Almodóvar, cantando Cucurucucu Paloma), o diretor de Cinema Falado (1987) não sente vontade de voltar a filmar?Ele diz que seu desejo de voltar à direção é permanente. E que pode fazê-lo a qualquer hora. Mas garantiu não ter nenhum projeto (ou roteiro) pronto. Depois das férias de verão, que ele passa com a família em Salvador, Caetano promete procurar nas locadoras cópia de Felizes Juntos, o filme do chinês Wong Kar-Wai que utilizou, sem autorização, uma das faixas de Fina Estampa ao Vivo na trilha sonora. A mesma Cucurucucu Paloma, agora selecionada por Almodóvar. "Me falaram tão bem do novo filme dele, Amor à Flor da Pele, que penso em aproveitar para ver os dois."Série de TV - Se Caetano não tem projeto definido para voltar à direção cinematográfica, Jorge Alfredo tem dois. Tão logo conclua o lançamento de Samba Riachão (que estréia hoje em dois shoppings de Salvador e, em abril, no Rio e SP), o cineasta vai dedicar-se à edição de série de quatro capítulos, formatada para a TV e intitulada Aqui Tudo Acaba em Samba. Vai, também, concluir o roteiro de sua estréia na ficção, Párvulos. A série processará 92 horas de imagens e depoimentos colhidos para Samba Riachão. "Deixei de fora depoimentos maravilhosos. Caymmi e Gilberto Gil dizem coisas fascinantes; Caetano fala da influência recebida de João Gilberto; Galvão, ex-Novos Baianos, contribui de forma original para mostrar que aqui tudo acaba mesmo em samba", rememora. O projeto ficcional de Jorge Alfredo é bem mais complexo e mais caro que Samba Riachão e a série para TV. Párvulos, história de um grupo de adolescentes que se organiza para cometer crimes, está orçada em US$ 4 milhões. Se o clima cinematográfico baiano continuar com o astral dos últimos 12 meses, tudo aqui acabará impresso em película. Depois de Três Histórias da Bahia, longa que quebrou jejum de 17 anos, veio Samba Riachão.Já em sua estréia no longa, Jorge Alfredo conquistou o Candango de melhor filme (dividido com Lavoura Arcaica) no Festival de Brasília. Agora, José Araripe Jr. filma, nas ruas de Salvador, o drama social Esses Moços. Dia 7, realiza o último take. Aí a Truq, produtora de Moisés Augusto, que assina Três Histórias, Samba Riachão e Esses Moços, dará início à produção de Eu Me Lembro, de Edgard Navarro. O governo da Bahia promete lançar, em março, novo Edital de Produção Cinematográfica para um longa, três curtas e oito vídeos. Enquanto isso, a Companhia Petroquímica do Nordeste (Copene), que bancou Samba Riachão, não esconde seu entusiasmo com o retorno institucional do filme. "Estamos apostando em projetos culturais, que têm a Bahia como tema", avisa José Cerqueira Filho, gerente de Comunicação Social da empresa. "O retorno institucional tem sido muito bom."

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